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Viver no meio dos combates na Ucrânia

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Viver no meio dos combates na Ucrânia

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Uma cidade fantasma – foi no que se tornou Donetsk. São poucos os serviços que ainda funcionam. Grande parte das lojas, dos bancos, dos supermercados, tem as portas fechadas. Muitos habitantes fugiram da cidade, mesmo depois do anúncio de cessar-fogo feito em Minsk, no início de setembro. Os militantes pró-russos da autoproclamada República Popular de Donetsk passaram a ditar as regras.

A indústria mineira era um dos suportes económicos desta região. Agora, a maioria das minas foi destruída. A exploração de Trudivske começou a ser bombardeada em julho. Situa-se a menos de um quilómetro da linha de conflito. Apenas 200 dos 1600 trabalhadores ficaram. O responsável, Sergey Maltsev, explica como é que se viu forçado a praticamente parar a produção: “No dia 2 de agosto, voltaram a bombardear. Depois disso, era quase diariamente. Os trabalhadores começaram a ter medo de descer à mina. A produção continuou até 15 de agosto. Mas eu, como responsável, não tinha coragem para os mandar trabalhar – alguém podia ser apanhado pelos bombardeamentos ou podiam ficar operários lá em baixo. E depois não tínhamos hipóteses de os tirar.”

Gregory Kalugin foi um dos que ficou. Mas o seu trabalho consiste sobretudo em limpar destroços. Apesar de haver partes desertas, há vários habitantes que permanecem na zona. As milícias separatistas avisam os residentes da iminência de um bombardeamento. Inúmeras casas já foram devastadas. Gregory receia que a próxima seja a sua: “Eu vejo as coisas doutra maneira. Para mim, isto não devia ser nem da Rússia, nem da Ucrânia. Devia ser um território à parte, a zona tampão de que os ucranianos tanto falavam.”

Trudivske situa-se entre a cidade de Donetsk e a zona residencial de Mariinka, controlada pelas tropas ucranianas. A linha de fogo circunda esta área. As milícias pró-russas instalaram as bases junto às partes habitadas e à mina de carvão de Trudviske. Para chegar a Mariinka é preciso atravessar os postos de controlo dos separatistas e dos militares ucranianos. Os confrontos entre ambos os lados com artilharia pesada deixaram edifícios arrasados e muitas estórias trágicas. Uma moradora conta o seguinte: “As nossas crianças andam por aí, deixaram de ir à escola. Se for naquela direção, vê uma das escolas destruídas. Outra ficou sem janelas, sem nada. Já nada funciona aqui em Mariinka. Apesar de tudo, ainda temos eletricidade, mas não há gás, não há água. Sobrevivemos como podemos. Conseguimos conservar o carro para ir buscar comida. Mas, na verdade, ninguém se importa connosco – nem os da República Popular de Donetsk, que não estão aqui, nem a Ucrânia, que não precisa de nós para nada. Não precisam de nós…”

Na estrada para Donetsk encontrámos outro posto de controlo militar ucraniano. Entre um amontoado de blocos de cimento, os soldados controlam os carros que circulam. O ambiente é particularmente tenso. Um veículo com separatistas acabou de ser intercetado. Na noite anterior, dois militares foram mortos em ataques à bomba. O capitão “Sasha” declara que “como oficial do exército ucraniano, como pai, como filho, como marido, como comandante dos homens que vêem aqui: é injusto pagar este preço para resolver as questões políticas e financeiras dos ricos.”

Fizemos também a estrada a partir de Donetsk no sentido oposto para descer até Mariupol – o trajeto entra e sai continuamente de zonas que são frentes de combate. Em agosto, a cidade de Ilovaisk foi palco de um braço de ferro que resultou no massacre das tropas leais a Kiev. Foi um ponto de viragem no conflito. O governo ucraniano tinha negociado a retirada dos seus soldados com os insurgentes, num acordo apoiado por Vladimir Putin. Mas os militares foram atacados quando desmobilizavam. Para trás ficaram vários destroços.

A cidade de Mariupol, um importante porto no Mar de Azov, é um centro industrial e um ponto estratégico muito disputado. Localiza-se na região de Donetsk, mas permanece sob controlo ucraniano. Não falta quem diga que o pior está para vir.

A 40 quilómetros de Mariupol situa-se a base do Batalhão Azov, uma organização paramilitar radical que se identifica como defensora do nacionalismo ucraniano, apesar de os seus membros serem muitas vezes apresentados como neonazis. O movimento integra voluntários que se assumem como um complemento do exército ucraniano. Um deles, Stepan Bayda, considera que “o Estado ucraniano deve ser independente e, se calhar, não devia ser democrático, ou pelo menos não uma democracia tal como existe neste momento, porque é irresponsável e injusta. O Estado tem de ser moralmente saudável e, obviamente, possuir uma autoridade sólida.”

Muitos dos habitantes que encontramos nesta região sublinham, acima de tudo, que ninguém entende a essência do problema que se vive aqui – nem a Ucrânia, nem a Rússia.