Última hora

Última hora

Rússia

Em leitura:

Rússia

Tamanho do texto Aa Aa

OK Durão Barroso apadrinha acordo pelo gás entre Rússia e Ucrânia

Dificilmente poderia haver melhor despedida para o presidente cessante da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, que sábado em Bruxelas passa a pasta em definitivo ao luxemburguês Jean-Claude Juncker. Isso mesmo referiu o antigo primeiro-ministro português na abertura da conferência de imprensa, esta quinta-feira à noite, onde foi anunciado o entendimento entre Rússia e Ucrânia e a assinatura do acordo que vai permitir o restabelecimento do fornecimento de gás.

O entendimento entre as partes foi difícil, com o atrito entre ambas as posições a agravar-se gradualmente desde março. O comissário europeu para a Energia, Günther Oettinger foi determinante. De acordo com Durão Barroso, o trabalho de intermediação do alemão entre Kiev e Moscovo prolongou-se por cerca de seis meses. Esta quinta-feira, colheram-se os frutos e no fim houve palmas.

Ainda assim, na Ucrânia, pelas palavras do respetivo ministro da Energia, fica a ideia de não haver plena satisfação por este acordo ainda não definitivo. “Decidimos adotar uma resolução temporária. São algumas medidas preliminares que vão ser implementadas até chegarmos a uma solução final nesta nossa disputa pelo gás com a Rússia, a qual vai ser encontrado perante o tribunal arbitral de Estocolmo”, afirmou Yuriy Prodan.

Do lado russo, o homólogo Alexander Novak sublinhou “cedências em muitos pontos”. “Por exemplo, no preço cobrado pelo gás e na reestruturação da dívida [ucraniana]. Foi esta a nossa contribuição para este compromisso, de forma a estabilizarmos a situação na Ucrânia para que o outono e o inverno sejam mais confortáveis no país. Mas também para que o fornecimento aos consumidores europeus seja igualmente estabilizado”, referiu o ministro russo da Energia.

Cronologia do corte do gás
Desde junho que os ucranianos estavam privados do gás russo devido à crescente tensão entre os dois países desde o início do ano, mas sobretudo, alegou Moscovo, devido à elevada fatura por pagar de Kiev, a rondar os 2,5 mil milhões de euros, por este mesmo fornecimento.

O recente braço-de-ferro entre russos e ucranianos começou há cerca oito meses quando, em Kiev, o então presidente Viktor Ianukovich – político de tendência pró-russa – foi derrubado do poder no clímax de uma revolta popular iniciada a 22 de novembro do ano passado e que ficou conhecida como “Euromaidan”. O atrito agravou-se quando, após um controverso referendo na Crimeia, a Rússia acedeu a anexar a meio de março aquela região autónoma, onde se situa uma das mais importantes companhias energéticas ucranianas, a Chornomornaftgaz, entretanto “nacionalizada” e colocada sob controlo de Moscovo.

O referendo e a consequente anexação da Crimeia, embora ratificados pelo Kremlin, não são reconhecidos pela Ucrânia nem por vasta maioria da comunidade internacional, incluindo União Europeia e Estados Unidos. Curiosamente, de acordo com o ucraniano Kyiv Post (ver “twit” em baixo), a Federação Internacional de Futebol (FIFA), sediada na Suíça, reconheceu a Crimeia como parte da Rússia na recente apresentação do Mundial de 2018.

Com a forte suspeita do apoio de Moscovo aos rebeldes separatistas que “incendiaram” o leste da Ucrânia e proclamaram repúblicas independentes em Donestk e Luhansk, União Europeia e Estados Unidos intercederam e começaram a impor sanções económicas à Rússia. Em resposta, Moscovo alegou a alta dívida de Kiev e cortou, em junho, o fornecimento de gás à Ucrânia, o quinto maior consumir de gás natural da Europa e o 13.° do Mundo.

A Ucrânia, por sua parte, ao integrar no seu território os acessos para o fornecimento de gás russo aos países do leste europeu, começou também a dificultar este processo. A Rússia teve de procurar alternativas e desenvolveu um novo “pipeline”, circulando o “vizinho desavindo” pelo norte. O atrito cresceu.

Vladimir Putin fincou pé, procurou contrariar as sanções do ocidente, impondo embargos à importação de produtos da UE e dos EUA. Ao mesmo tempo, procurou reforçar os laços comerciais com os parceiros asiáticos, nomeadamente uma velha aliada, a China. A situação na Rússia, contudo, degradava-se. O valor do rublo tem vindo a descer, o do “brent” também, o que resulta num problema acrescido para a economia da Rússia, o segundo maior produtor de petróleo do Mundo.

Desde há cerca de seis meses, a Comissão Europeia procurou interceder pela resolução do conflito que motivou o corte pela Rússia do gás à Ucrânia e uma “guerra” aparte entre as respetivas companhias de gaz, a GazProm e a Naftgaz . Os esforços do comissário europeu para a energia, Günther Oettinger chegaram a bom porto. As duas partes entenderam-se e, com as temperaturas a cair de forma significativa na Ucrânia, o fornecimento de gás deverá estar reposto em breve.

É verdade que o inverno está a chegar, mas agora também o gás russo está de volta aos fogões e aquecedores ucranianos, para além da indústria pesada do país, responsável por 40 por cento do consumo deste tipo de energia no país.