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A Alemanha ainda dividida

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A Alemanha ainda dividida

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Passaram 25 anos desde que a queda do Muro do Berlim mudou a Alemanha e o mundo.

Em 1989, no auge dos eventos, provavelmente ninguém pensava que, um quarto de século depois, a Alemanha ainda teria de enfrentar as consequências.

Segundo os economistas, a Alemanha gastou dois biliões de euros para unificar o país. No entanto, em vários aspetos o Leste continua na retaguarda face à parte ocidental.

A pobreza está mais difundida nos cinco Estados federais do Leste que formaram a antiga República Democrática alemã durante 40 anos.

O leste concentra a maior taxa de população que vive com menos de 60% do salário médio nacional. Em algumas zonas, a taxa atinge 30%, contra 0 a 14% no sul.

No leste, o salário médio é de 2317 euros, contra mais de 3 mil na parte ocidental do país.

O desemprego é também mais elevado a leste. É de 9,1% contra a média nacional de 6,7%.

Desde 1991, a Alemanha aplica uma taxa de solidariedade a todos os salários, para pagar a reconstrução do território da antiga RDA. A taxa foi prolongada até 2019, prova de que a “prosperidade” do Leste, prometida por Helmut Kohl, ainda é uma miragem.

Para analisar as divisões que persistem, a euronews falou com Karl Brenke, do Instituto alemão de Pesquisa Económica (DIW), em Berlim.

Sigrid Ulrich, euronews: Há 25 anos caía o Muro de Berlim. Em termos de produtividade, riqueza, rendimentos, saúde, desemprego e risco de pobreza, a Alemanha ainda está claramente dividida entre Oeste e Leste. Ainda não tivemos “as paisagens floridas” das quais falou Helmut Kohl. Mas há pelo menos algo “no caminho conjunto da integração”, como definiu Willy Brandt?

Karl Brenke, Instituto alemão de Pesquisa Económica: Penso que sim. As expectativas de 1989, criadas pelos políticos, especialmente por Helmut Kohl, eram muito elevadas. Mas muito foi conseguido nos últimos 25 anos. Os novos Estados Federais têm agora infraestruturas muito modernas. Houve uma reindustrialização e o desempenho económico da indústria, em termos per capita,da Alemanha de Leste está agora na média da União Europeia.

Mas temos, de facto, muitos problemas. O Leste tem progredir em termos de produtividade, de salários, de rendimentos, de desemprego. Vamos colocar a situação nos seguintes termos: o período de transformação terminou. Agora temos claramente um certo número de problemas regionais. Mas estes problemas regionais existem em toda a Europa.

euronews: Diz que nas próximas duas décadas não haverá muitas mudanças na convergência das condições de vida. Nessa altura, teremos passado tanto tempo juntos como estivemos divididos…

K. Brenke: Temos concluído cerca de três quartos do processo de ajustamento. O que falta é um pouco mais difícil. Haverá regiões do Leste que se desenvolvem relativamente bem, por exemplo, os centros industriais tradicionais, as regiões de alta densidade. E temos regiões, dos novos “Länder”, onde é difícil. Falo das regiões na fronteira com a Polónia e com a República Checa, predominantemente agrícolas. Mas são regiões que já estavam em dificuldade antes da existência da Alemanha de Leste. Tinham dificuldades já nos tempos do Kaiser.

Penso que haverá mais diferenciação na Alemanha de Leste, como temos também temos diferenças na parte Ocidental. temos, por exemplo, uma considerável divisão norte-sul.

euronews: Qual o papel da moeda? Para muitos alemães de leste, o marco alemão teve um valor simbólico. Mas muitos peritos do Bundesbank consideraram prematura a união monetária (em julho de 1990)…

K. Brenke: Sim, em termos económicos, a união monetária em 1990 foi um erro fatal, um desastre. Colocou, sobretudo, a indústria debaixo de uma enorme pressão. Vimos o colapso da produção industrial. Em poucas semanas caiu para metade. O colapso teria sido ainda maior se os políticos não tivessem respondido com medidas de apoio.

Mas, em termos políticos, a união monetária não era evitável. Sem união monetária as pessoas teriam, simplesmente, de fugir. O Leste teria sido, economicamente, exangue.

euronews: Houve slogans, se a memória não me falha, do género: “se o marco alemão não vem ter connosco, vamos nós ter com ele”…

K. Brenke: A questão era essa. A população da Alemanha de Leste contava com a união monetária. Mas por outro lado, não era sustentável em termos económicos. Basicamente, eliminaram, numa só noite, as proteções da moeda e, tal como nos países em transição como Polónia ou República Checa, vimos de repente que era impossível vender os produtos nos mercados internacionais.

Por exemplo, se um Volkswagen Golf custa agora 20 mil euros e no futuro tem de ser vendido por 80 mil, não encontramos clientes. E isso foi exatamente o que aconteceu com a indústria da Alemanha de Leste.