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A verdadeira história do "Beijo Fraterno" entre Brejnev e Honecker

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A verdadeira história do "Beijo Fraterno" entre Brejnev e Honecker

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A East Side Gallery é um dos monumentos mais visitados de Berlim. As cento e seis obras foram pintadas sobre um pedaço de muro de 1300 metros, em 1990, pouco antes da reunificação das duas Alemanhas.

O pintor russo Dmitri Vrubel é o autor do “Beijo Fraterno” entre o líder soviético Brejnev e o homólogo alemão oriental Honecker.

Vubrel tinha 29 anos quando pintou a obra que se tornaria um símbolo da queda da cortina de ferro.

“Fomos até ao muro, havia uma pequena cabana com tintas. Estava lá uma rapariga escocesa que me propôs um contrato. Ainda havia guardas da RDA no muro. Não me deixaram atravessar a fronteira. Mas mais tarde quando comecei a desenhar, deram-me água para as tintas”, contou Dmitry Vrubel.

Vrubel nem sequer leu o contrato e pintou a obra em sete dias. Só mais tarde se apercebeu que tinha cedido os direitos à galeria.

“Um dia pela manhã, eu ainda estava na cama e o meu amigo Alexander Bradovsky chegou e mostrou-me dois jornais. O Berliner Zeitung e o Neues Deutschland, o jornal dos comunistas alemães. O título era “Beijo Fraterno”. Foi assim que eles deram o nome à pintura” recordou o artista.

Os jornais interpretaram o desenho à luz dos acontecimentos políticos mas não era essa a intenção do autor. O verdadeiro nome da obra é “Deus, ajuda-me a sobreviver a este amor mortal”.

“A frase tinha a ver com uma experiência pessoal, com a minha relação com duas mulheres, é uma obra dedicada ao amor, à imagem do amor. Todos nós podemos viver diferentes situações no quotidiano em que nos sentimos presos nos lábios deste tipo de monstro. Naquela altura, era uma imagem das minhas dificuldades pessoais” explicou o artista.

Dmitri Vrubel tornou-se célebre mas nunca ganhou dinheiro com a pintura. Em 2006, refez a obra e doou os três mil euros de remuneração a uma associação.

Os “Beatrice” eram uma das bandas rock mais populares da Hungria nos anos 70. Como as canções falavam de política tiveram problemas com as autoridades. O vocalista da banda, Feró Nagy, foi detido várias vezes.

“Éramos um fenómeno na Hungria, nessa altura, não éramos uma banda rock, nem uma banda pop. Mas passou-se algo nesse momento, algo que não condizia com uma sociedade manipulada”, disse o músico.

O grupo tocou em 1980 no concerto das chamadas ovelhas negras, as bandas que não simpatizavam com o regime comunista.

“Dissemos sempre ao regime que não sabíamos que era proibido dizer tal e tal coisa mas era difícil convencê-los, eles sabiam que nós fazíamos de propósito. Vi muitas vezes na cara dos agentes que nos interrogavam que eles concordavam comigo mas não podiam estar do meu lado”, afirmou Feró Nagy.

Uma das canções mais célebre do grupo chamava-se “De Joelhos”. O vocalista e o público deviam ajoelhar-se.

Nem todos o faziam por terem medo de ser vistos pelos agentes que vigiavam os concertos.

A dada altura, devido ao clima de intimidação, os “Beatrice” pensaram em fugir.

“Começámos a ter aulas de inglês e entretanto fazíamos limpezas porque não conseguíamos viver apenas da música. Mas o regime soube que nós estávamos a aprender inglês e perceberam que nós queríamos deixar o país, pouco tempo depois tiraram-me o passaporte”, contou o artista húngaro.

Após o fim do regime comunista, os “Beatrice” voltaram à ribalta nos anos 90. Apesar dos altos e baixos a banda continua no ativo.

“Tornámos muito populares mesmo em aldeias pequenas havia duas mil pessoas nos nossos concertos. As coisas corriam bem mas não éramos bons, foi apenas uma moda, mas há muitos casos assim na história”, disse Feró Nagy.

O músico húngaro só teve acesso aos arquivos da polícia muito depois da queda do regime. O material serviu de base ao livro de memórias que publicou em 2005.