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Itália: Condenação de advogado da "Camorra" dá esperança a Saviano

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Itália: Condenação de advogado da "Camorra" dá esperança a Saviano

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Uma meia vitória contra a “Camorra”, a máfia napolitana. Assim resumiu o escritor italiano Roberto Saviano as decisões do tribunal de Nápoles, no julgamento das ameaças recebidas por ele e pela jornalista e senadora Rosaria Capacchione pelos respetivos livros escritos contra aquela poderosa organização criminosa italiana.


Os líderes do clã “Casalesi”, Francesco Bidognetti e Antonio Iovine, conhecidos respetivamente pelas alcunhas “o gordinho da meia-noite” e “o pequeno”, e o advogado Carmine D’Aniello foram absolvidos nesta terceira sessão do julgamento liderado pelo juiz Aldo Esposito, no seguimento do chamado “Processo Spartacus”, de 2008. Mas outro advogado dos alegados mafiosos, Michele Santonastaso, que terá escrito cartas ameaçadoras a favor dos clientes, foi sentenciado a um ano de prisão, com pena suspensa, e ao pagamento de uma indemnização, por danos, a Saviano, Cappachione e à Ordem dos Jornalistas da região de Campania.

“Toda a atenção sobre este caso, neste momento, é o resultado de dez anos de luta. Pessoalmente, penso que estas sentenças podem representar um primeiro passo para a minha liberdade e para voltar a ter uma vida normal”, reagiu Roberto Saviano, após a leitura das sentenças, tendo comparecido no tribunal de Nápoles com a habitual proteção policial que lhe foi concedida após ter começado a receber ameaças, que o obrigaram inclusive a esconder-se depois de ter lançado em 2006 o polémico e muito bem sucedido livro “Gomorra”, um relato na primeira pessoa de um jornalista infiltrado nos meandros da “Camorra” e que viria a ser adptado ao cinema e à televisão.


A imagem de Saviano como símbolo da luta antimáfia em Itália saiu reforçada quando, em 2010, participou num programa de televisão intitulado “Vieni Via con Me” (tr.: “Vem-te embora comigo”), que expunha a alegada promiscuidade entre o poder político e a forte influência dos grupos mafiosos italianos, nomeadamente da “Camorra” ou da máfia calabresa. O primeiro-ministro italiano da altura, Sílvio Berlusconi, era uma forte oposição ao programa e acabou por conseguir tira-lo do ar.

Por seu lado, a jornalista Rosaria Capacchione, que há quase 30 anos escreve no diário “Il Mattino”, da comuna napolitana de Caserta (onde atua o clã “Casalesi”), e que é também senadora italiana pelo Partido Democrático e membro da Comissão Parlamentar Antimáfia, escreveu em 2008 o livro “O Ouro da Camorra”, sobre o clã “Casalesi” e foi colocada também no alvo das ameaças. Tal como Saviano, Capacchione teve de passar a andar sob proteção, chegando a dizer contudo que se a quisessem morta, matavam-na com ou sem proteção.


A carta que incriminou o advogado Santonastaso foi lida, curiosamente, pelo próprio durante um recurso em tribunal a favor dos clientes, durante o “Processo Spartacus”, e dirigida a Saviano, contendo referências a Capacchione e ao magistrado Raffaele Cantone.

Os procuradores italianos antimáfia pediam uma pena de ano e meio de prisão para Bidognetti e os respetivos advogados Santonastaso e D’Aniello. Por ter começado a colaborar com as autoridades em 2013, para Antonio Iovine foi pedida a absolvição. Apenas um deles, Santonastaso, acabou condenado, mas com pena suspensa.