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A aventura espacial europeia nas próximas décadas

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A aventura espacial europeia nas próximas décadas

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2014 foi um ano extraordinário: conseguimos aterrar num cometa, colocámos mais astronautas no espaço e temos várias missões a serem planeadas. Mas qual é exatamente o futuro do setor espacial europeu? As decisões que foram tomadas recentemente vão determinar a aventura espacial europeia nos próximos 10, 20, 30, mesmo 50 anos. Foi na cidade do Luxemburgo que se reuniram os ministros dos 20 países europeus membros da Agência Espacial Europeia, entre os quais Portugal. A ministra italiana da Educação, Stefania Giannini, explicava que “um dos temas em cima da mesa era o balanço das contribuições dos diferentes países, sobretudo da França, da Alemanha e de Itália.”

Muitas das decisões já tinham sido negociadas antes do encontro. No Luxemburgo, os responsáveis vieram finalizar os acordos e definir o orçamento de 3300 milhões de euros. A renovação dos sistemas de lançamento é um dos assuntos cruciais, até porque o atual foguetão Ariane 5, a referência mundial, passou a ser uma opção demasiado cara face ao novo concorrente americano SpaceX, que propõe valores pelo menos duas vezes inferiores. Daí que a resposta dos europeus esteja no Ariane 6. Geneviève Fioraso, secretária de Estado francesa da pasta do Ensino Superior e Investigação, afirma que “o primeiro voo deverá acontecer em 2020. Trata-se de um novo foguetão, de um sistema competitivo, modular, que não vai precisar de fundos públicos para poder operar.”

O Ariane 6 vai funcionar em duas versões – uma com dois propulsores, outra com quatro. O novo lançador representa um investimento de 3 mil milhões de euros, mas irá cortar substancialmente os custos operacionais do Ariane 5. Brigitte Zypries, secretária de Estado alemã para a Economia e Energia, realça que “os europeus querem continuar a garantir o seu próprio acesso ao espaço. Estamos em competição com os Estados Unidos, com a China, Rússia, Índia – é um grande leque de concorrentes. Queremos continuar a fazer parte do jogo e, por isso, construímos um novo foguetão para levar satélites até ao espaço.”

Mas para onde nos dirigimos? Marte é destino prioritário. A missão ExoMars, liderada pela Itália e pelo Reino Unido, planeia lançar uma sonda sobre a órbita do Planeta Vermelho em 2016 e aterrar um robô em 2018. A reunião da Agência Espacial Europeia garantiu 160 milhões de euros para o avanço do projeto. Roberto Battiston, da Agência Espacial Italiana, salienta que “em certa medida, é a continuação lógica da missão Philae no cometa. Nós achamos que será muito interessante descobrir o que existe por debaixo da superfície marciana. As análises feitas até agora mostram que não há vida no planeta. A radiação e os raios cósmicos destruíram seguramente qualquer forma de vida ao longo dos milhões de anos. No entanto, pode ser que alguma coisa tenha escapado nas profundezas.”

Mesmo a presença humana no espaço não é dado adquirido. A Europa vai enviar dois novos astronautas em 2015. Mas, se não houver mais apoios até 2020, a sobrevivência da Estação Espacial Internacional pode ficar em causa. Há igualmente quem defenda que a prioridade é desenvolver missões centradas em robôs. “O mais impressionante, hoje em dia, é a capacidade dos robôs. Podemos mandá-los para todo o lado, o que nos permite avançar mais rapidamente, melhor e com muito menos custos do que as explorações com humanos”, declara Jean-Yves Le Gall, da Agência Espacial Francesa.

As missões científicas são um objetivo. Mas os membros da Agência Espacial Europeia têm bem presente os outros benefícios da corrida espacial – para além da criação de emprego, estão em jogo atividades essenciais que necessitam de instrumentos de navegação, de metereologia ou de satélites de comunicações. Como aponta Geneviève Fioraso, “é positivo para a economia, mas contribui também para um sentimento de pertença. Os humanos trabalham em conjunto e, nos dias que correm, o facto de haver projetos que criem solidariedade e fraternidade torna os debates mais elevados.”