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"Vai haver um antes e um depois 7 de janeiro" - Dominique Wolton, investigador, CNRS

"Não há liberdade de expressão, se esta imprensa, muitas vezes considerada como demasiado ousada - de mau gosto - não for vista como a que encarna os valores mais extremos da capacidade de expressão c

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"Vai haver um antes e um depois 7 de janeiro" - Dominique Wolton, investigador, CNRS

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Dominique Wolton é diretor de investigação no CNRS, especialista dos média, da informação e do jornalismo. O drama ocorrido no jornal satírico Charlie Hebdo vai mudar o futuro?

Point of view

Faríamos bem se, por causa desta tragédia, conseguíssemos dar também destaque a outras tragédias humanas, como os milhões de imigrantes que se afogam na tentativa de alcançar as costas europeias.

“Creio que nos vai obrigar a levar a sério aquilo que era considerado como uma franja da liberdade de informação, ou seja, aquilo que era a imprensa mais radical, mais humorística, mais fora das normas e que tínhamos tendência a considerar como marginal.

Como acontece com frequência na democracia – só é preciso olhar para as inúmeras vezes que o Charlie Hebdo foi criticado pelas suas tomadas de posição, pelos seus desenhos, etc… -apercebemo-nos agora definitivamente que aquilo que poderíamos considerar como quase excessivo – este tipo de imprensa – está no coração da própria democracia.

Julgo que isto é extremamente importante porque acredito que não há liberdade de expressão, liberdade de informação, liberdade de imprensa se esta imprensa, muitas vezes considerada como demasiado ousada – de mau gosto – não for vista como a que encarna os valores mais extremos da capacidade de expressão crítica.”

Intelectuais, jornalistas assassinados por causa das suas ideias, não é algo novo no mundo, mas era inimaginável em França. Vai haver um antes e um depois 7 de janeiro?

“Sim, vai haver um antes e um depois 7 de janeiro. A mobilização é ainda mais forte porque cinco das pessoas assassinadas eram personalidades muito conhecidas. Isso tem influência. Eram fios condutores na história cultural e política da França.

Acrescentaria que faríamos bem se, por causa desta tragédia, conseguíssemos dar também destaque a outras tragédias humanas, como os milhões de imigrantes que se afogam na tentativa de alcançar as costas europeias.

Seria importante aproveitar esta discussão sobre a liberdade de expressão, para falar de outros valores, nomeadamente do que a Europa está a fazer dos seus valores fundamentais.”

Para a imprensa, vai mudar alguma coisa?

“Do ponto de vista da imprensa, este caso levanta a questão da tendência que a imprensa tem de, em nome do direito à informação, dar demasiado destaque a pensamentos que, sendo radicais, não são menos racistas e de ódio em relação ao outro.

Não é apenas o Islão que está em causa, é a questão do (respeito pelo) outro. Será que respeitamos o outro, ou na realidade consideramos o outro como um perigo? E, se achamos que o outro é um perigo, executamos toda uma amálgama de políticas.

Se podemos dar uma ajuda aos Estados Unidos, que manifestaram solidariedade em relação a França, é dizer-lhes: “Não temos lições a dar-vos, mas, de qualquer forma, vamos tentar não reproduzir a espécie de histeria anti-Islão, anti-muçulmana e um catastrófico ódio em relação ao outro, que floresceu na América após o 11 de setembro.”

Temos visto a reação magistral das pessoas, seja nas ruas ou nas redes sociais. O que é que isso nos diz sobre a sociedade francesa?

“Talvez seja uma lição positiva. Andamos sempre a dizer que os franceses e os europeus em geral desabaram, que estão prestes a sucumbir a qualquer tipo de extremismo e que já não acreditam em nada. Isso não é verdade e a França, deste ponto de vista, neste momento, pode aperceber-se uma vez mais que uma das suas grandes forças é a de ser um país multicultural onde coabitam muitas religiões, muitas culturas.

E mesmo se a integração social já não é o que era e a coabitação religiosa é mais difícil do que há 50 anos, neste caso, (a França) demonstra uma maturidade política e ninguém irá misturar as coisas.
Talvez isto não dure muito tempo, mas temos de o sublinhar neste momento, precisamente para que, se as coisas voltarem a derrapar dentro de 2 ou 3 anos, nos recordemos deste momento.”

Irá existir um aproveitamento político deste atentado e quais são os riscos se isso acontecer?

“Não penso que vá haver aproveitamento político. Se alguém o tentar fazer irá haver um efeito bumerangue. Porque o que aconteceu com o minuto de silêncio e o que vai acontecer no sábado e no domingo, com a grande manifestação (republicana) e tudo o que se possa dizer, mesmo se são demasiadas palavras e muitas vezes uma histeria verbal, tudo isso será retratado. As palavras que temos escutado exprimem, acima de tudo, uma profunda emoção.”