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As consequências do corte do "rating" da Rússia pela S&P

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As consequências do corte do "rating" da Rússia pela S&P

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Na Rússia, a tempestade é também financeira. Uma década depois, a nota soberana volta à categoria “lixo” (“BB+”).

A agência Standard&Poor’s (S&P) anunciou o corte na segunda-feira à noite, tendo provocado uma queda de 6% do rublo. A divisa russa recuperou um pouco, mas a bolsa afundou pelo segundo dia consecutivo.

O ministro das Finanças, Anton Silouanov, acusa a Standard&Poor’s de agir sob comando dos Estados Unidos e de não ter em conta o novo plano anticrise do Kremlin.

A nota soberana russa saiu da categoria “lixo” em 2005. Seguiu-se um regresso dos capitais. Mas a tendência inverteu-se e, no ano passado, a fuga de capitais atingiu um valor recorde de 151,5 mil e milhões de dólares. A tendência poderá vir a agravar-se.

Sob efeito das sanções internacionais e da queda do preço do petróleo, economia deverá cair este ano em profunda recessão. E a dívida pública e empresarial do país ronda os 600 mil milhões de dólares.

Os opositores do governo antecipam novas desvalorizações do rublo e novos aumentos da inflação.

A jornalista Natalia Marshalkovich abordou as consequências do corte da nota soberana com Alexander Knobel, chefe do Departamento de Comércio Internacional, do Instituto Gaidar de Política Económica, em Moscovo.

Natalia Marshalkovich, euronews: A Standard&Poor’s baixou a nota soberana da Rússia para a categoria lixo pela primeira vez em 11 anos. O que significa?

Alexander Knobel: É uma má notícia para a economia russa. Mas os investidores estavam à espera do corte, já que a perspetiva tinha sido colocada em negativo. Os mercados de capitais estão, na realidade, fechados às empresas russas desde março-abril de 2014.

O corte do “rating” vai, claro, mudar formalmente o comportamento de alguns investidores, em particular, os que têm vindo a constituir portfolios na economia russa. O corte da nota vai fazê-los mudar a estrutura dos portfolios e afastá-los dos mercados russos.

Quanto ao investimento direto, não fará grande diferença. Para este tipo de investimento o importante é a situação económica geral e esta não é um segredo.

O rublo vai perder mais 3 a 5%.

euronews: As sanções estão em vigor há vários meses e podem ser reforçadas em breve. A nota russa já é “lixo”. Onde é que as empresas poderão arranjar dinheiro para, pelo menos, pagarem as próprias dívidas?

A. Knobel: Vai depender da empresa. É verdade que as companhias russas não podem pedir dinheiro nos mercados internacionais para refinanciar as respetivas dívidas.

Algumas empresas têm uma posição privilegiada, próxima do Kremlin, e podem aceder a empréstimos baratos em divisa nacional e, posteriormente, podem convertê-los em dólares. Podem também guardar uma parte das receitas estrangeiras para conseguir pagar as dívidas externas.

euronews: Em teoria, a degradação da nota significa que a Rússia se aproxima do incumprimento. Como é óbvio, não falamos disso neste momento, mas pode ser possível no futuro?

A. Knobel: Bem, a médio prazo, tudo é possível. Pelo menos, se os preços do petróleo permanecerem nos atuais mínimos e se não houver verdadeiras mudanças das políticas económica e orçamental.

Neste caso, a partir de 2016 ou 2017 o risco de incumprimento poderá tornar-se real. Mas em 2015 penso que não haverá problemas de “default”. A dívida pública não é assim tão grande.

Claro, que há as grandes empresas de capital misto, que são detidas na sua maioria pelo Estado. Essas empresas são um fardo para o setor público. Mas tirando dinheiro do resto da economia e, devido à futura desvalorização do rublo, há a hipótese de resolver os problemas de crédito a curto prazo.

euronews: A desvalorização da divisa é a chave?

A. Knobel: Sim, a desvalorização também. Mas o que vai acontecer e os mecanismos que vão ser usados para resolver a crise dependem de dois fatores, imprevisivéis neste momento, e que são os preços do petróleo e a situação política internacional.