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Prós e contras das sanções contra a Rússia num breve retrato na Letónia

A diplomacia europeia prolongou as sanções contra a Rússia por mais seis meses, devido à crise na Ucrânia. Mas será que são eficazes?

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Prós e contras das sanções contra a Rússia num breve retrato na Letónia

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“A diplomacia europeia prolongou as sanções contra a Rússia por mais seis meses, devido à crise na Ucrânia. Mas como lidam com esta situação os europeus que vivem na fronteira com o gigante russo e quais os efeitos na sua economia? Pedimos a opinião a um analista político, mas antes realizámos uma reportagem na Letónia, um Estado-membro da União Europeia (UE) com uma importante minoria russa”, explica a enviada da euronews a Riga, Margherita Sforza.

Point of view

A ideia é transformar uma situação militar crítica numa maratona negocial.

O monumento à liberdade no coração de Riga, capital da Letónia, recorda a população que a independência do país face à Rússia foi um longo e difícil caminho.

Mas se 1991 assinala essa viragem na história, a geografia permanece imutável e o vizinho ainda é temido, sobretudo desde o eclodir do conflito entre a Rússia e um outro seu ex-satélite a sul, a Ucrânia.

À euronews pediu a opinião a alguns habitantes de Riga:

“É horrível o que está a acontecer lá. O pior de tudo é que o agressor é nosso vizinho. Acho que é uma guerra, mas feita de modo algo secreto, sempre a ser negada. Só que não somos estúpidos e não acreditamos nisso. Conhecemos o nosso passado e sabemos bem o perigo que representa o que está a acontecer”, disse uma idosa.

“Por aqui toda a gente fala sobre uma espécie de conflito, embora não se saiba bem o que dizem. Mas não é só um conflito, é uma guerra a sério em que a Rússia é o agressor. Sem sanções, não haverá mudanças porque com a Rússia não funcionam quaisquer negociações”, acrescentou uma jovem.

Mas num país que tem uma minoria russa de quase 30% da população, nem todos concordam com as sanções, considerando que acabam por prejudicar a própria Letónia.

“Outros países europeus podem aplicar sanções contra a Rússia, mas para a Letónia não é bom, porque a Letónia é um vizinho próximo e é muito prejudicial para a nossa economia”, disse outra habitante membro da minoria russa.

Esse efeito de ricochete é explicado pela enviada da euronews a Riga, realçando que “a Letónia tem sido um dos países mais afetados pelo embargo russo, decretado em retaliação pelas sanções europeias. O país perdeu 52 milhões de euros em exportações de alimentos, isto é, 0,25% da riqueza nacional”.

O embargo russo aos alimentos europeus foi decretado no verão passado por um ano, visando uma grande variedade de produtos: da carne ao peixe, dos vegetais às frutas. O setor mais afetado na Letónia foi a exportação de leite.

Mas há quem aceite pagar o preço e até veja na crise uma oportunidade, como é o caso do produtor Martin Cimermanis: “a população da Letónia conhece bem o que custa a liberdade e queremos ser solidários com os outros países europeus. Vendíamos muito do nosso leite a clientes importantes na Rússia mas, no final das contas, os produtores de leite não serão muito afetados porque vamos encontrar novo mercados e até já assinámos alguns contratos com a China”.

O embargo russo levou a uma queda do preço do leite na Letónia em 30%, tendo a Comissão Europeia prometido compensar os produtores com quase oito milhões de euros.

A Rússia representa 10% do mercado de exportações europeias no setor alimentar.

Já de regresso a Bruxelas, a correspondente da euronews entrevistou, através de ligação via satélite a Paris, Nicu Popescu que é analista do Instituto de Estudos de Segurança.

Margherita Sforza/euronews (MS/euronews): “As sanções são eficazes e devem ser prolongadas quando vemos uma nova escalada da violência no leste da Ucrânia e na cidade de Mariupol?”

Nicu Popescu/analista (NP/analista): “A resposta curta é sim, as sanções estão a funcionar. Se alguém quiser um resultado rápido neste conflito, então tem de passa à ação militar. Foi isso que a Rússia fez na Crimeia e em regiões do leste da Ucrânia. Mas a UE não atua por via militar, atua por via económica e é para isso que existem sanções. A ideia é transformar uma situação militar crítica numa maratona negocial. Para medir a velocidade e a resiliência de um maratonista, não podemos fiarmos só nos primeiros dois ou três quilómetros”.

MS/euronews: “Que evidências existem de que as sanções são eficazes?”

NP/analista: “A Rússia mantém uma intervenção relativamente limitada na Ucrânia, ao contrário da clara invasão que fez na Geórgia, em 2008. A Rússia ainda mostra alguma contenção, tenta passar abaixo do radar, tenta negar e esconder algumas ações, o que acaba por prejudicar a eficácia dessas mesmas ações. Ao contrário de há um ano, quando toma decisões, a Rússia leva agora em consideração as possíveis respostas da UE e dos EUA ao nível das sanções”.

MS/euronews: “Os EUA acabam de anunciar que estão a considerar um vasto lote de opções, incluindo o envio de armas para a Ucrânia. É o início de uma nova guerra fria?”

NP/analista: “Podemos dizer que há uma guerra quente na Ucrânia, com pessoas a morreram a cada dia que passa e essa realidade tem de ser travada. Provavelmente, o principal objetivo de dar mais assistência militar à Ucrânia não é o de recapturar território, mas de evitar que a linha da frente rebelde continue a avançar. A ideia é impedir que os separatistas aumentem o controlo sobre mais território. Uma melhor capacidade defensiva pode ajudar a estabelecer melhor diálogo entre a Ucrânia, a Rússia e as zonas separatistas”.