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Braço-de-ferro entre Grécia e Eurogrupo levado ao limite

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Braço-de-ferro entre Grécia e Eurogrupo levado ao limite

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A rejeição do governo de Atenas da proposta apresentada pelo Eurogrupo, esta segunda-feira, teve impacto negativo na bolsa, mas ainda não desanimou os cidadãos gregos.

Os atenienses ouvidos pela euronews consideram que o governo do Syriza ainda está em posição de força.

“Devemos apoiar o governo, está a trabalhar muito bem. Não temos mais nada a perder. Temos que recuperar a nossa dignidade e o governo vai encontrar a solução”, disse um.

“Está tudo está aberto, mas não vão permitir que a Grécia se tenha de voltar para a Rússia ou para China. Vão dar um passo atrás”, afirmou outro.

“Provou-se que a União Europeia não muda. É hostil para com os cidadãos. Os trabalhadores têm que ir para a rua e exigir os seus direitos”, considerou um terceiro.

O braço-de-ferro prende-se com o modelo para honrar o resgate da troika.

Atenas quer um novo empréstimo temporário com outras condições.

Já o Eurogrupo propõe prolongar o atual pacote, que termina a 28 de fevereiro.

De nacionalidade grega e membro do Syriza, um dos vice-presidentes do Parlamento Europeu, Dimitrios Papadimoulis, diz que “o governo grego não faz chantagem com ninguém”.

“Estamos à procura de uma solução boa para a Grécia, mas também para toda a zona euro. Nós fazemos chantagem, mas também não aceitamos que a façam conosco”, acrescentou o eurodeputado.

Apesar da sombra da bancarrota, o governo grego tem realçado que não haverá problemas de financiamento da banca nacional porque obteve essa garantia do Banco Central Europeu.

Uma questão de semântica e de detalhes

O correspondente da euronews em Bruxelas, Olaf Bruns, entrevistou o economista Gregory Claeys, do centro de estudos Bruegel, sobre as perspetivas de entendimento entre as duas partes.

Olaf Bruns/euronews (OB/euronews): “De um certo ponto de vista, pode ficar-se com a impressão de que o governo grego se porta como um jogador de poker imprudente que não se dá conta de como está a empurrar o país para o abismo. Mas, de outro ponto de vista, pode ficar-se com a impressão de que a zona euro é um monstro burocrático, impiedosamente disposto a sacrificar um país em nome de certos princípios”.

Gregory Claeys/economista do Bruegel (GC/economista): “Pode-se ficar com a impressão de que o governo grego é um pouco inexperiente, mas a verdade é que foi eleito com o mandato claro de acabar com o programa da troika. Logo, as suas exigências são claras e, de certo modo, justificadas. É verdade que o Eurogrupo e os restantes parceiros europeus da Grécia implementaram, desde 2010, uma política que foi, de facto, bastante contraproducente, já que subestimou o impacto negativo da austeridade”.

OB/euronews: “É concebível que Grécia e a zona euro estejam a exagerar no confronto para que o compromisso final seja melhor aceite?”

GC/economista: “É verdade que se pode pensar que exageraram um pouco, dando a impressão de total confronto, de um clima negativo. Mas, se analisarmos os detalhes do que se está a discutir em concreto, até parece que estão bastante próximos”.

OB/euronews: “Ontem, a Grécia disse, resumidamente, que recusava o prolongamento do programa; enquanto que a zona euro disse que não pode haver mais negociação sem antes se prolongar o programa. Qual é a margem de manobra?”

GC/economista: “Uma das partes quer um empréstimo temporário, a outra quer estender o atual programa. No fim das contas não é assim tão diferente, mas os governantes gregos não podem regressar ao país e dizerem aos seus eleitores que aceitaram um programa que é desprezado na Grécia! É, sobretudo, um problema de semântica”.

OB/euronews: “Estamos numa situação de ultimato de curto-prazo: chegar a acordo até quarta-feira. Supondo que não haja compromisso, o que se vai passar com a Grécia?”

GC/economista: “No próximo mês, a Grécia terá de pagar parte dos empréstimos, pelo que existe um problema sério de calendário. No entanto, os últimos anos têm mostrado que sempre se obteve um compromisso, mesmo que tenha sido no último minuto”.

OB/euronews: “Muito resumidamente, quais são as linhas gerais de um eventual compromisso que antevê?”

GC/economista: “Penso que devem chegar a acordo em vários pontos. Em primeiro lugar, de que não vai ser perdoada a dívida. Em segundo, estabelecerem que as reformas se devem focar na luta contra a corrupção e contra a evasão fiscal. Penso que este ponto nunca foi prioritário para os governos anteriores, mas é para o Syriza. Deviam apostar nisso porque é algo muito importante. E, em terceiro lugar, estão as condições de pagamento da dívida. Penso que é possível estender um pouco a maturidade e reduzir a taxa de juros para que seja menos dolorosa no curto prazo para a Grécia”.