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Grécia entrega reformas a tempo ao Eurogrupo e Portugal quer saber tudo

A Grécia passou por vários jogos de tudo ou nada no Campeonato da Europa de Futebol de 2004 até jogar e ganhar a final ao país anfitrião, Portugal

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Grécia entrega reformas a tempo ao Eurogrupo e Portugal quer saber tudo

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A Grécia passou por vários jogos de tudo ou nada no Campeonato da Europa de Futebol de 2004 até jogar e ganhar a final ao país anfitrião, Portugal. Agora está a jogar outro “mata mata”, de novo a caminho de uma grande final e mais uma vez com Portugal no caminho, embora aqui com objetivos sintonizados: o bem-estar próprio e europeu. Esta outra final é a que se desenrola, claro, no tabuleiro da política económica europeia.

Um dia após o acerto com o Eurogrupo da extensão do programa de ajuda financeira, o qual, até prova em contrário, termina a 28 de fevereiro, o novo governo grego reuniu-se em Atenas para elaborar a primeira lista de reformas estruturais exigidas pelos credores até segunda-feira. Se a lista agradar e receber o aval da “troika” — termo que agora Atenas recusa proferir e que implica o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Central Europeu (BCE) e a Comissão Europeia (CE) —, o acordo é ratificado terça-feira.

Yannis Varoufakis, o ministro “estrela” do governo liderado por Alexis Tsipras, apresentou-se no parlamento helénico ao lado da mulher Danae Stratou. Aos jornalistas, o ministro das finanças grego lamentou naquele momento não poder dizer ainda nada sobre o conteúdo da lista de reformas, mas garantiu que “ela será submetida com a antecedência suficiente para que [os credores] tenham o máximo de tempo possível para a analisarem”. “Estamos confiantes – aliás, muito confiantes – de que as nossas reformas vão ser aprovadas pelas instituições [a “troika”]. Por conseguinte, na Grécia, vamos agora entrar numa nova fase de estabilização e crescimento”, garantiu Varoufakis.

A confiança de Varoufakis contrasta, no entanto, com a expectativa dos eleitores gregos que, em janeiro, elegeram o Syriza para o governo. As promessas do fim da austeridade vão continuar adiadas e acorrentadas às regras rígidas do programa de ajuda financeira assinado com a “troika”. Numa, digamos, acrobacia política, o primeiro-ministro grego afirmou que, com este novo acordo, “a Grécia vira costas à austeridade”, mas “as dificuldades, as maiores dificuldades ainda estão para chegar”. Um aviso para os gregos, que pensavam que os dias difíceis seriam passado com o Syriza.

A pressão ibérica em Bruxelas

À distância, Portugal, em particular a ministra das Finanças Maria Luís Albuquerque, tornou-se um dos protagonistas da novela que foi a negociação deste acordo entre o Eurogrupo e a Grécia. Numa conversa informal com o correspondente da RTP em Bruxelas, na sexta-feira, Yannis Varoufakis disse que os portugueses estavam “a ser mais alemães que a Alemanha”, reconhecida opositora do prolongamento do programa, mas que acabou por aceitá-lo.

A ministra portuguesa, assim como o congénere espanhol, terá discordado de vários pontos da proposta apresentada pela Grécia. Os responsáveis ibéricos terão mesmo tentado bloquear o acordo. No final, questionado por isso, Varoufakis começou por dizer que era “uma pergunta muito difícil” e que, embora tivesse prometido “dizer a verdade”, teria que se refugiar nas “boas maneiras”.

“A ministra portuguesa e o ministro espanhol são meus colegas no Eurogrupo. Têm as suas prioridades políticas e ficou claro que é por elas que se orientam. Eu respeito. É verdade que a Grécia recebeu uma quantidade significativa de dinheiro destes dois países: 20 mil milhões da Espanha, não tanto de Portugal porque é um país mais pequeno, mas foi também uma quantidade importante se olharmos ao ‘per capita’”, destacou.

Varoufakis considerou que “a austeridade” colocou a Grécia “numa espiral que fez perder rendimento com o qual podia pagar a dívida a Portugal e aos outros”. “O essencial, agora, é aprovar este novo quadro para permitir que países como a Grécia e Portugal cresçam e possam pagar as dívidas um ao outro e aos outros países. Para isto, eu preciso manter uma excelente relação de trabalho com os meus colegas de Portugal e Espanha”, defendeu Varoufakis, escusando-se a alongar-se mais na resposta e isto depois de já ter recusado os apelos do assessor de imprensa para interromper a resposta.

A resposta de Maria Luís Albuquerque

Em entrevista à TVI, este sábado à noite, Maria Luís Albuquerque começou por falar em “nós” e dizer que “estamos muito satisfeitos com o acordo” que vai permitir manter “a possibilidade de [o Eurogrupo] continuar a ajudar a Grécia a enfrentar os problemas”.

Sobre a alegada pressão de bloqueio que teria exercido sexta-feira em Bruxelas com o homólogo espanhol, a ministra esclareceu: “Não sugeri a alteração de uma vírgula. Até segunda-feira o governo grego tem de apresentar uma lista de medidas que serão avaliadas pela ‘troika’. A minha intervenção foi muito construtiva no sentido de ser seguido o procedimento habitual, que é a ‘troika’, depois de avaliar as medidas []no final de abril], reportar aos elementos do Eurogrupo, explicando qual foi a sua avaliação.”

Maria Luís Albuquerque garantiu que “o Governo português esteve sempre ao lado dos 18 estados-membros do Eurogrupo”, estranhando a alegada colagem à Alemanha. Enalteceu o facto de os 19 estados-membros terem ratificado o acordo de princípio, sublinhando não ser “aluna, mas sim colega” de Wolfgang Schäuble, o ministro das Finanças alemão. Sobre a alegação em surdina de que os portugueses estavam a ser “mais alemães que a Alemanha”, voltando à gíria futebolística, a chefe das Finanças lusas “chutou para canto”: “Não sei porque terá dito isso.”

A ministra portuguesa defendeu ainda que “todos ganharam” com o acordo de sexta-feira, em Bruxelas, “em particular a Grécia”, e acrescentou não fazer sentido aplicar em Portugal a flexibilização que a Grécia se prepara para receber porque este tipo de programa seguido agora por Atenas acabou para Lisboa há um ano. “A situação de Portugal é distinta da Grécia”, garantiu.