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As dificuldades dos jovens no mercado de emprego de Portugal

O desemprego jovem é um dos grandes desafios que se colocam ao futuro da Europa. Muito se fala deste problema e muito dinheiro está a ser investido

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As dificuldades dos jovens no mercado de emprego de Portugal

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O desemprego jovem é um dos grandes desafios que se colocam ao futuro da Europa. Muito se fala deste problema e muito dinheiro está a ser investido nele. O Real Economy passou por Portugal, com escalas em Lisboa e Porto, e também pela Irlanda, para observar este problema. Em ambos os países, os números do desemprego jovem caíram, mas ainda se mantém altos.

Os discursos, as políticas e o dinheiro investido sucedem-se, mas estará de facto todo este investimento a ter reflexo positivo? Em Portugal, 13,3 por cento da população ativa não tem emprego, dos quais 33,6 por cento são jovens. De facto, a situação não é tão má como em Espanha, mas ainda é uma das piores da Europa. Como é que Portugal esta a lidar com o problema e que faz falta para melhorar a situação dos jovens portugueses?

Juntámos três estudantes no Porto para debater a questão e tentarmos perceber quais os grandes obstáculos que eles anteveem quando pensam em encontrar um emprego ou numa eventual carreira. Mas, antes, em Lisboa, Giovanni Magi introduz-nos dentro da realidade portuguesa.

“Desde o início da crise, o número de jovens que deixaram Portugal em busca de trabalho no estrangeiro é já equivalente à população da segunda maior cidade do país, o Porto”, refere o enviado especial de Real Economy à capital “alfacinha”, apontando para mais de 200 mil emigrantes portugueses entre os 20 e os 40 anos, “muitos deles com um elevado currículo académico”. Esta questão do alto nível de instrução não, prém, um esclusivo português: “41 por centos dos emigrantes europeus possui formação universitária”, sublinha.

Giovanni Magi conheceu Isac Lopes, um produtor de música que acaba de regressar a Portugal depois de ter passado algum tempo a trabalhar na Holanda. “É importante que as pessoas da minha geração, que estão neste momento a tentar uma oportunidade de emprego, também tenham um pouco a perceção de que os tempos mudaram em relação às oportunidades de emprego. Não se devem basear na ideia de um emprego para a vida”, avisa este jovem português.

O fenómeno conhecido como “fuga de cérebros”, e que se refere à saída do país de alguns dos cidadãos mais talentosos em busca de melhores oportunidades no estranheiro, não é novo em Portugal. Criou raízes no país bem antes do impacto da crise de 2008. Mas, claro, intensificou-se nos últimos anos.

Existe, também, um fosso entre o ensino português e o mercado de trabalho, o qual está obrigado, de forma inevitável, a adaptar-se às novas exigências. “Neste momento, está a tentar reforçar-se a componente de formação em contexto de trabalho, aumentando o tempo de formação que os nossos jovens – durante o seu processo de educação e formação – passam nas empresas e que elas também contribuam com resultados de aprendizagem para esse processo de educação e formação”, explicou-nos Gonçalo Xufre Silva, presidente da Agência Nacional para a Qualificação e o Ensino Profissional (ANQEP), que a 20 de março promove o dia do Ensino Profissional.

Há outros jovens, no entanto, que conseguem uma boa formação em empresas especializadas, mas depois decidem emigrar em busca de melhores remunerações. A Opensoft é uma empresa que desenvolve “software” para entidades bancárias e serviços de administraçao pública e já conheceu muitos casos destes.

“A nossa oferta do ponto de vista remuneratório não é muito diferente da dos restantes países da Europa, mas a realidade é que nesses países o enquadramento fiscal permite, com a mesma remuneração de base, obter rendimentos líquidos superiores”, lamenta o diretor-geral da Opensoft, José Vilarinho.

O Governo português decidiu, nesse sentido, lançar alguns programas destinados aos emigrantes portugueses. O objetivo é criar condições para o regresso deles a casa, encorajando, pior exemplo, a criação de novos negócios. É uma estratégia, ao mesmo tempo, de tentar rentabilizar dentro de portas a experiência e as competências desenvolvidas por estes emigrantes portugueses além-fronteiras.

“Entre as medidas que estamos agora a pôr no terreno para poder apoiar o regresso de portugueses emigrantes há uma que passa por apoiar projetos de empreendedorismo apresentados por cidadãos que estão no estrangeiro. Haverá uma verba financeira para apoiar esses projetos e será também apoiada a contratação de pessoas altamente qualificadas”, conta-nos Pedro Lomba, o secretário de Estado para o Desenvolvimento Regional.

No Porto, juntámos três estudantes do ensino superior português para nos ajudarem a perceber o ponto de vista desta problemática pelo lado dos jovens. João Beleza está no primeiro ano do bacharelato de Engenharia da Informação; António Miguel Martins e Ana Sofia Oliveira estão a tirar o mestrado em bio-química.

Maithreyi Seetharaman, euronews: Quais são os vossos maiores desafios quando pensam num trabalho a longo prazo ou numa carreira?

Joao Beleza: O grande desafio é, sobretudo, encontrar um local e saber o que é que vou fazer. Quer dizer, é escolher exatamente o que quero porque estou num curso em que posso seguir diferentes especialidades no futuro.

António Miguel Martins: Acredito que o grande desafio é a estabilidade. Eu planeio trabalhar em investigação e essa é uma área ainda mais vulnerável. Não existem contratos de trabalho. Por vezes, consegue-se apenas uma bolsa por seis meses, talvez por um ano, mas depois temos de nos candidatar outra vez.

Ana Sofia Oliveira: Nesta altura, é difícil encontrar trabalho e eu gostaria de ficar (em Portugal), mas se tiver de partir, vou pensar nisso.

Conhecem políticas implementadas para tentar atrair os jovens de volta ao mercado de trabalho nacional? Parece-vos que funcionam?

João Beleza: Conheço uma intitulada Juventude em Movimento. É financiada pela Comissão Europeia e pretende dar aos estudantes a primeira oportunidade de trabalho numa série de empresas. Muitas universidades estabelecem protocolos com empresas para essa oportunidade.

António Miguel Martins: As únicas políticas que conheço para melhorar a nossa aptidão para o emprego é o Erasmus, mas isto é um programa educativo, não é exatamente uma política do Governo para nos arranjar emprego.

Ana Sofia Oliveira: Eu não sei se há alguma coisa que o Governo esteja a fazer por nós. Nem sei onde posso procurar esse tipo de informação.

Garantia para a Juventude

Um termo, de grande peso, nos dias que correm é, sem dúvida, Garantia para a Juventude. Sabe o que significa?

Imagine os jovens da Europa – todos com menos de 25 anos. Alguns estão desempregados, outros são os conseiderados NEET, acrónimo inglês que representa os jovens que não estão na escola nem a trabalhar nem em formação.

Saiba mais sobre os NEET

Uma prática nórdica adotada pelos “28” em 2013, a Garantia para a Juventude permite a cada Estado membro oferecer aos jovens formação, estágio, mais esducação ou, quem sabe, uma oferta de trabalho. A proposta pode chegar logo ao fim de quatro meses após terminarem a escola ou de terem ficado desempregados através dos centros de emprego ou de serviços similares.

Mas este quebra-cabeças das garantias apenas é eficaz após a implementação de uma série de reformas no mercado de trabalho do respetivo país a quie se destina, dos serviços públicos de emprego e dos sistemas educativos. Para isto, a Iniciativa Emprego Jovem, na singla inglesa YEI, tem 6,4 mil milhões de eujros para ajudar 20 países com o desemprego jovem acima dos 25 por cento.

Metade do dinheiro sai do orçamento europeu, a outra metade do Fundo Social Europeu. Depois, os países devem igualar o financiamento do YEI e assegurar o suficiente para pagar a garantia a ser implementada de forma individual e por toda a Europa.

Leia aqui as estatísticas sobre o desemprego na Europa elaboradas pelo Eurostat

A pergunta que todos fazem é: Pode isto funcionar? Um país que conhece bem a realidade de ver os seus jovens partir perante tempos difíceis é a Irlanda. Por isso, fomos à descoberta de um programa piloto que está a ser aplicado e que foi pensado para manter esses jovens irlandeses no país e, ao mesmo tempo, baixar a taxa de desemprego.

Tal como 43 mil outros jovens à procura de trabalho na Irlanda, Sean McCormac esteve até há pouco desempregado e hoje trabalha como aprendiz numa gráfica. Mas não foi fácil para este jovem de 23 anos. “Antes, trabalhei num restaurante de ‘fast food’. Quando acabou, voltei ao subsídio de desemprego. Estava outra vez a enviar currículos, a telefonar, a enviar cartas… O programa Garantia para a Juventude de Ballymun apareceu para me ajudar”, reconhece.

Sean é de Ballymun, uma zona a norte de Dublin onde o desemprego jovem atingiu os 54 por cento em 2011. Aquele distrito entrou em janeiro do ano passado para o projeto piloto da Garantia para a Juventude. Objetivo: Ajudar jovens como, por exemplo, Karyn O’Keeffe a encontrar trabalho.

“Há muitas pessoas por aí que não sabem o que está disponível para as ajudar, seja com mais formação ou com um trabalho. Elas não sabem por onde começar”, contou-nos Karyn.

Para financiar este apoio à juventude de Ballymun, a Europa investiu 250 mil euros neste que é um dos 18 projetos do género em toda a União Europeia. 80 por cento dos 739 jovens que se inscreveram receberam uma oferta. 98 por cento deles, em apenas quatro meses.

“O envolvimento dos empregadores é essencial. Não apenas para abrirem oportunidades aos jovens, mas, por exemplo, para dar um maior leque de opções de experiências profissionais. Reconhecemos que lidar com pessoas muito marginilizadas requer um apoio intenso a diversos agentes, não só ao centro de emprego”, refere Paul Carroll, gestor do projeto piloto promovido pelo Departamento de Proteção Social de Ballymun.

O desemprego jovem na Irlanda está a baixar, mas 22,1 por cento é ainda um valor alto. Tal como os mais de 33,6 por cento de Portugal. Se compararmos a Alemanha (7,1 por cento) com a Espanha (50,9 por cento) ainda pior.

Conseguirá a Garantia para a Juventde baixar estes números? Massimiliano Mascherini, gestor de pesquisa do Eurofound, diz ter descoberto “que um curto período de desemprego na transição da escola para um trabalho é quase natural”. “O preocupante é o desemprego de longo prazo e isto implica uma boa comunicação dos agentes do mercado de trabalho, dos estabelecimentos de ensino, das organizações de juventude, dos sindicatos, dos centros de emprego locais. Esta é a primeira condição para criarmos uma eficiente Garantia para a Juventude”, sublinha.

Para recuperar os jovens europeus para vida ativa, o Eurofound estima serem necessários 50 mil milhões de euros. Mas não nada for feito o custo pode chegar aos 153 mil milhões, resultando numa geração perdida.

O quwe é preciso mudar na Europa

Regressamos ao Porto e fechamos esta edição com o nosso painel de três estudantes portugueses.

*Maithreyi Seetharaman, euronews: Na vossa opinião, as universidades e o vosso sistema de ensino preparam-vos para o que os empregadores precisam? E as formações, períodos experimentais e estágios?

António Miguel Martins: Alguns amigos meus passaram por estágios, mas isso não nos garante nada. A maior parte deles, cumpriu o estágio e pronto.

João Beleza: É uma ajuda, concerteza. Por exemplo, no Reino Unido, pelo que sei, é preciso passar um ano em estágios e a fazer trabalho prático apenas para se entrar na universidade.

Estaremos a fazer o suficiente para resolver este problema?

Ana Sofia Oliveira: Os governos deviam ajudar os jovens, como eu. Quando falo com os meus amigos, alguns – sobretudo os que abandonaram a escola – pensam que não há futuro.

António Miguel Martins: Eu sinto que nós estamos no fundo da cadeia. Quando falo com amigos, já não esperamos nada do Governo. Isso já nem sequer é tido em conta. Temos de ser nós mesmos a meter mãos à obra e ir à luta.

O que é preciso mudar na Europa pelo futuro dos jovens?

João Beleza: Penso que uma das coisas a fazer é convencer as pessoas a estarem mais atentas ao que os governos estão a fazer. Por exemplo, se formos à internet encontramos um monte de números e pessoas a dizer que há mais estudantes empregados, que há mais oportunidadesde trabalho. Eu pergunto: Onde? Como? Como é que eu posso aceder a essas oportunidades?

António Miguel Martins:* É preciso haver uma abordagem mais direta nas universidades, e até no ensino secundário, para que as pessoas percebam que caminhos tomar no futuro.

Ana Sofia Oliveira: Tecnologia, Bio-Química e a Saúde evoluem de uma forma que nos permite fazer imensas coisas e gerar mais emprego, mais oportunidades para os jovens.
Sim, estou certa de que os governos devem investir em nós.

Ligações com interesse

Juventude em Movimento

Garantia para a Juventude

European Youth Employment Initiave/ Iniciativa Emprego Jovem

Live Register/ CEntro de Emprego – Irlanda

Projeto piloto de Garantia para a Juventude de Ballymun

Agradecimento

A equipa da euronews responsável por Real Economy agradece a cedência do espaço para o nosso painel de convidados ao Restaurante Vinium, na Graham’s, Porto, Portugal (O Vinum é um restaurante de cozinha tradicional do Vale do Douro, de Trás os Montes, do Minho e também inspiração Atlântica)