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Poroshenko: Nós não aceitamos nenhum ultimato

Enquanto a guerra no leste da Ucrânia marca uma pausa e se buscam soluções para o conflito, a euronews entrevistou o presidente ucraniano, Petro

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Poroshenko: Nós não aceitamos nenhum ultimato

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Enquanto a guerra no leste da Ucrânia marca uma pausa e se buscam soluções para o conflito, a euronews entrevistou o presidente ucraniano, Petro Poroshenko, em Kiev.

Point of view

Um dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU transformou-se num agressor e essa é a razão pela qual utilizaria o direito de veto contra uma força de manutenção de paz

Euronews: Considera que a União Europeia está unida no apoio à Ucrânia ou estava à espera de mais? Há quem veja algumas divisões, e o senhor?

Poroshenko: Não, de forma alguma. Durante este ano, enquanto presidente da Ucrânia, tive a possibilidade e a honra de ter um lugar no Conselho Europeu. Isso aconteceu em junho, em setembro e em fevereiro. Em todas as ocasiões, os líderes europeus expressaram-se a uma só voz em favor da Ucrânia. Espero que se a União Europeia se mantiver fiel aos valores europeus o apoio vai continuar.

Euronews: O acordo de Minsk foi alcançado com o presidente Putin e os separatistas. Pensa que estão a tentar empurrá-lo para um modelo de Ucrânia federal que para o senhor é inaceitável?

Poroshenko: A questão aqui não é Putin ou o presidente da Ucrânia. Só o povo ucraniano é que pode decidir esta questão. De acordo com a nossa Constituição o estatuto federal da Ucrânia só pode ser decido por via de um referendo nacional. Mas, atualmente, cerca de 90 por cento dos ucranianos estão contra uma federação. Porquê? Porque nós somos um Estado unitário e não aceitamos nenhuma forma de pressão. Eu, enquanto presidente, estou sempre disponível para convocar um referendo e respeitar o resultado.

Euronews: Os separatistas querem trocar a paz pela federalização dos seus territórios?

Poroshenko: Antes do mais, nós não aceitamos nenhum ultimato. Em segundo lugar, a forma de desenvolvimento do nosso país vai ser decidida pelo povo ucraniano. Por último, juntamente com os nossos parceiros europeus, americanos e do resto do mundo, nós defendemos a liberdade, a democracia e a independência do meu Estado, pelo que não toleramos que ninguém nos chantageie.

Euronews: Para que o seu desejo se torne realidade não pensa que será necessário enviar para Donetsk e Lugansk uma força de manutenção da paz?

Poroshenko: O meu parlamento apoia as minhas propostas relativamente ao estatuto especial de Donetsk e Lugansk, ao mapa estabelecido no protocolo de Minsk de 19 de setembro e, finalmente, ao pedido formal ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e ao Conselho de Segurança, para que seja discutido o envio de uma força de manutenção de paz para a Ucrânia. Onde é que precisamos de capacetes azuis? Em primeiro lugar, na nossa fronteira, que é um elemento-chave da nossa soberania. Precisamos que esta força impeça a entrada de armas, munições e tropas no território ucraniano, é muito simples. Em segundo lugar, precisamos de capacetes azuis destacados ao longo da zona desmilitarizada, da linha que foi traçada apenas para assegurar a paz e a estabilidade.

Euronews: O problema é que é difícil enviar uma força de manutenção de paz para o terreno sem o consentimento do outro lado.

Poroshenko: Não, nós não temos aqui outro lado, isto é território da Ucrânia. Nós odiamos a ideia que qualquer outro Estado possa decidir se os capacetes azuis da ONU devem ser enviados ou não. Isto é muito interessante. O envio de uma força policial da União Europeia também deveria ser uma possibilidade ou que a força de manutenção de paz da ONU fosse composta na sua maioria por soldados da UE porque confiamos nos nossos parceiros. Penso que esta seria uma forma muito eficaz de resolver a questão.

Euronews: Sente o empenho da NATO e da UE nesse sentido?

Poroshenko: Sim, penso que sim.

Euronews: Conseguiu apoios?

Poroshenko: Sim, temos o apoio e a confirmação, a única coisa é… Veja, qual é o problema? Depois da anexação da Crimeia e da ocupação do Donbass, o sistema de segurança global do pós-guerra não está a funcionar. Porquê? Porque, infelizmente, um dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU transformou-se num agressor e essa é a razão pela qual utilizaria o direito de veto contra uma força de manutenção de paz. Esta é a razão pela qual precisamos de ter uma discussão como a que tivemos em Minsk para obter uma decisão unânime nesta matéria. E não há razão nenhuma para que alguém se oponha a isto.

Euronews: Depois da revolução de Maidan, um dos elementos mais importantes para estabilizar o país é a luta contra a corrupção. Que medidas tomou?

Poroshenko: A guerra não é uma desculpa para impedir reformas, lutar contra a corrupção e atrair os melhores consultores internacionais para criar um gabinete anticorrupção. A responsabilidade cabe agora aos ministros, aos procuradores, aos oficiais superiores da polícia para que as acusações de corrupção sejam apresentadas de maneira transparente. Só assim vamos conseguir conquistar a confiança das pessoas nestes tempos difíceis. É preciso construir um sistema judicial independente e acabar com as imunidades dos deputados e dos juízes porque devemos ser todos iguais perante a lei.

Euronews: Mas para implementar as reformas económicas e anticorrupção o país precisa de abandonar este sistema pós-soviético.

Poroshenko: Quem estiver envolvido em atos de corrupção deixou de estar protegido e vai aperceber-se disso mais cedo ou mais tarde, de preferência mais cedo. Os oligarcas não estão a tomar nenhuma decisão sobre o desenvolvimento do país e eu tenho a certeza que agora vivemos num país diferente, numa Ucrânia livre e democrática que nasceu em Maidan durante a revolução pela dignidade. O facto de milhares de pessoas darem as suas vidas pelos direitos da Ucrânia, pelas reformas e pela Europa dá-nos uma enorme responsabilidade, responsabilidade para o presidente, responsabilidade para o governo, responsabilidade para o parlamento da Ucrânia. Nós estamos unidos, somos um país, somos uma nação, uma nação europeia.