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Liberdade Escondida

Kurt Westergaard está escondido e sob proteção policial 24 horas por dia, há quase dez anos. Em 2005, a caricatura que fez do profeta Maomé provocou

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Liberdade Escondida

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Kurt Westergaard está escondido e sob proteção policial 24 horas por dia, há quase dez anos. Em 2005, a caricatura que fez do profeta Maomé provocou uma onda de protestos violentos em vários países muçulmanos. Que também levaram a ameaças de morte contra este caricaturista de 80 anos, que escapou por um triz, há cinco anos, quando um homem entrou em sua casa e tentou matá-lo com um machado: “Um caricaturista bom e honesto nunca vai fazer nada sem uma provocação. Sem um certo tipo de desacordo… Acho que fortalece a sociedade, mas há que jogar com as regras democráticas. A Dinamarca é um país muito calmo, muito tolerante, mas algo aconteceu ao longo dos últimos anos. Acho que perdemos a denominada inocência internacional, a nossa virgindade internacional.”

A inocência perdida transformou-se em horror no mês passado, quando um atirador matou duas pessoas e feriu três, em Copenhaga. Ataques parecidos com os de Paris.

Lars Vilks tem recebido ameaças de morte desde uma exposição feita em 2007, que incluía um esboço de um cão com a cabeça do profeta Maomé. Já lhe tentaram queimar a casa e como não é fácil falar com ele, falámos através do Skype: “A pior parte é que não se pode sair. Não se pode sair. Temos de sair o menos possível, porque entrar e sair representa o risco de sermos vistos e reconhecidos. Há que minimizar este tipo de coisas. Saímos apenas uma vez por dia… Mas é triste. Temos que nos habituar à ideia de nunca mais voltarmos a ter uma vida normal.”

Vilks participou num debate sobre a liberdade de expressão no dia dos ataques. Os países escandinavos têm sido encarados como sendo defensores da liberdade de expressão, os críticos argumentam que certos artistas foram longe demais e deviam pedir desculpas para aliviar as tensões.

Vilks discorda: “Não, isso seria igual ao que Salman Rushdie disse sobre ter pedido desculpas: “foi o meu pior erro”. Antes de mais, eu não fiz nada de errado. Quer dizer, apenas fiz um desenho em 2007… Que se espalhou de várias formas e saiu do meu controlo, tudo isto levou a um amplo debate, com muitos outros problemas associados.”

Desde que começou esta denominada crise dos cartoons, o debate entrou numa espiral que inclui a liberdade de expressão, a religião, a tolerância e a intolerância, a imigração e integração, assim como questões relacionadas com o Islão e com a Europa. Fala-se sobre ensinar esta crise dos cartoons, nas escolas. Mas será que a Dinamarca está pronta para enfrentar um capítulo tão recente da sua história?

Desde os ataques de Copenhaga que o apoio relativo à publicação de cartoons controversos diminuiu. Depois dos ataques de Paris, quase 80% dos entrevistados disse que os média dinamarqueses deviam continuar a publicá-los. Mas depois dos ataques de Copenhaga, esse número caiu para 63%.

Apesar do otimismo que a liberdade de expressão não pode ser silenciada, neste momento, estes dois artistas têm de viver com as consequências de dois desenhos que mudaram a sua vida para sempre.