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Espaço Schengen: A longa espera da Roménia com um novo drama humano entre mãos

Os problemas do alaragamento do espaço comum euriopeia em destaque neste exclusivo da euronews sobre um problema global visto sob uma perspetiva europeia.

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Espaço Schengen: A longa espera da Roménia com um novo drama humano entre mãos

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A União Europeia (UE) está a debater-se com um problema humanitário que tem vindo a agravar-se com a propagação de conflitos pelo norte de África e pelo Médio Oriente. As perigosas travessias clandestinas do Mediterrâneo têm ceifado muitas vidas e os “28” ainda não encontraram um consenso para lidar com esta dramática migração.

Point of view

O meu plano é simplesmente ir para qualquer lado no mundo e viver como um ser humano, apenas isto. Só quero poder viver uma vida respeitada

A Roménia, um dos países aspirantes a integrar o espaço Schengen, está a descobrir, entretanto, um novo fenómeno migratório: pequenos barcos sobrelotados de clandestinos em fuga da guerra e de ditaduras estão a lançar-se à sorte do Mar Negro com o sonho de uma vida normal no ocidente da Europa.

Esta semana, em Repórter, olhamos para esta fronteira externa da Europa e damos-lhe a conhecer a equipa de polícias aduaneiros que vigiam e controlam estas pessoas, que, iludidas por uma rede de traficantes que se estende da Turquia à Alemanha, enfrenta as tumultuosas águas do Mar Negro por um sonho.

O sonho de Ali Kawa e a sua pequena obra de “arte”

Ali Kawa é um sírio oriundo de Kobane, cidade no norte da Síria que é há meses palco de uma guerra violenta, cercada pelo autoproclamado Estado Islâmico e alvo de bombardeamentos seletivos da aliança internacional que combate o grupo “jihadista”. Quando um bando de assassinos islâmicos atacaram há alguns meses a cidade, Ali e a mulher, grávida, fugiram. Pagaram 6 mil euros por uma viagem só de ida para a Europa, mas sem garantias de chegada. Só queriam fugir da guerra.

Foram acolhidos, primeiro, num campo de refugiados na Turquia. Aí, nasceu há cinco meses Huner, cujo nome significa “arte”. Ali sonha ver a filha a destacar-se na música. “Tenho apenas 27 anos, mas já vi a guerra, homens mortos e pessoas a morrer diante dos meus olhos. Vi alguns a perder as pernas por causa de bombas na fronteira da Turquia. Um homem, que eu conhecia muito bem, morreu. É muito difícil… Não é fácil vermos a nossa casa ser destruída. Vê-la ir pelos ares em escassos instantes”, recorda à euronews o pai de Huner.

Cruzámo-nos com Ali depois de termos acompanhado uma missão de vigilância no Mar Negro, na qual conhecemos o capitão Ciprian Popa, da polícia marítima romena. Parte dos dias passados no mar, muitos deles debaixo de chuva e com condições de mar adversas, são ocupados por estas equipas de vigilância em exercícios de busca e salvamento. Mas há uns dias, a meio da noite, a operação tinha sido bem séria.

“Descobrimos um barco à deriva, às escuras e sem qualquer luz de presença. Não se via qualquer atividade a bordo. Depois de 10 minutos, notámos a presença de cerca de 20 pessoas no convés. Eram mulheres, homens e um bebé”, recorda o capitão Popa, pai de um rapaz de 7 anos: “Para mim, depois de dois ou três dias no mar, ver uma criança a sorrir… aquilo deixou-me feliz”. A criança era Huner.

O pai e o avô de Ciprian Popa eram padres e tinham por vocação a salvação de almas. A paixão do capitão é mesmo salvar vidas e apanhar traficantes. Do barco onde inicialmente apenas 20 pessoas eram visíveis, Popa ajudou a salvar 70, entre elas a sorridente Huner. A maioria destas pessoas eram oriundas da Síria, mas entre elas o capitão descobriu três turcos “facilitadores” — é termo usado para este tipo de traficantes.

O trio foi detido, sob acusação de organizar travessias ilegais no Mar Negro e de colocar em perigo de vida todos os passageiros transportados de forma clandestina.

Um centro de vigilância de topo de gama

No centro de operações de Constança, cidade costeira no sudeste romeno, conhecemos Madalina Zamfir. Ela faz parte da equipa de guardas fronteiriços que coordena, entre outros, com o capitão Popa as operações em curso no Mar Negro. “Ninguém pode entrar no território da União Europeia sem ser detetado. Temos um equipamento muito bom que nos permite até detetar barcos com menos de 20 metros de comprimento a uma distância de 12 milhas náuticas”, explicou-nos Madalina.

De Constança, rumamos à capital, no interior do país. É em Bucareste que encontramos o núcleo nevrálgico do controlo fronteiriço e, porventura, o centro de vigilância mais bem equipado da Roménia. O equipamento é de alta tecnologia e foi fabricado por uma empresa franco-alemã, a EADS.

O contrato foi celebrado há alguns anos, sem concurso público. Foi por adjudicação direta. Existem suspeitas de corrupção entre alemães e romenos. A Procuradoria-Geral de Munique confirmou à euronews haver uma investigação em curso sobre estas suspeitas.

A Comissão Europeia, entretanto, admite que, tecnicamente, a Roménia já pode integrar o Acordo de Schengen, mas países como a Holanda mantêm uma oposição firme a este alargamento do espaço comum. A guarda fronteiriça romena é que já está farta destes jogos políticos.

“Eu e os meus colegas sentimo-nos muito frustrados por a Roménia ainda não ser parte do espaço Schengen. Estamos a fazer aqui um bom trabalho. Muito dinheiro foi já investido na segurança das fronteiras externas da União Europeia. É dinheiro dos contribuintes romenos, mas também dos europeus”, sublinha Liviu-Marius Galos, Subinspector geral da polícia fronteiriça romena.

Para tentar convencer todos os intervenientes neste género de jogo de xadrez político de que o país está a mudar para melhor, os juízes romenos estão a travar uma batalha feroz contra a corrupção.

O que é o Acordo de Shengen?

De forma resumida, o Acordo de Schengen é um tratado assinando em 1985 que visava suprimir gradualmente os controlos fronteiriços entre os signatários fundadores: Alemanha, Bélgica, França, Luxemburgo e Holanda. O acordo, no entanto, apenas foi implementado 10 anos depois, em 1995, já com alguns progressivos alargamentos, que incluíram Portugal e Espanha, por exemplo, em 1991.

O acordo inclui a larga maioria dos Estados-Membros da UE. Irlanda e Reino Unido ficaram de fora por opção e mantém o controlo das respetivas fronteiras, aplicando a convenção de Schengen apenas de forma parcial. Há ainda quatro Estados não-membros da UE que integram o acordo: Islândia e Noruega desde 1996; Suíça e Liechtenstein desde 2008.

Chipre, Croácia, Bulgária e Roménia fazem parte da UE, mas ainda não do espaço Shengen. Os quatros querem ser integrados, mas ainda precisam de concretizar algumas reformas nos respetivos sistemas judiciais. É preciso, nomeadamente, acabar com a corrupção e com o crime organizado.

O negócio clandestino dos “facilitadores”

Seguimos com a corrente do Danúbio e vamos até Galati, junto ao litoral norte da Roménia. Os refugiados salvos pelo capitão Popa foram levados para um centro destinado para pessoas em busca de asilo e que é financiado pela UE. Aqui, encontramos um antigo cabeleireiro de Aleppo, que preferiu manter o anonimato.

Ele também fugiu da guerra, mas os filhos ainda estão na Síria, mas o homem quer tirá-los de lá o mais rápido possível. Só que os “facilitadores” — acusa — são mentirosos: “Os traficantes turcos enviaram-me fotografias para o telemóvel para que visse como seria o barco: era uma embarcação de cinco estrelas. Garantiram-me que a travessia do Mar Negro levaria apenas 10 horas. Afinal, não havia nenhum iate, era um barco velho. Também não havia comida e, em vez de 10 horas, demorámos 48.”

O homem prosseguiu com o relato: “A caminho para a Roménia, no meio do Mar Negro, o líder dos traficantes, de repente, deu-nos algumas ordens: não podíamos usar os telemóveis! Não podíamos fumar! Nada! O ambiente tornou-se tenso, ameaçador e depois começaram as ondas gigantes.”

Enquanto registava as impressões digitais, o antigo cabeleireiro de Aleppo contou-nos um pouco mais da sua vida. Falou-nos da mãe católica arménia; do pai ortodoxo sírio; os melhores amigos que tinha eram muçulmanos. Apesar desta diversidade, os assassinos islâmicos destruíram-lhe a tolerância religiosa. Quem sabe, para sempre.

A situação difícil destes civis desesperados é explorada sem piedade pelas redes de “facilitadores”. “Fiz um acordo com os traficantes: eles vão receber 9.500 euros por me levarem da Turquia até à Alemanha. Para garantir que chego à Alemanha, o dinheiro foi entregue a um intermediário. Assim que chegar à Alemanha, faço uma chamada e ele entrega o dinheiro a uma terceira pessoa. Mas eu ainda não estou na Alemanha, por isso ainda não paguei”, garante o cabeleireiro.

Apenas uma em cada quatro camas no centro de refugiados de Galati está ocupada. Alguns ainda recebem aulas de romeno, mas a larga maioria dos refugiados não quer ficar no país. O sonho de uma vida melhor impele-os para o ocidente europeu.

As redes de traficantes parecem ser bem relacionadas com “gangues” criminosos da Roménia, da Alemanha e da Turquia. Elas não dão descanso aos seus investimentos. “Este bando de traficantes está sedeado em Istambul. Eles perderam muito dinheiro e precisam de fazer algum com urgência. Por isso, começam a colocar pressão sobre os intermediários romenos e estes, por sua vez, pressionam-nos a nós, no centro. Estão sempre a ligar-nos, a dizer para fugirmos e prometem levar-nos para a Alemanha”, revela o nosso interlocutor anónimo.

Ali Kawa, a mulher e a pequena e sorridente Huner também querem seguir viagem. O sonho dele passa por levar a filha para a Áustria. Mas aos microfones da euronews, Ali já está por tudo. “O meu plano é simplesmente ir para qualquer lado no mundo e viver como um ser humano, apenas isto. Só quero poder viver uma vida respeitada”, concretizou.

Material extra desta reportagem

Deve a Roménia juntar-se já ao espaço Schengen?
O analista romeno Emil Hioratiu Hurezeanu explicou à euronews porque é que a Roménia ainda não faz parte da zona Schengen da UE. Para escutar a entrevista completa (em francês) clique nesta ligação eletrónica.

A maioria dos migrantes tem a Alemanha como destino
Razvan Samoila, diretor executivo do Fórum Romeno para os Refugiados e Migrantes (ARCA, na sigla original) falou com a euronews sobre este tópico. Para escutar esta entrevista (em inglês) use esta ligação eletrónica.

Ali Kawa cruzou o Mar Negro num barco de refugiados
Um jovem de 27 anos quis salvar a sua filha bebé e a mulher da guerra no norte da Síria. Juntos, integraram um grupo de 70 refugiados que se meteu num barco e enfrentou as tumultuosas águas do Mar Negro. O repórter da euronews Hans von der Brelie conheceu Ali Kawa em Galati, na Roménia, poucos dias depois do barco em que ele seguia ter sido resgatado pela guarda costeira romena. Para ouvir na íntegra a entrevista de Ali Kawa (em inglês) siga esta ligação eletrónica.