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FMI elogia União Europeia mas pede mais em nome da economia global

Christine Lagarde passou em revista a retoma global e, em Washington, falámos em exclusivo com o número 2 do Fundo Monet´rio Internacional

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FMI elogia União Europeia mas pede mais em nome da economia global

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Só os Estados Unidos, o Reino Unido e a Índia não são suficientes para relançar a economia mundial. Este é um alerta do Fundo Monetário Internacional (FMI), que antevê para este ano um crescimento mundial na ordem dos 3,5 por cento. É um valor “medíocre e insuficiente”, descreveu a própria diretora-geral do FMI, Christine Lagarde, numa conferência de imprensa, em Washington, na véspera do arranque das reuniões da primavera do organismo.

Point of view

Adiamentos de reembolsos nunca foram concedidos pelo FMI nos últimos 30 anos (a países desenvolvidos)

O abrandamento dos países emergentes contrariou as anteriores previsões do FMI. Em particular, a América latina, a perder embalagem pelo quarto ano consecutivo e com um crescimento estimado de apenas 0,9 por cento.

“O Brasil, por exemplo, está estagnado e as previsões são ligeiramente negativas este ano. A China está a abrandar e assim deve continuar, até pela pela própria abordagem política e determinação. A Rússia não está nada bem e está em território negativo por razões óbvias, seja pela queda do preço do petróleo ou pelas sanções”, disse Lagarde.

A diretora-geral do FMI lamentou que as feridas deixadas pela crise financeira ainda não tenham cicatrizado em boa parte do Mundo, mas há pontos positivos, salientou: “Os riscos macroeconómicos foram reduzidos. Ainda existem, mas se olharmos aos pontos positivos, vemos por exemplo que a economia americana está a recuperar com muita força e há outros sinais bem positivos. Na Europa, o Reino Unido está claramente a aguentar-se muito bem.”

Na zona euro, Lagarde reconhece mais sinais positivos, embora mostre reservas face a uma atuação baseada somente em políticas monetárias expansivas. Nos últimos meses, mais de uma dúzia de bancos centrais – não só europeus – decidiram moderar as políticas monetárias para tornarem mais competitivas as respetivas economias e, com isso, evitar a deflação.

“A zona euro também está a mostrar sinais de recuperação. Muito mais do que havíamos visto antes. O Japão está a sair de uma pequena recessão e prevê-se que continue a melhorar”, prognosticou a responsável do FMI.

Em relação à Grécia, Lagarde recomendou ao governo de Atenas que trabalhasse no sentido de restaurar a estabilidade económica do país: “Isso consegue-se olhando, de facto, para as medidas (a implementar), comprometendo-se com as reformas e antecipando os resultados. Esse é o trabalho aborrecido dos ministros das Finanças, estejam eles onde estiverem, e dos credores.”

Sobre a possibilidade de um adiamento do reembolso por parte de Atenas, Lagarde foi clara: “Adiamentos de reembolsos nunca foram concedidos pelo FMI nos últimos 30 anos (a países desenvolvidos). A alguns países em desenvolvimento foram, eventualmente, permitidos. Mas esse adiamento não levou a resultados produtivos”. Resumindo, foi um não ao adiamento do prazo de reembolso da Grécia.

Numéro 2 do FMI elogia Ucrânia e avisa Atenas

O correspondente da euronews nos Estados Unidos, o alemão Stefan Grobe, encontrou-se em Washington, na sede do FMI, com o vice-diretor-geral do fundo, David Lipton. A economia mundial esteve sobre a mesa, num exclusivo sob a perspetiva europeia.

Stefan Grobe, euronews: Deixe-me começar por lhe perguntar pela economia global. O crescimento continua lento devido a alguns riscos substanciais como dívidas altas, demasiado desemprego ou ainda investimentos discretos. Mas há também a insegurança global. Todos os dias assistimos a atos de violência, guerra ou terrorismo no Médio Oriente, em África, na Ucrânia… Em que medida é que tudo isto ameaça a recuperação global? David Lipton, vice-diretor-geral do FMI: Estamos numa situação na qual vemos agora mais pontos em ebulição e ameaças à segurança do que vimos durante muito tempo. Talvez mesmo durante toda uma geração. Mas, até agora, penso que não vimos estes acontecimentos terem um impacto que possamos chamar global. Existem apenas efeitos regionais. Seja na Ucrânia ou no Médio Oriente. Mas não, efeitos globais.

Como analisa a situação na Europa? A Europa saiu da recessão. A zona euro está de novo a crescer. Isto aconteceu, em parte, devido ao decisivo e benéfico impacto da descida dos preços do petróleo. Mas também por causa das medidas implementadas para suportar a economia. Em especial, a abordagem muito solidária do Banco Central Europeu. Mas este é um momento de oportunidade. Se a Europa intensificar os esforços de apoio ao crescimento de hoje e ao crescimento de amanhã, penso que pode ser conseguido um futuro muito melhor. Gostaria de falar também da Grécia. Ninguém, de facto, sabe quando é que a Grécia vai ficar a zeros, sem dinheiro. A ideia geral é que será em breve. As negociações entre os credores e a Grécia não revelam qualquer progresso e muitos culpam os gregos. O FMI é parte do processo. Qual é a vossa mensagem para o governo grego? Se continuarmos a dialogar com eles, se intensificarmos estas negociações e chegarmos a algum tipo de acordo sobre as políticas que o governo deve seguir para resolver os problemas, então teremos abertura para libertar meios financeiros que os vão ajudar nessa iminente crise de liquidez. Não estamos a sugerir que o governo tenha de resolver os problemas da Grécia na mesma linha do que estava a fazer o executivo anterior. Há uma nova abordagem. Mas nós temos de saber muito bem que tipo de abordagem vão seguir (em Atenas) e detalha-la o máximo possível para que o Mundo, o FMI e os Estados Membros (da União Europeia) estejam descansados por a Grécia estar de facto a resolver o problema.

Finalmente, a Ucrânia: o FMI aprovou recentemente um financiamento de Dezassete mil milhões de dólares a Kiev. Os críticos dizem que o FMI está arriscar muito porque o governo ucraniano não está a atacar devidamente a corrupção nem parece muito sério quanto a reformas no país. O que diz a estes críticos? Este é um governo ucraniano muito orientado para reformar o país. Há países onde vamos nos quais temos de pressionar os governos a adotar reformas. Neste caso, porém, estão ávidos por implementar reformas e conscientes dos desafios e das ameaças que pairam sobre a Ucrânia. Conhecem a história de muitas reformas falhadas e de frustrações. Devido aos desafios que a Ucrânia enfrenta, a população está preparada para aceitar as reformas. Por isso, o governo está pronto a avançar e nós para tentar ajudar.