Última hora

Última hora

Nuclear iraniano: Confrontação ou cooperação

O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão esteve esta semana em Lisboa. A euronews viajou até à capital portuguesa e entrevistou Mohammad Javad

Em leitura:

Nuclear iraniano: Confrontação ou cooperação

Tamanho do texto Aa Aa

O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão esteve esta semana em Lisboa. A euronews viajou até à capital portuguesa e entrevistou Mohammad Javad Zarif que nos explicou como foi possível alcançar um compromisso e abrir a via a um entendimento definitivo sobre o programa nuclear iraniano.

Point of view

Podemos escolher um caminho de confrontação ou escolher um caminho de cooperação, não podemos ter um pouco de cada.

Um acordo preliminar foi alcançado depois de meses de negociações. Pode contar-nos o que se passou nos bastidores das negociações, nomeadamente em Lausana?

As negociações foram uma tentativa para alcançar dois objetivos. O primeiro objetivo era assegurar que o programa nuclear iraniano será sempre pacífico e o segundo objetivo era obter o fim das sanções. Do nosso ponto de vista, ambos os objetivos eram sensatos porque o Irão nunca pretendeu produzir armas nucleares, de modo que nos interessava seguir nessa direção, e as sanções não ajudaram ninguém durante este processo. Era importante para nós conseguirmos alcançar estes dois objetivos, foi o que tentámos. Por vezes foi difícil porque alguns dos nossos amigos ocidentais e parceiros de negociação acreditavam que as sanções eram um ativo, eram algo que não deveriam abandonar facilmente. Isso criou grandes dificuldades. Houve outros momentos duros por causa das diferentes interpretações de vários aspetos do compromisso final. Mas nós fomos capazes de nos concentrarmos em todas as soluções para todos os problemas que existiam. Agora começamos a parte difícil, a negociação e a redação do acordo final. Isso vai levar muito tempo e exigir um grande esforço, mas eu penso que as decisões políticas já estão tomadas. Agora cabe-nos a nós e aos nossos colegas redigir as partes mais técnicas do acordo.

Depois de 18 meses de negociações as sanções continuam a ser o maior problema. Como pensa resolver esta questão nos próximos três meses, até ao fim do mês de junho?

Nós não estamos a falar de uma remoção gradual das sanções. Infelizmente, os Estados Unidos começaram a falar nessa possibilidade e a usarem a frase “sanções faseadas” mas se ler a declaração conjunta não vai encontrar sequer a palavra “suspensão”, nem vai ver a palavra “faseada”. Está claro que todas as sanções, todas as sanções económicas e financeiras, vão acabar. No dia em que fecharmos o acordo vamos ao Conselho de Segurança da ONU e o Conselho de Segurança vai adotar uma resolução para colocar um termo às resoluções precedentes e preparar o fim de todas as sanções. Isto é muito claro: não vai haver suspensão, não vai haver um faseamento; isto é muito claro no acordo que anunciámos.

Mas a declaração de Lausana não menciona qualquer calendário para o fim das sanções…

O calendário é muito claro porque chegámos a acordo para que o Irão, os Estados Unidos, a União Europeia e o Conselho de Segurança da ONU, adotem medidas irreversíveis. A questão é: quando alcançámos um acordo em novembro, em Genebra, não tínhamos um documento-quadro e o que produzimos, do lado iraniano, foi o documento atual. Os Estados Unidos, por razões domésticas, estão no seu direito e têm essa prerrogativa, produziram um documento-quadro que não era exatamente o mesmo que adotámos. Por isso, o melhor para todos é deixar de nos confrontarmos, negociarmos e quando alcançarmos o acordo final torná-lo público e acessível a todos.

Mas agora os deputados iranianos pediram para que a versão iraniana do documento-quadro seja publicada. Porque é que ainda não o fez?

Bem, na verdade nós fizemo-lo. Eu dei uma entrevista de duas horas e meia na televisão iraniana onde expliquei tudo. O Dr. Salehi, o chefe da Organização de Energia Atómica iraniana, também foi à televisão e explicou o processo todo. Nós não temos nada a esconder e não vamos fazer, agora, uma interpretação enviesada dos termos do compromisso. Acredito que quando fecharmos o acordo final… na verdade, neste momento, precisamos de redigir um esboço e chegar a um consenso sobre este documento. Dissemos desde o início que precisamos de escolher um caminho. Podemos escolher um caminho de confrontação ou escolher um caminho de cooperação, não podemos ter um pouco de cada. Se tomarmos o caminho da confrontação, os Estados Unidos e a ONU vão manter as sanções e o Irão vai continuar a enriquecer urânio, sem qualquer tipo de restrição.

Voltando à minha pergunta, porque é que não publicou o documento-quadro? É uma tática para reduzir a pressão da ala conservadora no Irão?

Nós negociamos em nome do interesse nacional, não negociamos em nome de grupos de pressão política e eu penso que os Estados Unidos deveriam fazer o mesmo. Se for preciso publicar o documento-quadro nós fazemo-lo mas eu acho que o povo iraniano agora conhece melhor os factos.

Vou mencionar os nomes dos ministros dos negócios estrangeiros que participaram nas negociações e pedia-lhe um comentário breve.

Frank-Walter Steinmeier?

Um negociador sério.

Laurent Fabius?

Novamente, um negociador sério.

O ministro chinês dos Negócios Estrangeiros?

Um bom amigo e um negociador sério.

O chefe da diplomacia russa?

Novamente, um bom amigo e um negociador sério.

John Kerry?

Uma pessoa que dedicou muito tempo a este dossiê e, novamente, um negociador sério.

Uma pergunta acerca de um conflito regional, o Iémen. A situação atual acentuou as diferenças estratégicas entre o Irão e a Arábia Saudita. Qual é o impacto que esse conflito vai ter no futuro da região?

O Iémen não é o palco da confrontação entre o Irão e a Arábia Saudita. O Iémen tem um problema que tem de ser resolvido pelo povo iemenita, pelas diferentes fações políticas do Iémen e quem tem influência no Iémen deve ajudar.

O que pensa quando o senhor Lavrov diz que a venda dos mísseis antiaéreos S300 ao Irão se deve ao conflito no Iémen?

Nós tínhamos um acordo com a Rússia, um contrato, há muito tempo, para a aquisição de meios de defesa antiaérea. Não são armas ofensivas, são armas defensivas que encomendámos há muito tempo à Rússia e agora decidiram honrar o contrato e efetuar o fornecimento.

Seria uma violação das sanções da ONU

Não, nunca foi contra nenhuma sanção da ONU. Penso que a declaração russa é muito clara, eles disseram que não violava nenhuma sanção da ONU. No Irão nós não reconhecemos essas sanções, consideramo-las ilegais. Consideramos todas as sanções ilegais e injustificadas. A Rússia tomou a sua decisão e todas as perguntas têm de ser colocadas à Rússia. Pensamos que o atraso no fornecimento destes sistemas de defesa antiaérea era desnecessário mas ficamos satisfeitos com a decisão da Rússia de respeitar o contrato.