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Migração ilegal: Alegado responsável pela morte de mais de 800 pessoas começa a ser julgado

Identificado por alguns dos 28 sobreviventes do naufrágio de sábado como o capitão do pesqueiro sobrelotado, o suspeito alega inocência

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Migração ilegal: Alegado responsável pela morte de mais de 800 pessoas começa a ser julgado

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Começou a ser julgado esta sexta-feira num tribunal de Catânia, na Sicília, Itália, o alegado capitão do barco naufragado sábado à noite com, presume-se, mais de 800 pessoas a bordo. O pesqueiro estaria sobrelotado de migrantes ilegais, a maior parte fechados no porão.

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Sinto-me muito feliz por ter salvado estas (22) pessoas

Sobreviveram ao naufrágio 28 pessoas. Alguns dos testemunhos recolhidos entre estes, apontam para o tunisino Mohammed Ali Malek, de 27 anos, como o capitão do barco. O sírio Mahmud Bikhit foi apontado como cúmplice e também está sentado no banco dos réus. Ambos se declaram inocentes das acusações de facilitação da migração ilegal no Mediterrâneo e, no caso exclusivo do suposto capitão, de múltiplo homicídio. Bikhit também acusou Malek de ser o responsável máximo dentro do barco.

Nesta audiência preliminar, o tunisino manteve-se impávido. O advogado defesa, Massimo Ferrante, afirmou quinta-feira que Malek vai defender diante dos juízes que era apenas um passageiro na embarcação.

O naufrágio de sábado à noite é tido como o mais grave da última década no Mediterrâneo. Um dos primeiros barcos a prestar auxílio à embarcação sobrelotada e em apuros foi um cargueiro de bandeira portuguesa, o King Jacob, que chegou a ser apontado como o responsável do acidente devido a uma referida colisão. Essa responsabilidade foi rejeitada pelas autoridades italianas que investigam o caso.

O segundo-comandante do King Jacob falou quinta-feira com a agência Lusa, via telefone. “Sinto-me muito feliz por ter salvado estas pessoas”, disse o filipino Alan Lara, de 36 anos. O barco de bandeira portuguesa resgatou 22 dos 28 sobreviventes do trágico naufrágio, com recurso a cordas, boias e um barco pneumático.

A procuradoria de Catânia admite que terá havido uma colisão fatal entre as duas embarcações, mas imputou a culpa a erros de manobra da pessoa que pilotava o pesqueiro sobrelotado e aos movimentos gerados pelo pânico das centenas de pessoas a bordo. Depois do pesqueiro se virar, os náufragos começaram a nadar em direção ao King Jacob, que se encontraria a poucos metros.

Catânia continua a receber migrantes resgatados

Ao porto de Catânia continuam a chegar barcos da guarda costeira italiana com migrantes clandestinos resgatados no Mediterrâneo. Depois dos mais de 200 de quinta-feira, esta sexta-feira chegaram mais 85 pessoas salvas de um iminente naufrágio ao largo da Líbia.

Só nos primeiros meses deste ano já terão morrido cerca de 1.800 pessoas a tentar atravessar de forma clandestina o Mediterrâneo a caminho da Europa. A larga maioria, só nas últimas semanas, incluindo as mais de 800 vítimas do último sábado.

O número de mortos deste ano já ultrapassa a metade das registadas durante todo o ano de 2014: 3.200. A estimativa, no pior cenário, aponta para cerca de 30 mil mortos no final de 2015. Para evitar estas previsões trágicas, a União Europeia reuniu-se de forma extraordinária na quinta-feira e chegou a um princípio de acordo entre os “28” para triplicar o investimento na Operação Tritão, que em novembro tomou o lugar de forma muito modesta da italiana Mare Nostrum, que custava cerca de 9 milhões de euros mensais e foi suspensa em outubro.

Os líderes europeus, pela voz do presidente da Comissão, Jean Claude Juncker, pretendem aumentar para 120 milhões de euros o orçamento da Tritão, a operação que visa especificamente o patrulhamento, a busca e salvamento de pessoas em perigo no Mediterrâneo e para a qual Portugal tem contribuído com recursos da Marinha.

O reforço desta ajuda portuguesa foi também disponibilizado, no final do Conselho de Ministros extraordinária, em Bruxelas, pelo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho.

O Alto comissáio das Nações Unjidas para os Refugiados, o português António Guterres, alertou que “não é possível deter as pessoas que fogem pelas próprias vidas”. “Elas vão continuar a faze-lo. A escolha que temos é encontrar a melhor formka de gerir a chegada destas pessoas e com que humanitarismo”, afirmou o antigo primeiro-ministro português, que tem prevista para esta sexta-feira uma declaração conjunta com a atriz, realizadora e embaixadora da ONU, Angelina Jolie, sobre um drama específico na origem de parte das tragédias no Mediterrâneo: os refugiados da guerra na Síria.