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Rússia: Primeira visita de Kerry a Putin desde o início do conflito na Ucrânia

Reunião do secretário de Estado norte-americano com o líder do Kremlin coincide com lançamento de relatório que garante a participação de soldados russos no conflito ucraniano. Leia tudo aqui.

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Rússia: Primeira visita de Kerry a Putin desde o início do conflito na Ucrânia

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Vladimir Putin e o secretário de Estado norte-americano tiveram esta terça-feira, em Sochi, no sudoeste da Rússia, “discussões francas” sobre o programa nuclear do Irão, a guerra na Síria e o conflito separatista na Ucrânia. A revelação partiu do próprio John Kerry, através do Twitter, no decorrer da primeira visita à Rússia desde o início do conflito separatista no leste ucraniano.

Point of view

Tive discussões francas com o Presidente Putin e o Ministro dos Negócios Estrangeiros Lavrov em temas chave incluindo as negociações com o Irão, a Síria e a Ucrânia

O chefe da diplomacia americana sublinhou pela mesma rede social da internet ser “importante manter abertas linhas de comunicação” porque ambos os países estão a “tratar importantes temas de interesse global.”

Antes, pela manhã, John Kerry foi recebido em Sochi pelo homólogo russo, Serguei Lavrov, com o qual passou cerca de quatro horas, incluindo um almoço descontraído num dos melhores hotéis da conhecida estância de férias russa, antes de ambos se juntarem a Vladimir Putin, na casa de verão do Presidente russo.

Os dois responsáveis diplomáticos de Rússia e Estados Unidos tiveram ocasião para uma troca de prendas. Ainda com a lembrança das batatas do Estado americano do Idaho que havia recebido de Kerry em janeiro do ano passado, Lavrov ofereceu desta feita ao homólogo batatas de Krasnodar e tomates de Sochi, no que alguns meios de comunicação viram uma indireta pelas sanções económicas impostas à Rússia pelo ocidente (Estados Unidos, à cabeça).

No “twitter” oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia lia-se, por exemplo, “os tomates de Sochi são os melhores amigos das batas do Idaho”, numa série de mensagens ilustradas do momento das ofertas de Lavrov a Kerry (ver em baixo). O secretário de Estado norte-americano retribuiu com uma lista mais séria de 10 frases retiradas da imprensa russa, as quais, de acordo com Kerry, “não refletem o verdadeiro potencial da relação russo-americana.”


Logo após a chegada a Sochi, a meio da manhã, Kerry foi conduzido por Lavrov até Zavokzalny, o memorial aos soldados russos que deram a vida pela vitória dos aliados há 70 anos na II Guerra Mundial. Depois de os Estados unidos terem recusado participar nas exuberantes celebrações do Dia da Vitória em Moscovo, a 9 de maio, os dois responsáveis diplomáticos depositaram em conjunto flores no memorial.

Relatório garante intervenção militar russa na Ucrânia?


No mesmo dia da primeira visita à Rússia do secretário de Estado norte-americano desde o início do conflito separatista da Ucrânia, foi apresentado em Moscovo, pelos opositores de Putin, um relatório que garante provar a intervenção militar russa no leste ucraniano.

O documento foi redigido ainda em parte por Boris Nemtsov, o conhecido rosto da oposição a Putin assassinado a 27 de fevereiro de fevereiro, na capital russa, perto do Kremlin. A apresentação do relatório aconteceu por Ilia Iachin, outro dos autores, o qual sublinhou as “provas exaustivas” da interferência militar da Rússia no conflito ucraniano.


O relatório prolonga-se por 64 páginas, intitula-se “Putin. A Guerra” e nele lesse que as tropas russas atravessaram pela primeira vez “em massa” a fronteira para a Ucrânia em agosto do ano passado, durante a ofensiva dos separatistas pró-russos em Ilovaisk e na frente sul de Donetsk.

Pelo menos 150 soldados russos morreram nesses combates, tendo as famílias recebido uma compensação de dois milhões de rublos (cerca de 35.000 euros) em troca da assinatura de um contrato de confidencialidade, avança o relatório, acrescentando que outros 70 soldados russos, incluindo 17 paraquedistas, terão morrido entre janeiro e fevereiro deste ano próximo da cidade Debaltsevo. No documento, Nemtsov garante ter falado com representantes dos familiares desses soldados mortos. “Todos os êxitos militares dos separatistas foram realizados por unidades do exército russo”, afirmou Iachin.


Outro dos coautores do relatório, o economista Serguei Alexashenko, estima que em apenas 10 meses a Rússia investiu cerca de 53 mil milhões de rublos (quase um milhão de euros) no conflito ucraniano, gastando, por outro lado, cerca de 80 mil milhões de rublos (1,4 mil milhões de euros) com as centenas de milhares de ucranianos que acolheu devido ao conflito no país vizinho.

Alexashenko calculou ainda um prejuízo de 2,75 biliões de rublos (48 mil milhões de euros) na Rússia, provocado pelas sanções impostas pelo ocidente após a anexação da Crimeia em meados de março do ano passado. Os autores do relatório explicaram que o conteúdo do relatório partiu de “fontes abertas”, “fontes anónimas em Moscovo” e testemunhos de familiares de soldados.

O Kremlin recusou comentar o relatório.