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Paulo Almoster: "Prevejo anos de austeridade permanente" para Portugal

Paulo Almoster, editor de economia da TVI, analisa a atual situação de Portugal, 4 anos após o resgate da troika

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Paulo Almoster: "Prevejo anos de austeridade permanente" para Portugal

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Portugal saiu do programa de resgate, no valor de 78 mil milhões de euros, há seis meses. Em 2012, pouco depois de ter assinado o memorando de entendimento com a troika, os juros da dívida situavam-se nos 18%. Hoje estão nos 2,5%. As previsões dos analistas apontam para um crescimento do PIB de 1,6%, em 2015.

Point of view

As pessoas estão a começar a habituar-se a viver com menos dinheiro. Os portugueses estão mais pobres, de facto - Paulo Almoster

Após quatro anos, as consequências do resgate são bem visíveis na vida da população portuguesa. Os anos de austeridade provocaram mudanças significativas nos hábitos e na qualidade de vida.

Os restaurantes perderam clientes. Os portugueses começaram a preferir cozinhar mais em casa e a levar comida para o trabalho, para poupar dinheiro. A venda de eletrodomésticos para cozinhar em casa e de marmitas aumentou exponencialmente.

A taxa de desemprego continua elevada – cerca de 14% – principalmente entre os jovens, onde ultrapassa os 33%. Muitos foram obrigados a emigrar. É a chamada “geração perdida” que partiu em busca de trabalho.“Troika” e “austeridade” foram palavras muito utilizadas e pouco apreciadas. E continuam a ser.

Para percebermos um pouco mais como está o Portugal de hoje, falámos com Paulo Almoster, editor de Economia da TVI.

Dulce Dias, euronews: *Foi há 4 anos que começou o resgate da economia portuguesa pela entidade a que, comummente, chamamos troika. Portugal esteve submetido a um rude programa de ajustamento económico e financeiro. Foram anos de reformas e de austeridade.

Paulo Almoster, és editor de economia da TVI e, portanto, estás bem posicionado para analisar as mudanças que ocorreram nestes últimos anos. Podes dizer-nos o que é mudou, estruturalmente, na administração, no Estado português?*

Paulo Almoster: “No Estado português pouca coisa mudou estruturalmente. Na economia portuguesa também pouca coisa mudou de forma estrutural. Não houve grande tempo para que o programa da troika tivesse efeitos estruturais. Agora, na vida dos portugueses e na relação do Estado com os portugueses, houve uma mudança estrutural que veio para ficar e que é o aumento de impostos. Perante a necessidade de cumprir as metas acordadas com a troika em 2012, o governo pôs em prática um enorme aumento de impostos. Para dar uma ideia, o IRS – que é o imposto sobre o rendimento – aumentou cerca de 30 por cento.”

euronews: E esse aumento vai continuar, vai ficar?

Paulo Almoster: “A questão é que não há grandes perspetivas. Não se percebe como é que se pode aliviar esta carga fiscal muito pesada, nos próximos anos. Porque há compromissos que o país assinou, em termos europeus, e que obrigam a pôr, por exemplo, a dívida numa trajetória descendente de forma consistente durante os próximos 20 ou 30 anos. Portanto, na minha perspetiva, de facto, esse enorme aumento de impostos veio – e veio para ficar.”

euronews: E como é que isso se vê no dia-a-dia dos portugueses?

Paulo Almoster: “A questão é que, de facto, as pessoas estão a começar a habituar-se a viver com menos dinheiro. Os portugueses estão mais pobres, de facto.

Os salários não mudaram muito – os salários que são pagos -, mas são os salários antes de serem cobrados os impostos. Portanto o rendimento líquido das pessoas, esse tem vindo a diminuir. E estou a falar da classe média, que é a grande classe que paga impostos.

As pessoas, por exemplo, em termos de consumo, deixam de comprar carros, e portanto, as vendas de automóveis caíram a pique. Agora estão a recuperar mas partem de números que são muito baixos.

Por exemplo, em termos de consumo no supermercado, as pessoas transferiram as compras de carne de vaca para muito mais carne de frango ou de peru – que é muito mais barata. É um exemplo concreto de como as pessoas se adaptaram.

As pessoas também passaram a levar, de casa, a marmita com a refeição. E isso sentiu-se também, por exemplo, ao nível dos restaurantes, que sofreram uma crise profunda. Portugal foi um país onde, nos últimos anos, a venda daquelas máquinas de preparar comida – as Bimbis ou as Thermomix – dispararam para valores recorde.

Muitas pessoas, durante muito tempo, passaram a fazer menos férias do que faziam e passaram também a fazer férias dentro de Portugal em vez de irem para o estrangeiro. Isso, evidentemente, beneficiou o turismo português, mas também não foi por uma opção. Foi porque as pessoas não tinham dinheiro.

euronews: A mudança de comportamento é uma verdadeira mudança de mentalidade ou é só conjuntural?

Paulo Almoster: “É difícil avaliar isso nesta altura porque passou pouco tempo e as pessoas ainda estão muito ressentidas com a troika e com os políticos. Nós vamos ter eleições agora – em setembro ou outubro -, eleições para assembleia da república, e é o momento essencial para percebermos se as pessoas, de alguma forma, vão penalizar os partidos. Mas, a verdade, é que não se registam – pelo menos nas sondagens – fenómenos como aquele que aconteceu na Grécia, com o Siriza ou aquilo que se verifica nas sondagens, em Espanha, com os partidos – o Podemos e o Ciudadanos – que estão a ter peso eleitoral. Pelo menos, ao nível das sondagens.”

euronews: A troika saiu de Portugal há 6 meses, mas o país continua sob vigilância, pelo menos, até 2026. Que futuro é que tu prevês para Portugal?

Paulo Almoster: “Eu prevejo que, perante os compromissos que existem, isto vão ser anos de austeridade permanente. Porque há esse compromisso de baixar a dívida pública.

O Estado não vai ter grande folga para aliviar, naquilo que cobra às pessoas, e também não vai ter grande folga para aliviar, ao nível das pensões, porque a população portuguesa está a envelhecer a um ritmo muito acelerado. Nós vimos, nos últimos anos, o número de jovens que emigrou. Essas pessoas foram-se embora e, portanto, há aqui uma geração qualificada e que foi formada em Portugal e que está a ir para fora trabalhar.

Aqui ficaram, evidentemente, os velhos, os reformados. Eles são cada vez mais e vivem cada vez mais tempo – uma das consequências é que as pensões vão ser cada vez mais baixas e também a idade da reforma cada vez mais elevada.”