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David Cameron em digressão europeia para debater propostas britânicas de reforma da UE

Foi perante casa cheia que a rainha de Inglaterra revelou o programa do novo executivo, liderado pelo conservador David Cameron, reconduzido no

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David Cameron em digressão europeia para debater propostas britânicas de reforma da UE

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Foi perante casa cheia que a rainha de Inglaterra revelou o programa do novo executivo, liderado pelo conservador David Cameron, reconduzido no cargo. Durante o tradicional discurso de abertura da nova legislatura, Isabel II leu o texto redigido pelo Governo, que elenca as prioridades para os próximos cinco anos.

Um dos grandes desafios que o primeiro-ministro britânico tem pela frente é a realização de um referendo, até ao final de 2017, sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia (UE). Essa foi, aliás, uma das promessas eleitorais de David Cameron, que iniciou esta quinta-feira um périplo por vários países europeus para apresentar e debater as propostas britânicas de reforma da UE.

Tem encontro marcado com a primeira-ministra polaca esta sexta-feira. Da Polónia segue para a Alemanha, onde reunirá com Angela Merkel. A chanceler está de acordo em algumas matérias, mas será preciso acertar agulhas. As principais capitais europeias querem que o Reino Unido continue na UE, mas não a qualquer preço.

Nos planos de Cameron incluem-se conversações, “pessoalmente ou por telefone”, com todos os Estados-membros da UE, antes do Conselho Europeu agendado para 25 e 26 de junho.

Quais são as hipóteses de sucesso e o que pretende exatamente David Cameron?

Entrevistámos Nina Schick, do think tank “Open Europe’, sobre o longo caminho que espera o primeiro-ministro britânico.

James Franey, Euronews – David Cameron começou um périplo pela Europa, para reunir apoios aos planos de reforma da União Europeia. O que é que o primeiro-ministro espera conseguir com esta viagem?

Nina Schick,“Open Europe” – “É muito importante que David Cameron crie agora os alicerces para as grandes negociações que se avizinham, presumivelmente por altura do Conselho, em junho. Em última análise serão os outros líderes europeus quem irá determinar até que ponto esta renegociação terá sucesso. Estarão envolvidas instituições como a Comissão Europeia e Cameron terá de contar com o apoio de outros líderes europeus e ganhar aliados poderosos no velho continente, como Angela Merkel, por exemplo. Por isso, o périplo consiste mais em criar as condições e preparar as negociações que hão de vir.”

James Franey, Euronews – Que tipo de coisas é que David Cameron pode conseguir concretamente a nível europeu?

Nina Schick, “Open Europe” – “No aspeto económico estamos a falar de acordos de livre comércio com o resto do mundo, reduzir a burocracia, assegurar que a regulação é melhor mas também menor. A Comissão já está a dar passos neste sentido e outros países europeus são a favor. São coisas para as quais não é necessária uma mudança do Tratado. Em relação ao aspeto democrático das reformas, estamos a falar em assegurar que os parlamentos nacionais são o árbitro máximo em autoridade na UE, em vez da Comissão ou de Bruxelas, mas também em assegurar que os países de fora da zona euro não são flanqueados pelas nações da moeda única. Por isso, países como a Dinamarca, Suécia e Polónia, que não partilham a moeda única e que não se juntarão à zona euro, jamais ou pelo menos a longo prazo, têm algum tipo de salvaguarda institucional. Quer dizer que não se tornarão membros de segunda linha no clube. O Reino Unido é um parceiro de grande valor para a União Europeia e penso que os agentes do poder real na UE estão conscientes desse facto.”

James Franey, Euronews – Disse que o Reino Unido é um parceiro de grande valor para a União Europeia. Acredita que os outros países estão de acordo?

Nina Schick, “Open Europe” – “Penso que é um problema de perceção para o Reino Unido. Se olharmos para esta questão à luz do contexto atual, em que a segurança europeia está sob ameaça, em que falamos da crise na Ucrânia, da situação no Médio Oriente, no Norte de África, perder uma das maiores potências militares e de defesa no seio da União Europeia seria um golpe. A nível económico, o Reino Unido é um dos maiores contribuintes para o orçamento da UE. Se o Reino Unido sair da UE, isso teria implicações na balança do poder a favor de um bloco mediterrânico mais protecionista. Alguns países como a Alemanha, determinantes em qualquer tipo de negociação na UE, estão conscientes desse facto, de que precisam da voz liberal do Reino Unido na UE, para que o bloco possa continuar globalmente competitivo, para que possa olhar para o exterior e possa conseguir sobreviver no século XXI.”

James Franey, Euronews – Alguns peritos dizem que a zona euro precisará de mais integração. Não será uma missão impossível, reabrir Tratados, com a França e a Alemanha a oporem-se a essa ideia?

Nina Schick, “Open Europe” – “Essencialmente é o que David Cameron tem de fazer quando reclamar as reformas. Sei que por vezes as pessoas sentem frustração porque as reformas concretas ainda não foram colocadas na mesa, mas julgo que ao longo dos próximos meses ficaremos a saber do que se trata. Em vez de as apresentar dizendo – aqui está uma reforma – terá de incorporá-la no quadro de uma visão mais alargada para a UE. Depois tentará inseri-la nos Tratados a determinada altura no futuro, o que já é uma realidade política. Já temos uma Europa a duas velocidades, já temos uma Europa com múltiplas camadas. Depois pretende-se envolver o mercado único na base da filiação europeia, pelo que países como a Dinamarca, Suécia ou o Reino Unido não integrarão a zona euro, mas ainda têm os mesmos direitos dos outros que partilham a moeda única. Claro que sabemos que a zona euro necessita de maior integração, por isso deveria ser-lhes permitido seguir em frente. Mas uma vez mais, a base da integração europeia não é a divisa comum, mas o mercado único.”