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Heysel Park: Crónica de uma tragédia anunciada

Há precisamente três décadas 39 adeptos de futebol, a grande maioria tiffosi da Juventus, morreram no interior do estádio de Heysel Park, em

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Heysel Park: Crónica de uma tragédia anunciada

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Há precisamente três décadas 39 adeptos de futebol, a grande maioria tiffosi da Juventus, morreram no interior do estádio de Heysel Park, em Bruxelas, momentos antes do pontapé de saída da final da Taça dos Campeões Europeus entre o clube italiano e o Liverpool. A tragédia fez também seis centenas de feridos.

Hooligans

Em grande parte, a tragédia foi provocada pelos hooligans ingleses. Os adeptos do Liverpool foram colocados nas zonas X e Y enquanto os da Juventus foram distribuídos pelas zonas M, N e O, no topo oposto. A zona Z, adjacente aos apoiantes do clube inglês, deveria ser uma zona neutral, para apaixonados do futebol sem preferência clubística. Mas muitos destes bilhetes acabaram por ser vendidos no mercado negro a adeptos da Viecchia Signora.

Um ano antes, o Liverpool tinha-se sagrado campeão europeu, em Roma, diante da AS Roma. Após a partida muitos adeptos britânicos foram atacados por tiffosi italianos. Heysel Park proporcionou a oportunidade para a vingança. À capital belga rumaram hooligans ingleses de vários pontos do país.

Uma hora antes do pontapé de saída, ingleses e italianos colocados nas zonas X e Z, respetivamente, começaram a arremessar pedras, garrafas e outros objetos uns aos outros. Ao fim de 45 minutos um grupo de hooligans derrubou a barreira de separação e carregou sobre os adeptos transalpinos. Sitiados, os adeptos na zona Z tentaram fugir subindo as bancadas para escalar um muro e saltar para o outro lado. Mas o muro cedeu à pressão. Muitos fugiram também em sentido contrário, rumo ao relvado. A barreira de segurança cedeu igualmente. A maioria das vítimas foi esmagada.

No dia seguinte a UEFA foi taxativa: os adeptos ingleses foram os responsáveis pela tragédia. A primeira-ministra britânica, Margaret Tatcher, assumiu igualmente a culpa: “Não há palavras, não há justificações possíveis. A culpa é toda da Inglaterra”. 14 ingleses foram condenados por homicídio involuntário. Mas,18 meses depois, a juíza belga Marina Coppieters repartiu a culpa com as autoridades locais quando apresentou o resultado da investigação.

Um estádio sem condições

O estádio de Heysel Park tinha sido construído nos anos 20 do século passado e a manutenção deixava bastante a desejar. Em 1985 a infraestrutura estava em más condições. Na verdade, a final entre Liverpool e Juventus seria a última partida antes da renovação do estádio. A parede exterior estava em tão mau estado que muitos adeptos abriram buracos ao pontapé para aceder às bancadas. O cascalho acabaria por ser utilizado na batalha entre hooligans e tiffosi.

Bilhética caótica

O presidente da federação belga de futebol, Albert Roosens, foi condenado a seis meses de prisão com pena suspensa, em 1988, por permitir a venda de bilhetes das zonas dos adeptos do Liverpool a apoiantes da Juventus. Havia bilhetes a mais, verdadeiros ou falsos, para a lotação do estádio. 60 mil pessoas conseguiram aceder ao recinto que tinha capacidade para 50 mil. As autoridades belgas estavam ao corrente da situação mas receavam desacatos nas ruas da cidade por isso decidiram que seria preferível deixar entrar toda a gente.

Policiamento insuficiente

A polícia belga não estava preparada para enfrentar o sucedido. Na linha divisória entre as zonas X e Z foram colocados cinco agentes, apesar dos sinais de violência que pairavam no ar. A decisão, controversa, de permitir que o jogo se realizasse apesar da tragédia, foi tomada para dar tempo à polícia belga para reforçar o aparato de segurança em redor do estádio. O oficial encarregado da segurança na zona Z foi condenado anos depois por negligência criminosa.

As consequências

Na sequência da tragédia os clubes ingleses foram banidos das competições europeias durante cinco anos. O Liverpool teve de esperar um ano mais. Quanto aos estádios, foi preciso esperar pela tragédia no estádio de Hillsborough em Sheffield, em 1989, para ver mudanças. 96 adeptos do Liverpool morreram esmagados. A partir de então, os estádios ingleses foram obrigados a ter lugares sentados, a remover as barreiras de segurança entre as bancadas e os estádios e a instalar circuitos de vídeo interno. Após Heysel Park os hooligans, na sua grande maioria, continuaram a ter acesso aos estádios. Foi a partir de 1992, com a criação da Premier League, que as autoridades enfrentaram o problema. A proibição de venda de álcool nos estádios e a subida dos preços dos bilhetes afastou os arruaceiros das bancadas.