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Nicola Sturgeon: Escócia reivindica direito à própria voz na UE

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De  Maria Joao Carvalho  com James Franey, euronews
Nicola Sturgeon: Escócia reivindica direito à própria voz na UE

<p>Nicola Sturgeon, chefe do executivo escocês e líder do Partido Nacionalista na Escócia, depois do resultado eleitoral histórico – 56 dos 59 representantes no Parlamento das “high lands”, mantem-se na ribalta. <br /> Continua a desejar que Edimburgo continue a ter influência em Westminster. E pretende que a nação seja ouvida na UE.</p> <p><strong>euronews</strong> – O primeiro-ministro britânico, David Cameron, está em visita ao Velho Continente europeu. A senhora está em Bruxelas. O que a trouxe? Que espera conseguir? </p> <b>Nicola Sturgeon – No meu discurso no Centro de Política Europeia, argumentei que é bom para o Reino Unido e, em seguida, para a Escócia permanecer na União Europeia. O meu objetivo, num futuro próximo, é o de discutir a questão em referendo e ouvir a voz dos que são favoráveis ​​à permanência do Reino Unido na Europa. Não por ser um mundo perfeito (é também importante para discutir uma reforma da instituição comunitária), mas porque o Reino Unido e a Escócia têm interesses socio-económicos e culturais na União Europeia. Isto leva-me a concluir que é melhor para nós permanecermos na União Europeia, apoiando as reformas a partir de dentro.</b> <p><strong>euronews</strong> – O que pode obter, de forma realista, à luz do facto de que as relações com Bruxelas estão em competência com Westminster?</p> <b>Nicola Sturgeon – Não é nenhum segredo que eu gostaria de ter mais a acrescentar para dizer aos que apoiaram a independência da Escócia no referendo do ano passado, mas não atingiram a meta. Agora, estamos a tentar fazer ouvir a voz da Escócia no Parlamento de Westminster, e também na União Europeia. Neste sentido temos o projeto de lei sobre a descentralização do poder, a desconcentração, que será em breve apresentado no Parlamento. Esta reforma vai ampliar a área de influência do Governo escocês e do seu papel no processo de decisão europeu, no sentido de que podemos colocar as nossas propostas nas decisões que o Reino Unido irá tomar sobre a Europa. <p>Penso que devemos ter um papel muito mais forte no desenvolvimento da posição do Reino Unido, em relação às decisões da União Europeia.</p> <p>Por exemplo, se um ministro do Reino Unido não presidir uma reunião do Conselho, essa tarefa deve poder ser desempenhada por um ministro do governo escocês. Registaram-se situações, no passado, em que os ministros do governo escocês, sobre os assuntos da Pesca, por exemplo, tiveram de permanecer sentados em silêncio, enquanto um mero funcionário presidia à reunião. Está completamente errado</b>. </p> <p><strong>euronews</strong> – Mas quem é membro da União Europeia é o Reino Unido, e não a Escócia.</p> </b>Nicola Sturgeon – Concordo. A questão não é a nossa aspiração à independência, mas a nossa posição atual. A reforma da descentralização visa dar à Escócia, e outras nações no Reino Unido, mais voz e mais influência. E eu quero ver a Escócia aproveitar esta oportunidade, tanto no Reino Unido como no contexto europeu. Devo admitir que, quando cheguei a Bruxelas, encontrei pessoas muito interessadas em ouvir a voz da Escócia.</b> <p><strong>euronews</strong> – Vamos falar sobre os objetivos de David Cameron.<br /> Costuma dizer-se que ele nunca explica o que quer, mas na realidade foi muito claro nos últimos anos. É da opinião que os trabalhadores da União Europeia devem reclamar benefícios laborais por terem vivido no Reino Unido, pelo menos quatro anos? </p> <p><strong>Nicola Sturgeon – Há, na realidade, um processo e temos de estudar o modo como alteramos as regras de acesso aos benefícios e de repressão dos abusos. Mas se tentamos ir mais longe pode minar-se radicalmente a liberdade de circulação, e a situação será muito diferente.</strong> </p> <p><strong>euronews</strong> – Opõe-se?</p> <b>Nicola Sturgeon – Ainda têm de me convencer. Já há normas que regulam as questões da residência, o direito a um período de teste. Há vias para o reforço das regras existentes, e vias para evitar eventuais abusos. Mas neste ponto, temos de ter apoio de outros países. A liberdade de circulação é um princípio fundamental da União Europeia de que também beneficiamos, porque muitas pessoas da Escócia e de outras partes do Reino Unido estão noutros países europeus, para viver e trabalhar. </b> <strong>euronews</strong> – Pensa que devemos remover a referência para a união cada vez mais estreita nos Tratados da UE? <p><strong>Nicola Sturgeon – Mais do que na retórica, é preciso focarmo-nos na substância.</strong></p> <p><strong>euronews</strong> – É o que quer Cameron.</p> <b>Nicola Sturgeon – Bem, eu não concordo com tudo o que Cameron quer. Ele ainda não explicou por que é que o tema é tão crucial. O Reino Unido não está na zona euro, o que eu apoio. Não defendo a entrada de uma Escócia independente na zona euro. Na prática, temos a mesma ideia de não seguir uma estrada de sentido único em termos de União (e unidade) Europeia. Não faz sentido alterar um tratado, quando se subentende o óbvio. David Cameron está a colocar-se em risco ao levantar importantes questões de princípio, que provavelmente não será capaz de levar até ao fim. Vai ser muito mais difícil para ele apresentar os aspectos positivos da adesão à UE.</b> <p><strong>euronews</strong> – Os países que não estão na zona euro devem intervir nas decisões que afetam a moeda única?</p> <b>Nicola Sturgeon – Não está em causa. Inevitavelmente avançamos no sentido de maior liderança dos países da zona euro. Esta é uma das conclusões de parte da posição do Reino Unido. Acredito que, em certa medida, esta é uma das posições do Reino Unido. O que parece é que não quer participar no fabrico do bolo, mas quer comê-lo. Não quer integrar a zona euro, mas quer continuar a influenciar as decisões que a regem. Estas são discussões complexas e os países têm de avaliar e reavaliar os interesses nacionais nesses debates. As pessoas sabem o que quer David Cameron. Mas há falta de precisão nos detalhes que em nada contribuem para um debate positivo.</b> <p><strong>euronews</strong> – Devemos acabar com os abonos de família para os imigrantes que vivem fora do Reino Unido?</p> <b>Nicola Sturgeon – Mais uma vez, este é um exemplo de matéria sensível em relação à qual pode haver abusos, onde deve haver sanções. Há soluções a discutir. Mas penso que a minha diferença filosófica em relação a David Cameron, é que eu defendo a abordagem destas questões através do consenso e colaboração, em vez de fazer o que o governo britânico está a tentar: agir como uma criança birrenta a quem não se dá o brinquedo.</b> <p><strong>euronews</strong> – Pode explicar a proposta da dupla maioria para o referendo sobre a União Europeia?</p> <b>Nicola Sturgeon – É muito simples. O Reino Unido não é um Estado unitário, é um Estado multinacional. Durante o debate sobre a independência da Escócia, foi-nos dito que todas as nações do Reino Unido falariam com igual voz e seriam ouvidas. Agora, espero que seja verdade e os que o disseram tenham sido sinceros. Caso contrário, seria injusto para a Escócia, para o País de Gales ou para a Irlanda do Norte, ter votado a continuação na Europa e a Inglaterra sair só porque tem uma população muito maior e é capaz de garantir sozinha a maioria para a saída da União. Assim, proponho a dupla maioria.</b> <p><strong>euronews</strong> – É democrático?</p> <b>Nicola Sturgeon – Deixe-me terminar de explicar o que é e, em seguida, dizer-lhe porque é absolutamente democrático. A dupla maioria – estes acordos são típicos nos sistemas federais – significaria que o Reino Unido só pode sair se a Inglaterra, o País de Gales, a Irlanda. Norte e a Escócia derem o seu acordo. Só se todos os países membros do Reino Unido disserem sim. É mais democrático do que a possibilidade de um país ficar contra a sua vontade.</b> <p><strong>euronews</strong> – Mas é um referendo sobre a integração britânica, não de países individuais.</p> <b> Nicola Sturgeon – Mas o Reino Unido não é um Estado unitário. Não pode decidir a saída da Escócia, do País de Gales ou a da Irlanda do Norte. mas estes países podem, de repente, ser excluídos contra vontade, com todas as consequências que daí advêm de perda de postos de trabalho, investimento empresarial e também da identidade. Os que defendem isso são os que acusam a proposta de ser antidemocrática.</b> <p><strong>euronews</strong> – Na verdade estariam a vetar, se os outros países quisessem deixar a União.</p> <b> Nicola Sturgeon – Coloquei o caso a debate, durante a campanha para o referendo e deixei claro que a Escócia permaneceria na União Europeia de pleno direito. Não é o que está a acontecer. Temos de reconhecer o carácter não unitário do Reino Unido. É um Estado multi-nacional. Ora, este tipo de Estado deve dar voz a todas as nações que o compõem, deve aceitar compromissos. Seria fundamentalmente antidemocrático para a Escócia encontrar-se fora UE se, num eventual referendo, decidir ficar lá.</b>