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18 de junho de 1815, o dia em que Napoleão tem excesso de confiança

A propósito das comemorações do bicentenário da Batalha de Waterloo, a jornalista Audrey Tilve entrevistou Patrick Maes, presidente da Associação

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18 de junho de 1815, o dia em que Napoleão tem excesso de confiança

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A propósito das comemorações do bicentenário da Batalha de Waterloo, a jornalista Audrey Tilve entrevistou Patrick Maes, presidente da Associação Napoleónica belga.

Audrey Tilve, euronews – Waterloo representa o fim de uma era para Napoleão, que queria reconquistar o império depois de uma série de perdas que o forçaram a retroceder. Porque é que foi imperativo para os britânicos, belgas, holandeses, prussianos, austríacos e russos que Napoleão fosse derrotado em Waterloo?

Patrick Maes, historiador, presidente da Associação Napoleónica belga – “Para os aliados o objetivo foi proteger Bruxelas. Impedir Napoleão de chegar à capital belga. Em junho de 1815, o principal objetivo de Napoleão é estar o mais rápido possível em Bruxelas. Daí as manobras combinadas dos prussianos e dos anglo-holandeses para deter Napoleão no eixo de Bruxelas.”

Audrey Tilve, euronews – Quais serão as consequências geopolíticas de Waterloo?

Patrick Maes, historiador, presidente da Associação Napoleónica belga – “Em França, nomeadamente, haverá reações dos ultrarrealistas, massacres de bonapartistas. Assiste-se à emigração de grandes personagens do império, que partem para os Estados-Unidos para se proteger. O impacto é sobretudo o surgimento de uma quantidade significativa de movimentos nacionalistas, que vão ver a luz do dia ao longo dos anos através da Europa.”

Audrey Tilve, euronews – O que carateriza a própria batalha é a violência, o balanço humano – fala-se de 50 mil mortos e feridos – mas também o facto de reunir três protagonistas verdadeiramente fora do normal. Pode descrever-nos essas personalidades?

Patrick Maes, historiador, presidente da Associação Napoleónica belga – “De um lado está Napoleão, que dispensa apresentações. Diante dele, o primeiro adversário será Blücher, a quem os soldados chamam de ‘Marechal para a frente’. É um guerreiro que tem 73 anos. Enfurecia-se facilmente e detestava tudo o que era francês desde a batalha de Iena, em 1806.”

Audrey Tilve, euronews – E Wellington?

Patrick Maes, historiador, presidente da Associação Napoleónica belga – “Wellington é mais paciente. Espera ter as tropas reunidas, ter uma posição bem defensiva e daí ninguém o demove. Assume uma posição e é um buldogue. Não gosta de fazer manobras, mas para ter uma posição é um campeão.”

Audrey Tilve, euronews – Napoleão aguardava por reforços que não chegaram a não ser depois da batalha. Trata-se do famoso marechal Grouchy, que Napoleão responsabilizará pela derrota, nas suas memórias. É essa a única razão do desastre francês?

Patrick Maes, historiador, presidente da Associação Napoleónica belga – “Não. Foi matematicamente impossível para Grouchy chegar a tempo ao campo de batalha. Napoleão enviou-lhe uma ordem para voltar, que nunca chegará, mas os prussianos têm mais de 12 horas, entre 12 e 15 horas de avanço em relação a Grouchy. Por isso, para ele, é impossível.”

Audrey Tilve, euronews: Quais são as outras razões da derrota?

Patrick Maes, historiador, presidente da Associação Napoleónica belga – “As outras razões da derrota são simples. Napoleão tem excesso de confiança. Conhece Blücher por tê-lo derrotado outras vezes, com algumas exceções em 1813 e 1814. Ele não conhecia Wellington. Os tenentes dele defrontaram-no em Espanha, mas Napoleão nunca combateu Wellington diretamente. O excesso de confiança de Napoleão e o desprezo pelos adversários serão as causas da derrota.”

Audrey Tilve, euronews – Suponhamos que Napoleão tivesse ganho esta batalha. Depois disso teria alguma hipótese de superar os Aliados?

Patrick Maes, historiador, presidente da Associação Napoleónica belga – “Não. Nenhuma. A 13 de março de 1815, em Viena, foi considerado um inimigo da Europa. Declara-se a guerra a Napoleão e não a França. O exércitos de elite, com o rei da Prússia, o imperador da Rússia, o imperador da Áustria, vão marchar por França a meio de julho. Mais de um milhão de homens prepara-se para desfilar por França. Os Aliados iriam até ao fim, até que Napoleão se ajoelhe e seja capturado.”