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Saakashvili: "Odessa tem de resistir"

Mikheil Saakashvili foi nomeado governador da região ucraniana de Odessa. O combate à corrupção é a grande tarefa que o antigo presidente da Geórgia tem em mãos.

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Saakashvili: "Odessa tem de resistir"

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Mikheil Saakashvili foi nomeado governador da região ucraniana de Odessa, em fevereiro. O combate à corrupção é a grande tarefa que o antigo presidente da Geórgia tem em mãos. O político é também apontado como potencial candidato a chefia do governo da Ucrânia. A euronews entrevistou-o em Odessa, a estratégica cidade portuária nas margens do Mar Negro.

Point of view

A maior parte do contrabando é feito pelos serviços secretos da Ucrânia. O tráfico de droga na cidade é controlado pela polícia.

Sergio Cantone, euronews: Muitas pessoas na Ucrânia perguntam porque é que foi nomeado governador de Odessa quando há tanto para fazer em Kiev no combate à corrupção?

Mikheil Saakashvili: “Odessa é extraordinariamente importante para a Ucrânia do ponto de vista estratégico, mas, infelizmente, é igualmente importante para o país que invadiu a Ucrânia: a Rússia.

O problema aqui é que a visão de Putin sobre o seu projeto – a “Nova Rússia” – inclui Odessa como pedra angular. Portanto, primeiro temos de proteger Odessa e assegurar que resiste, que não irá cair. Porque, se esta região cair, penso que então a Ucrânia estará em grandes problemas e toda a região poderá ser perdida, não toda a Ucrânia, mas todo o Mar Negro, o Cáucaso. É por isso que temos de proteger Odessa e a forma de a salvaguardar é também através do seu desenvolvimento. Temos muito que fazer”.

Há dois problemas na região. Um é que existem muitos pró-russos. O outro problema, gigantesco, é a corrupção e o crime ligados à atividade do porto. Quais são os seus planos para combater estes problemas que por vezes podem estar ou estão mesmo interligados?

“Não acho que Odessa seja pró-russa. Penso que a verdade é que falam russo e têm uma herança cultural russa. Isto é verdade, mas não é uma fraqueza, é muito bom. Odessa é uma grande marca internacional. É também muito importante tanto para a cultura ucraniana como para a russa. É historicamente importante e penso que isso é algo que devíamos capitalizar.

Em relação à corrupção, sim, temos um problema sério. O porto, a alfândega que temos aqui, é um dos maiores entrepostos do Mar Negro e, basicamente, é o maior porto da Ucrânia. É também um dos principais centros para todo o tipo de contrabando e tráfico. Estimamos que, anualmente, algo entre 500 milhões e 1000 milhões de euros sejam desviados dos cofres do Estado. O mesmo é dizer que são roubados por responsáveis corruptos, por agentes aduaneiros, pelas autoridades policiais e, claro, também pelo crime organizado”.

É verdade que alguns elementos do regime dos oligarcas estão a ser despedidos. Mas, também é verdade que, por exemplo, o antigo chefe do SBU, os serviços secretos da Ucrânia, Nalyvaichenko, foi despedido. Muitos ucranianos não percebem porquê, porque pensam que ele estava a fazer um ótimo trabalho e temem que tenha sido despedido pelas razões erradas.

“Olhe, o Nalyvaichenko disse-me: “Vou mandar-te uma equipa do SBU para reforçar o combate à corrupção na alfândega”. Posso dizer-lhe, como disse publicamente, que não quero cá esse grupo, porque mais presença do SBU significa mais corrupção. O problema é esse, é que, até agora, a maior parte do contrabando não é sequer feito pelos agentes aduaneiros ou por contrabandistas, é feito pelos serviços secretos da Ucrânia, é feito por elementos do Ministério Público, o tráfico de droga na cidade é controlado pela polícia. Portanto, as autoridades não são a solução, neste momento são elas o problema”.

Para combater o crime é fundamental ter um serviço de segurança robusto, mas não confia nos serviços secretos da Ucrânia…

“Neste momento, há um grande problema de confiança. No entanto, vamos ter uma nova polícia de patrulha em Odessa, que será quase totalmente constituída por elementos novos, que estão a ser recrutados e formados do zero e que vão receber salários dignos.

Temos um novo chefe da polícia e pedimos para que se acabe com o contrabando a partir da Transnístria. Isso é muito importante porque a maioria dos criminosos e do contrabando vem neste momento da Transnístria e a região não é controlada pela Moldávia, é um buraco negro da Europa.

Estamos a recrutar novos elementos para a polícia e vamos garantir que recebem salários dignos. Mas também estamos a recrutar gente para a alfândega e para os impostos. Temos de lhes pagar melhor. Há muitos voluntários na Ucrânia. Este local tem um potencial extraordinário”.

Mencionou os grupos que controlam esta área, esta parte da Ucrânia, a região de Odessa. Pensa que há uma relação direta entre a Transnístria, estes grupos e Moscovo?

“Sem dúvida que o grande potencial para a intrusão russa é a corrupção e as atividades ilegais. É basicamente o que Putin chama de “mundo russo”, o seu verdadeiro poder de persuasão é a corrupção e os laços entre criminosos.

De facto, a maioria dos gangues, a maioria dos elementos do crime organizado que conhecemos, muitos deles até podem vir da Geórgia, é verdade, mas sempre tiveram laços com a máfia russa e com as autoridades de Moscovo. Isso é sabido e está bem documentado”.

Referiu a importância, como um valor cultural, da população russófona desta região. Mas, não pensa que o governo de Kiev cometeu alguns erros e alienou o consenso da comunidade russófona da Ucrânia no seu todo e também aqui, em Odessa?

“É claro que sim, especialmente no rescaldo de Maidan foram cometidos alguns erros. Mas, penso que isso agora está a mudar, porque as pessoas têm perfeita consciência que este país não tem que ver com uma etnia ou com apenas uma língua. Há uma língua oficial, há uma identidade clara, mas essa identidade baseia-se no multiculturalismo e assenta em pessoas que falam diferentes línguas”.

Pode dizer-se que foi isso que tentou fazer em Tbilissi, na Geórgia, no seu país. Mas, depois as coisas não correram bem…

“As coisas não correram mal. Estou muito orgulhoso do que consegui na Geórgia. As instituições são hoje das mais fortes entre as antigas repúblicas soviéticas. Verdadeiramente, a Geórgia construiu novas cidades, construiu uma nova paisagem. Os turistas foram multiplicados por 60, 60 vezes mais turistas no meu mandato. Foi por isso que fui convidado para Odessa… e se o presidente da Geórgia não gosta de mim…”

Porquê. Qual é o problema com ele?

“Foi o governo que mudou e alguns elementos são realmente vingativos ou simplesmente cruéis. Mas isso não muda a realidade: a Geórgia ainda é dos países com as instituições menos corruptas na Europa de Leste. É um dos lugares mais seguros, apesar dos problemas endémicos da região. E também ainda é um sítio aonde as pessoas querem ir, onde querem investir e penso que foi a minha equipa que criou isso. Mas, lá está, as equipas mudam, os governos mudam, mas a principal forma de medir o sucesso das reformas é ver se as instituições sobrevivem aos seus criadores e esse é seguramente o caso com a Geórgia”.

Dizem que quer tornar-se primeiro-ministro da Ucrânia. Yatsenyuk tem razões para ter medo de si?

“Sabe, há muita especulação sobre isso e estou consciente disso. Mas, essa é a natureza da política. Uma coisa boa é que tenho um verdadeiro trabalho neste momento, estou totalmente concentrado nele e adoro o que estou a fazer, porque é um enorme desafio. Adoro os desafios e quanto mais difícil, mais entusiasmado fico. Tenho um número enorme de objetivos para alcançar e tenho a certeza que isso me vai manter ocupado durante um longo período.

Tenho esperança que, dentro de algum tempo, vamos dar conta de progressos reais no terreno, aqui, em Odessa. Obviamente, quero trabalhar com o governo em Kiev e se não houver progressos significativos, também no apoio que o governo central dá a estas reformas, será impossível mudar verdadeiramente as coisas. Vamos trabalhar em conjunto. Seguramente que vamos trabalhar em conjunto deste ponto de vista”.