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"Queria morrer, mas a morte não vinha": Relatos do regime de Hissène Habré

Há 25 anos que esperavam este momento. As vítimas do regime de Hissène Habré vão reclamar justiça num processo histórico contra o ex-ditador do Chade.

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"Queria morrer, mas a morte não vinha": Relatos do regime de Hissène Habré

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Um dos capítulos mais sombrios da história do Chade esconde-se num bairro situado nos arredores da capital, N’Djamena. Aqui foi encontrada uma vala comum que remonta à época em que Hissène Habré ocupava a presidência do país, entre 1982 e 1990.

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Debaixo dos meus pés, debaixo da areia, há ossos. Eram os meus amigos. Enterrei-os com as minhas próprias mãos.

“Estamos em Hamral Gouz. As pessoas daqui chamam a este local ‘a planície dos mortos’. Debaixo dos meus pés, debaixo da areia, há ossos. Eram os meus amigos. Enterrei-os com as minhas próprias mãos.” Clément Abaifouta esteve 4 anos preso durante a ditadura. Foi forçado a abrir as covas para sepultar os detidos que morriam de fome ou das torturas infligidas.

“Eu estou à espera que contem a verdade. Que digam quem fez o quê a mando de Hissène Habré. E porquê. E depois castigar os responsáveis. Só quando os castigarem, é que as vítimas poderão ter paz”, afirma.

“Eu queria morrer, mas a morte não vinha”

Cerca de 40 mil mortos, dezenas de milhares de desaparecidos, incontáveis vítimas de tortura – é o trágico balanço feito pela comissão de inquérito criada após a queda do ditador.

Hissène Habré vai ser julgado por tortura, crimes contra a Humanidade e crimes de guerra. O início do processo, que recebe o apoio da União Europeia, está marcado para o final deste mês. Irá decorrer em Dacar, no Senegal.

Clément Abaifouta dirige a principal associação de vítimas do regime. Ele será uma das testemunhas no processo, tal como Ginette Ngarbaye, depoimentos essenciais para recuar até ao clima de terror que se vivia na altura.

“Ele começou a tocar-me no peito, em todo o lado. Eu disse-lhe que estava grávida. Eu tive o bebé em condições muito complicadas. Dormíamos no chão. Havia pulgas, vermes, insetos. O bebé chorava, eu chorava, os outros choravam. Passávamos o tempo a chorar. Eu queria morrer. Mas a morte não vinha”, conta Ginette.

Outra mulher, Fatime Sakine, faz o seguinte relato: “Batiam-me com matracas, davam-me choques elétricos… Fizeram-me todo o tipo de tortura. Todos os dias morriam 2, 3, 4, 5 pessoas… Eles não mandavam nenhum cadáver para a morgue. Ficavam ao lado dos vivos. Nos calabouços, dormíamos ao lado dos cadáveres.”

“Não podíamos falar com ninguém. Eles assediavam-nos todos os dias. Acusavam as pessoas a torto e a direito, sem qualquer motivo. Não se podia confiar em ninguém, a não ser que fôssemos colaboradores. Não havia saída. Não podíamos revelar nada, nem à nossa mulher. A qualquer momento, eles podiam chegar e levar-nos. Semeavam o medo entre todos”, revela Ahmad Bechir, outro sobrevivente.

Uma lição para África

Mais de 4 mil vítimas do regime de Hissène Habré decidiram participar no processo. Cerca de uma centena aceitou testemunhar em tribunal. O dossiê da acusação conta ainda com milhares de documentos descobertos em 2002 por Reed Brody, conselheiro jurídico da Human Rights Watch.

Brody encontrou os arquivos abandonados pela DDS, a polícia política do regime. Para o homem que já foi apelidado de “caçador de ditadores”, o processo de Dacar vai fazer história. “Pela primeira vez na história, temos a justiça de um país, o Senegal, a acusar o antigo líder doutro país, o Chade, por supostos crimes contra a Humanidade. É a primeira vez que a União Africana cria um tribunal. É a primeira vez em África, e noutros lados também, que os tribunais de um país vão julgar crimes cometidos noutro país. E tudo isto é possível graças a 25 anos de mobilização das vítimas de Hissène Habré, que nunca desistiram. Através da persistência e da perseverança, mostraram que o povo pode levar um ditador a ser julgado”, considera.

Há mais de duas décadas que a advogada chadiana Jacqueline Moudeina trava este combate. Já foi vítima de um atentado que quase lhe custou a vida em 2001. Sofre ameaças constantes. Mas nada a faz recuar contra Hissène Habré. Foi mesmo uma das responsáveis pela condenação de 20 antigos membros da polícia do regime por um tribunal do Chade.

Segundo ela, “conseguir levar Hissène Habré a julgamento, levar os seus cúmplices a julgamento, significa que todos os povos de África também podem dizer: ‘podemos ter a coragem de reclamar justiça, de pedir contas aos que nos fizeram mal, aos que violaram os nossos direitos’. Essa é a grande lição que este processo dá a África. Ao Chade e a toda a África. É uma lição – a possibilidade de lutar contra a impunidade.”

E a possibilidade também de reconciliar os muçulmanos do norte do Chade com os cristãos e animistas do sul, comunidades que a ditadura dividiu.

Hissène Habré assumiu o poder em 1982, após um golpe de Estado. Face à resistência de grupos armados apoiados pela Líbia de Mouammar Khadafi, Habré lançou um combate sem tréguas, com a ajuda da França e dos Estados Unidos. A luta degenerou na perseguição a todos aqueles que eram vistos como uma ameaça ao regime, tanto no norte como no sul do país.

Josue Doumassen vive atormentado com o que passou na prisão. Os desenhos que faz constam no relatório da comissão de inquérito chadiana.

“De cada vez que desenho, sinto as dores de novo. Mas faço-o para que fique registado na história. A dor vai permanecer nos corações ainda durante muito tempo. O regime atual é bom, as pessoas podem falar umas com as outras. Mas as marcas continuam lá. Ele semeou a divisão e agora tem de responder pelos seus atos”, declara.

Fatime Mando também esteve encarcerada. Quando saiu, descobriu que quase todos os habitantes do seu bairro tinham sido massacrados. O regime deixou 80 mil órfãos. O marido de Fatime foi morto a tiro em frente aos filhos.

“Quando andamos na rua e vemos as crianças, os que ficaram… Os netos, os bisnetos… São todos vítimas. Todos estão marcados pelo desaparecimento dos pais. Sempre que os meus filhos ficam doentes, penso no Hissène Habré. Foi ele quem me deixou sozinha com as crianças. Eles eram pequenos ainda. Eu era jovem. Criei-os sozinha. É verdade, é uma dor que tenho. Antes de se falar neste julgamento, sentia muito ódio. Agora sinto-me um pouco mais tranquila”, desabafa Fatime.

Vídeo da Human Rights Watch sobre o processo de Hissène Habré: