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Tanta gente a morrer à fome e o Kremlin a destruir comida.

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Tanta gente a morrer à fome e o Kremlin a destruir comida.

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O título desta peça reflete o espírito que se vive na Rússia no primeiro aniversário do embargo imposto por Moscovo a produtos alimentares europeus e norte-americanos como represália às sanções ocidentais.

Toneladas de queijo, fruta, peixe e outros alimentos começaram esta quinta-feira a ser destruídos e o Kremlin anunciou o prolongamento do embargo por mais um ano.

Esta nova política de destruir a comida – até agora os produtos eram devolvidos aos países de origem – está a gerar um coro de críticas num país em que a pobreza cresce a um ritmo galopante e onde ninguém esqueceu a penúria e a fome durante parte da era soviética.

Nas ruas de Moscovo, só defende a medida quem acredita em teorias da conspiração e crê que os produtos ocidentais possam ter sido maliciosamente alterados.

Até os aliados tradicionais do Kremlin estão chocados com a decisão de destruir comida. Um padre ortodoxo classificou a campanha como um pecado, uma loucura.

Uma professora de Ciência Política na academia presidencial russa, explica que “cada pessoa que nasceu e vive no contexto cultural russo compreende que há um tabu primordial na cultura, que proíbe deitar fora comida. Às crianças foi sempre dito que só os fascistas é que deitavam fora o pão e que é proibido até deitar fora as côdeas “. Ekaterina Shulman acrescenta que “consecutivamente, várias gerações viveram em condições de total escassez de alimentos ou pelo menos de penúria de alguns bens alimentares” e que, por isso, há uma cultura de considerar a “comida como um tesouro precioso”.

Mais de 267 mil pessoas já assinaram uma petição que pede ao presidente Putin para revogar a decisão e entregar a comida a quem necessita, em vez de a destruir.

Na Rússia, os preços dos alimentos subiram mais de 20% no último ano, desde que o Kremlin impôs o embargo aos alimentos como represália das sanções impostas pelo ocidente a Moscovo por causa da crise na Ucrânia.

Mas, mais dos que os agricultores ocidentais, quem está a pagar o preço das guerras dos poderosos é o povo russo.

As estatísticas oficiais (Rosstat) não deixam dúvidas: no primeiro trimestre, 22,9 milhões de pessoas viviam abaixo do limiar da pobreza na Rússia, o equivalente a 16% da população. Um aumento de 2,1 milhões em relação ao mesmo período de 2014 e mais 7,5 milhões de pessoas na miséria do que em 2012, há apenas três anos.