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Reverendo Jesse Jackson: "Depois do Irão e Cuba, os Estados Unidos devem aproximar-se da Venezuela"


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Reverendo Jesse Jackson: "Depois do Irão e Cuba, os Estados Unidos devem aproximar-se da Venezuela"

O reverendo norte-americano, Jesse Jackson, consagrou toda a vida aos direitos civis nos Estados Unidos e fez algumas incursões na diplomacia.

A euronews encontrou-o por ocasião da sua última visita ao Reino Unido, durante a qual fez uma conferência na feira Internacional do Livro de Edimburgo e recebeu uma condecoração Honoris Causa pela universidade da cidade.

euronews: Estou na companhia do reverendo Jesse Jackson. Obrigada por estar conosco.
Líder dos direitos civis, sacerdote, jornalista e “cidadão do mundo” – são apenas alguns dos títulos que lhe são atribuídos. Também é conhecido por atividades de política externa e recentemente encontrou-se com Julien Assange. O que esperava conseguir com este encontro?

Jesse Jackson: “Queria ouvi-lo. Li muitos dos trabalhos dele e houve um grande número de cidadãos americanos e britânicos que protestaram contra a guerra no Iraque e se, de alguma forma, a exposição dos governos envolvidos foi muito embaraçosa, só posso dizer que a liberdade de imprensa é importante e a detenção sem culpa formada está errada. Espero que esta questão possa ser resolvida de forma justa, rapidamente”.

e: Queria agora passar para uma questão que tem provocado tensões tanto nos Estados Unidos como na Europa, que é a imigração. Na Europa fala-se de crise de migração com as pessoas que atravessam o Mediterrâneo. Nos Estados Unidos, o presidente Obama está a tentar introduzir uma amnistia para cinco milhões de imigrantes ilegais. Acha que há alguma coisa que a Europa e os Estados Unidos possam fazer para resolver esta situação?

J. J: “Bom, a Europa e os Estados Unidos são os países ricos, mas muita desta riqueza provém dos recursos dos países pobres. Temos enormes discrepâncias ao nível de rendimentos, de saúde, de educação e as pessoas dos países pobres, desesperadas, querem vir para onde estão os recursos. Por isso, ou cronstruímos uma ponte para os desenvolver ou continuamos a contenção e o confronto. Espero que sejamos humanos neste processo. A imigração na América e a migração na Europa é fundamentalmente a mesma e aumenta com as desigualdades. As pessoas não estão a deixar os seus países em grande número só porque querem. Estão com fome e os seus direitos não são respeitados”.

Virar uma página da História

e: Passando à política externa. O senhor ficou conhecido por ter visitado Cuba no passado. Agora que vê as estrelas e as riscas vermelho e branco da bandeira flutuarem sobre a embaixada americana em Havana, como é que se sente?

J.J: “Sinto-me muito bem. É tão bom termos feito isto. Há um certo fascínio por Cuba porque em 1959, veja isto, os afro-americanos, os latino-americanos não podiam votar, não tinham os Direitos Humanos mais básicos e toda a América Latina estava sob ocupação. Toda a África até à África do Sul estava sob ocupação colonial e todas estas nações se inspiraram da sobrevivência de Cuba. Nós agora completámos o círculo e a relação americo-cubana é uma coisa boa. Espero também que o acordo multilateral com o Irão se confirme e seja um sucesso e que a Venezuela seja o próximo. Temos que optar pela paz em vez da guerra. É o melhor e é menos dispendioso que a guerra”.

e: Ainda bem que falou nos Direitos Humanos porque essa é ainda uma matéria de contencioso nas relações entre os Estados Unidos e Cuba. Há gente que ainda não está satisfeita com a situação em Cuba. O que diz sobre isto?

J.J: “Alguns também não estão satisfeitos com a situação dos Direitos Humanos na América. Afinal, nós somos 5% da população mundial e temos 25% da população prisional do mundo. Temos os nossos desafios nessa matéria e espero que agora que há comunicação possamos trabalhar juntos. Não estamos em posição de impôr a Cuba o que não aplicamos nós mesmos”.

Esperança e receios

e: Agora estas coisas estão a ser tratadas pela administração do presidente Obama. Acha que ele está a acelerar algumas questões que deveria ter tratado antes?

J.J: “Acho que há um fator de medo no reconhecimento de Cuba e que se ele tivesse feito isto há cinco anos, não ter sido reeleito, mas agora as pessoas sentem que está na altura e que isto devia ser feito. E o mesmo acontece com o Irão. Há muitos receios em integrar o Irão, mas mais ainda em deixar o Irão fora de controlo. Por isso há líderes políticos e militares que estão a apoiar estas medidas e outros que as rejeitam. Penso que ele vai ter que enfrentar a oposição para se aproximar de uma boa relação comercial com o Irão e a seguir virar-se para a Venezuela, digo a Venezuela porque é no nosso hemisfério e devemos ter paz no nosso hemisfério”.

e: Mencionou a Venezuela… há questões internas de protestos contra o governo e repressões que têm vindo a eclodir no país.Pensa que há também um problema de Direitos Humanos na Venezuela?

J.J: “Há, mas é melhor falar dos Direitos Humanos do que tentar isolar os países. Também há problemas de Direitos Humanos na China e nós temos relações comerciais e diplomáticas. Chegámos a um momento em que é melhor falar sobre as questões dos Direitos Humanos do que reptir esquemas de isolamento. O muro entre o Leste e o Ocidente não funcionou na Alemanha. Não participar nos Jogos Olímpicos na Rússia, não funcionou, mas o diálogo funciona”.

Reduzir as desigualdades

e: Vamos passar da política externa para as questões internas dos Estados Unidos. Este tem sido um período muito intenso nas relações raciais. O senhor disse recentemente que a brutalidade da polícia é uma questão de classe e não apenas de raça. Pode explicar-nos isso?

J.J: “Em 1865, após 246 anos de escravatura, os africanos foram libertados. Depois houve uma reação e, durante 70 anos, 4.200 afro-americanos foram linchados em reação ao progresso. Tivémos 50 anos de problemas em reação ao progresso. Isto chega com estes assassinatos e detenções e no final vamos ganhar. Nós passámos da negação do nosso direito de voto, à eleição de um presidente afro-americano. Vamos de poucas expetativas até expetativas ilimitadas – os direitos dos trabalhadores, das mulheres das crianças. Todos estes direitos estão a ser atacados, mas existe uma guerra pela alma da América e pela alma da Europa e as pessoas que querem lutar pela justiça têm que ser corredores de fundo, não podem desisitir, devem agarrar-se à esperança. Numa competição entre a esperança e o medo, a esperança e a coragem devem prevalecer”.

e: Gostaria de colocar-lhe uma última questão. Vamos ter eleição presidencial no próximo ano.

J.J: “Sabia que me ia falar disso”.

e: Qual pensa que será o grande desafio desta eleição presidencial e quem será a melhor pessoa para enfrentá-lo?

J.J: “Os ricos estão cada vez mais ricos, os pobres cada vez mais pobres e a classe média está a afundar-se. Por isso, de um lado teremos um Donald Trump que vai tentar explorar alguns medos e, do outro, um Bernie Sanders que vai acenar com a esperança. Não podemos descansar enquanto não houver um compromisso para uma grande e única América, onde ninguém seja excluído”.

e: Falou da esperança democrática em Bernie Sanders, que é um amigo seu. Está a dizer-nos que é a nomeação que vai apoiar?

J.J: Não.” É prematuro tirar essa ilação. A Hilary vai fazer uma campanha formidável. Até agora, ela lidera todas as sondagens. Ela tem todos os requisitos e qualificações para se tornar na próxima presidente e, por enquanto, está à frente”.

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