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Refugiados sírios, a primeira etapa da fuga: A fronteira com a Turquia


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Refugiados sírios, a primeira etapa da fuga: A fronteira com a Turquia

 

Cruzar a fronteira da Síria para a Turquia é a primeira parte da arriscada migração de milhares de pessoas em fuga da guerra e da perseguição por "jihadistas". Descubra os perigos desta primeira etapa e fique a saber o que pensam algumas pessoas que, na Turquia, vivem por dentro este problema

Uma família turca a viver na pequena vila de Karkamis, colados à fronteira com a Síria, no chamado “nível zero” da raia, revela o medo que sente da proximidade, por exemplo, do autoproclamado grupo Estado Islâmico (ISIL, na sigla inglesa). A cerca de um quilómetro da família de Ali Yilmaz situa-se Jarabulus, uma vila síria já há dois anos sob controlo dos “jihadistas” e agora isolado dos vizinhos turcos por um perigoso campo de minas armadilhado, alegadamente, pelo ISIL.

A fronteira entre a Turquia e a Síria estende-se por cerca de 950 quilómetros. Não existem barreiras naturais como rios ou montanhas. Há apenas a linha imaginária definida pelos dois países no final da Primeira Guerra Mundial. Na altura, houve famílias separadas, mas sem que a raia imaginária cortasse ao longo de quase um século os laços entre os familiares divididos pela geografia.

Jarabulus e Karkamis estão agora, porém, isoladas uma da outra. À vista uma da outra, a guerra civil na Síria impôs o corte da ligação direta entre os habitantes destas duas vilas. Para estabelecer de carro a ligação direta de quase um quilómetro, agora é preciso percorrer mais de 200 quilómetros.

A pé, desde Jarabulus, Karkamis é logo ali, mas há armadilhas mortais escondidas. O perigo obriga os que fogem da guerra na Síria a procurar outros pontos para entrar na Turquia, a primeira fronteira das muitas que os refugiados sírios terão pela frente até chegar ao ambicionado “el dorado” europeu. Depois da Turquia, segue-se o Mediterrâneo, rumo à Grécia, depois a Macedónia, a Sérvia e a Hungria.

A família de Ali Yilmaz vive junto à fronteira, no lado turco. A casa onde habitam já acolheu dezenas de refugiados sírios. “Nós somos afetados de forma direta pelos acontecimentos na Síria. Os que fogem são seres humanos. São pessoas exatamente como nós. Fogem com os filhos da crueldade do regime sírio. Têm medo dos soldados na fronteira e quando arriscam atravessar o arame farpado, as roupas rasgam-se, perdem os sapatos”, conta Ali Ylmaz ao enviado especial da euronews a Karkamis, Bora Bayraktar.

Desde casa, os Yilmaz ouvem tiros e bombas a explodir. Por estes dias, contudo, as detonações têm sido menos frequente, mas há cerca de duas semanas uma explosão estilhaçou as janelas da casa. “Já há dois anos que temos o grupo Estado Islâmico como vizinhos. Eles colocaram minas aqui próximo de nós e, desde aí, as pessoas não têm vindo por aqui. Têm medo. Por vezes, os cães vão para aqueles lados e acabam por fazer as minas explodir. É por isso que agora é raro as pessoas virem por aqui. Antigamente, eram cerca de 300 a 500 pessoas, por dia, a passar a fronteira aqui. Às vezes, chegavam a ser 1000”, lembra Ali Yilmaz.

Ali vive com a mulher, a mãe e os quatro filhos. Todos confessam sentir medo. O mesmo medo que sentiriam se vivessem no lado sírio da fronteira. “É muito difícil. Muitos vêm para aqui e as nossas casas já estiveram cheias de pessoas. Depois do grupo estado Islâmico ter colocado minas nesta zona, as pessoas pararam de vir. Quando as minas explodem, sentimos medo. Os meus netos têm muito medo”, lamenta a mãe de Ali.

A avó conta que a ajuda que proporcionam às pessoas em fuga da Síria, por Karkamis, passa por abrir-lhes as portas de casa. “Aos que chegavam sem sapatos nem roupa, nós dávamos-lhes o que tínhamos. Tentávamos dar uma grande ajuda a estas pessoas”, garante a anciã.

Bora Bayraktar percebeu que “a vida é dura no chamado ‘nível zero’ da fronteira entre a Turquia e a Síria”. “Embora o número de pessoas a entrar na Turquia tenha diminuído, esta migração não parou. O som dos tiros e das bombas próximo de Jarabulus continua a ameaçar e a preocupar as pessoas que vivem em Karkamis”, concluiu o nosso enviado especial a um dos muitos pontos de fuga de refugiados sírios, a caminho de uma vida melhor e em segurança no centro ou no norte da Europa.

Sírios aumentam 33 por cento na Turquia

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR ou UNHCR, na sigla inglesa) estimava que houvessem, em setembro do ano passado, cerca de 1,35 milhões de sírios na Turquia, dos quais 847.226 estariam registados neste país vizinho como refugiados.

Num recente comunicado divulgado esta semana, o mesmo organismo da ONU estima haver mais de 4 milhões de refugiados sírios registados em países vizinhos como a Jordânia (630 mil), o Líbano (1,11 milhões , o Iraque (250 mil) ou o Egito 132 mil). Só na Turquia já estarão quase 2 milhões de refugiados sírios, o que reflete um aumento na ordem dos 33 por cento apenas no espaço de um ano. Muitos deles, estarão em rota para o centro e o norte da União Europeia.

1800 km na Turquia e 1000 euros por um “bilhete” para a Grécia

Porque estarão os sírios a fugir para a Europa? O que tornará o ocidente europeu tão atrativo para estes refugiados? Como estão estas pessoas desesperadas a viajar e porque é que não ficam na Turquia? Para perceber um pouco melhor esta questão falámos com Ahmed El Cabir e com Mahdi Davud.

Antigo oficial do Exercito Livre da Síria, a principal oposição armada do regime do Presidente Bashar Al-Assad, depois de o ISIL ter tomado Jarabulus, Ahmed El Cabir fugiu para a Turquia. Este antigo militar apela aos compatriotas para ficarem na Turquia.

“As pessoas fugiram por causa da guerra na Síria e do grupo Estado Islâmico, mas também do regime de Bashar al-Assad e dos barris de petróleo que ele faz explodir. A guerra dele foi conduzida contra o povo sírio e contra as crianças. Não foi contra os rebeldes”, acusa El Cabir.

Com a família já na Alemanha, o antigo militar sírio defende que “as pessoas vão para a Europa cheias de ilusões de que a vida na Europa é bela”. Para El Cabir, no entanto, “a Turquia é realmente o lugar mais apropriado para estes refugiados, não é a Europa”. “O melhor país a receber de braços abertos os refugiados é a Turquia. O país colocou tudo à disposição: alimentação, medicamentos, hospitais. O povo turco acolheu o povo sírio. Esperamos que as pessoas que partiram decidam voltar para a Turquia”, desejou o antigo combatente de Bashar al-Assad.

(“O que significam para os refugiados rotas seguras e regulamentadas e o que deve a Europa fazer para tornar os refugiados bem-vindos?”)

Mahdi Davud, por sua vez, é presidente da Associação Syrian Nour, uma organização sem fins lucrativos que apoia e dá assistência aos refugiados sírios na Turquia. Perguntamos-lhe as razões pelas quais os sírios continuam a arriscar a vida rumo à Europa.

Davud começa por lembrar que “esta migração de refugiados começou já há quatro anos”. “Muitas pessoas tentam vir para a Turquia ou ir para a Europa em grupos. Recentemente, a migração para a Europa ganhou mais força porque as pessoas estão desesperadas. Elas perderam a esperança porque as potências internacionais não lhes mostraram a luz do fim da guerra”, considera o responsável da ONG, acrescentando que agora “muitos pensam que a luz mais brilhante para o futuro deles é a Europa.”

(“Milhares de sírios sentam-se nas ruas com os coletes de salvação em sacos à espera de partir para as cidades costeiras para embarcar para a Grécia.”)

Outra razão a reforçar a migração rumo à União Europeia é que “ir para a Grécia também ficou mais barato”. “Antigamente, conseguir uma viagem para a Grécia poderia custar 10 ou 12 mil euros. Agora, anda à volta dos 1000 dólares — cerca de 900 euros. Atualmente, por uma pequena soma de dinheiro, as pessoas podem cruzar o mar para o outro lado, para a União Europeia”, sublinha.

Davud explica-nos que “as rotas (da migração) são determinadas pelos traficantes de pessoas” e que os “contrabandistas estão a prolongar os caminhos para conseguirem mais dinheiros dos migrantes, em especial dos que são oriundos da Síria porque não conhecem a Turquia”.

“Por exemplo, um grupo que queira ir para Bodrum ou para Antalya, no sudoeste da Turquia, depois de entrarem no país por Antakya, no sul, os traficantes levam-nos para Istambul, no norte. Dali regressam a Bodrum ou Antalya, no sudoeste. São cerca de 1800 quilómetros de carro. Ao fazerem isto, os traficantes tentam convencer os refugiados do difícil que é fazer a viagem e procuram inflacionar os preços (da viagem)”, concretiza o ativista humanitário.

(“Milhares de pessoas em Izmir (ocidente da Turquia) à espera de partir para as ilhas gregas. Já não é feito em segredo, milhares partem todos os dias”)

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