Última hora

Última hora

Polónia: Pouca "solidarność" para com os refugiados

Por que razão está o país do "Solidariedade" tão relutante em acolher refugiados? A reportagem de Valerie Zabriskie.

Em leitura:

Polónia: Pouca "solidarność" para com os refugiados

Tamanho do texto Aa Aa

Muçulmanos num país católico

Point of view

O cidadão médio, na Polónia ou na Hungria, não se considera um europeu rico com a obrigação de ajudar o resto do mundo. Considera-se uma vítima do comunismo, a quem o mundo continua a dever alguma coisa.

São poucos, mas o lugar que ocupam na história da Polónia é grande e rico. São os tártaros polacos, de religião muçulmana. Nesta mesquita do século XVIII no nordeste do país, o imã Janusz Aleksandrowicz faz mais uma oração.

Esta mesquita é um símbolo de orgulho para os cerca de 6000 tártaros do país: “Vivemos aqui há mais de 600 anos e há 300 que estamos nesta terra, Kruszyniany. O meu sangue está misturado com o sangue polaco, porque os primeiros tártaros a chegar cá foram os soldados, que fundaram famílias com jovens polacas. Nós, os tártaros, estamos numa situação particular”, diz o clérigo.

Vista como um modelo de assimilação, a comunidade de tártaros está hoje preocupada que a atual crise dos refugiados na Europa abale as fundações desta integração que existe há séculos.

Dżenneta Bogdanowicz é a dona de um restaurante que serve comida típica tártara. Habitualmente é muito faladora, mas quando a nossa equipa de reportagem chegou, mostrou alguma relutância em falar. Isto porque a família foi, recentemente, alvo de ameaças: “Os tártaros assimilaram-se rapidamente à população local, adaptaram-se às condições de vida e à religião dominante. Somos muçulmanos, vamos à mesquita, sempre fomos. Nunca incomodámos ninguém, porque isso é uma coisa nossa, não somos ostensivos em relação à religião”, explica.

Na Polónia, como em toda a União Europeia, a crise os refugiados criou tensões e um debate aceso sobre se os países da União devem aceitar refugiados e quantos cada Estado membro deve poder receber.

Mesmo se no país houve manifestações tanto a favor como contra o acolhimento de migrantes, a verdade é que dois terços da população não quer que o país receba refugiados nem imigrantes. É uma opinião que tem ainda mais força na Hungria, República Checa e Eslováquia, todos antigos membros do Pacto de Varsóvia.

Porquê a Polónia? O país é um dos mais estáveis na Europa e, além disso, é o berço do Solidariedade.

Konstanty Gebert juntou-se ao sindicato liderado por Lech Wałęsa em 1980. Hoje é jornalista e um membro ativo da comunidade judaica. É crítico em relação à falta de solidariedade para com os refugiados, mas diz também que a Europa tem de perceber o sentimento de traição que têm os países da Europa Central e de leste: “Todos os nossos países acreditam e têm legitimidade para dizer que foram traídos no fim da guerra. Estávamos a sofrer pela paz e pela tranquilidade os outros e deviam-nos isso. Isso era muito verdade em meados dos anos 80. Agora, isso já não acontece. Deram-nos muita ajuda, agora temos uma dívida para pagar e pagamo-la ajudando os outros. Mas esse é um sentimento que não alastrou. O cidadão médio, na Polónia ou na Hungria, não se considera um europeu rico com a obrigação de ajudar o resto do mundo. Considera-se uma vítima do comunismo, a quem o mundo continua a dever alguma coisa.

Quem são os refugiados na Polónia?

Estamos num dos 11 centros de refugiados que existem na Polónia. Segundo as estatísticas do governo, cada um destes centros acolhe cerca de 1500 pessoas. O que não é muito, para um país com 38 milhões de habitantes. Aqui, a maioria dos refugiados vem da Ucrânia e da Chechénia.

Recebem um subsídio de cerca de 50 euros por mês. A maioria dos centros de refugiados oferece escola, aulas de placo, cuidados de saúde e dentários. Para Pavlo Tseona, refugiado ucraniano e para a filha, a Polónia é um país solidário. Mas o facto de a mulher ter origem polaca ajuda: “Chegámos da Ucrânia há oito meses. A situação era muito difícil, havia tiroteios nas ruas, morreram pessoas. Uma das nossas três filhas estava a viver na cave. Depois de todos esses acontecimentos, decidimos deixar Mariupol e vir viver para a Polónia”, conta.

Se os laços entre a Ucrânia e a Polónia são fortes e os ucranianos se assimilam facilmente, há também muitos chechenos muçulmanos a viver no país. A Polónia nunca escondeu o desejo de ajudar quem sofreu no antigo bloco comunista: “Viemos da Chechénia há três anos. O meu marido foi espancado e o nosso filho desapareceu. Não sabemos onde está. Aqui sentimo-nos mais livres. Gostamos da cultura e do respeito que as pessoas têm uma pelas outras e por nós”, conta uma refugiada chechena que preferiu manter o anonimato.

Achmed Tashaev deixou a Chehénia há oito anos. É diretor de um grupo de dança, constituído apenas por refugiados chechenos, que chegou à final do programa de televisão “Poland’s got Talent”.

A integração na sociedade tem sido tão bem sucedida como as danças. Se a Polónia é um país tão respeitador e acolhedor, por que razão aceitou receber só sete mil imigrantes e refugiados nos próximos dois anos? Há quem diga que é por o país ter pouca experiência no acolhimento e na assimilação de refugiados.

Para Achmed, a questão é mais económica: “Se houvesse, na Polónia, as mesmas condições sociais que em França, na Alemanha ou outros países ocidentais, os polacos teriam, provavelmente, mais vontade de acolher refugiados”.

Medo do desconhecido

Há também muito medo do desconhecido. A Polónia é o país mais homogéneo da Europa. 96% da população é etnicamente polaca. 94% é de religião católica.

O medo da possível infiltração de extremistas islâmicos entre os milhares de refugiados que procuram asilo na Europa é uma realidade e está muito presente na Polónia.

Miriam Shaded é metade polaca, metade síria (cristã). Dirige uma fundação que trouxe 55 famílias cristãs da Síria para a Polónia. Mesmo se metade dessas famílias foi depois para a Alemanha, devido às melhores condições sociais, insiste que a missão está a ser um sucesso. “Todas as famílias foram adotadas pela sociedade, pelas igrejas e pelas pessoas de boa vontade que as ajudaram a integrar-se e a encontrar emprego. Ninguém quer ajudar pessoas que chegam cá e representam uma ameaça potencial, como os islamitas. Se escondem os documentos, podem vir e fazer o mesmo que fazem lá, que é impor a religião deles aos cristãos”.

Miriam representa esse mesmo medo do desconhecido que faz com que o debate sobre os refugiados na Europa esteja longe de estar terminado. Para um país de onde saíram tantos emigrantes para todo o mundo, não deixa de ser irónico: “São pessoas que têm filhos. São famílias que fogem da guerra e tentam salvar a vida como os polacos também já fizeram, quer durante a II Guerra Mundial, quer no tempo da lei marcial, em que muita gente deixou a Polónia. Partiram à procura de um lugar onde pudessem viver tranquilamente. É o mesmo que acontece com os atuais refugiados”, remata o imã Janusz Aleksandrowicz.