O Mali, a instabilidade e a jihad

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De  Antonio Oliveira E Silva  com AFP
O Mali, a instabilidade e a jihad

<p>O Mali encontra-se atualmente na encruzilhada da <em>jihad</em> islâmica, muito ativa na região ocidental do Continente africano. País com cerca de 12 milhões de habitantes, tem sido especialmente permeável à atuação de grupúsculos islamitas independentes no seu terriório, muitos deles ligados à Al-Qaeda. </p> <p>A instabilidade política e económica com que vivem os malianos desde que o seu país alcançou a independência de França, em 1960, poderiam explicar esta tendência. </p> <p>Governado com a mão de ferro do General Moussa Traoré entre 1968 e 1991, o Mali vive, no início dos anos noventa, um golpe de Estado que culmina com a aprovação de uma Constituição democrática e com o nascimento de um sistema multipartidário. </p> <p>No entanto, poucos foram os progressos económicos verificados neste país nos últimos vinte anos, apesar das suas riquezas e recursos naturais, como o ouro e o urânio. Ao défice democrático que marca a vida política maliana, junta-se assim a miséria de uma população cujo nível de vida não supera, em muitos casos, a linha da pobreza.</p> <p>Existem, por outro lado, diferentes grupos que desejam, desde os tempos da colonização francesa, a independência do Estado maliano, como os tuaregues, um povo berbere constituído por pastores seminómadas e de confissão muçulmana. </p> <p>Os tuaregues reivindicam a criação de uma república independente em parte do território integrante da República do Mali. Desde os tempos da colonização francesa, no início do Século passado, até 2009, o Mali passou por seis revoluções tuaregues, algumas das quais também se fizeram sentir no vizinho Níger. </p> <p>Aos rebeldes tuaregues juntaram-se, posteriormente, e influenciados pelas mudanças geopolíticas no Médio Oriente e no Norte de África (11 de setembro, invasão do Iraque, nascimento da Al-Qaeda e, posteriormente de Daesh) grupos radicais islâmicos com ligações à Al-Qaeda e cujo objetivo é a criação de um Estado islâmico através da luta armada. </p> <p>Bamako sofreu, pela primeira vez, um atentado em março deste ano.O alvo foi um bar da capital, muito frequentado por estrangeiros, tanto turistas como emigrantes europeus instalados na cidade<br /> Do ataque resultaram cinco mortos, um belga e quatro franceses. O atentado foi posteriormente reivindicado por um grupo jihadista. </p> <p>Foi neste clima de tensão e em plena guerra civil que a França interveio militarmente com a operação <em>Sevral</em>, em janeiro de 2013. A operação foi um sucesso, apesar de algumas perdas do lado francês, que perdeu 10 soldados. </p> <p>Em abril de 2013, quatro meses depois do início da operação, as tropas francesas começam a retirar-se. A missão termina de forma oficial em agosto de 2014.<br /> Segue-se a operação <em>Barkhane</em>, na realidade uma guerra rápida e eficaz, mas que falhou a missão de resolver os problemas estruturais do poder no Mali, as lutas internas e a questão dos islamitas. </p> <p>Os rebeldes tuaregues e as autoridades do Mali assinam um acordo de paz em junho de 2015, acordo que não incluiu os diferentes movimentos jihadistas.<br /> Muitos dos jihadistas encontram-se ainda refugiados no estrangeiro, especialmente na Líbia, onde passam por novos processos de radicalização. </p> <p>A tomada de reféns de sexta-feira veio demonstrar que o Mali vive ainda tempos de grande fragilidade, apesar das intevenções militares francesas e que os problemas estruturais do país estão longe de encontrar-se resolvidos. O futuro e estabilidade de Bamako dependem, cada vez mais, do equilíbrio de forças entre os governos africanos da região e os movimentos jihadistas, com uma capacidade de mobilização regional cada vez mais efetiva</p> <h3>O Mali independente: uma cronologia</h3> <p><strong>1960</strong> Junho: Federação do Mali, independência de França Setembro: Criação da República do Mali</p> <p><strong>1962</strong> Primeira rebelião tuaruegue no Mali</p> <p><strong>1964</strong> Fim da primeira rebelião tuaregue no Mali </p> <p><strong>1968</strong> O General Moussa Traoré organiza um golpe de Estado Início de um regime militar de mais de 20 anos </p> <p><strong>1990</strong> Início da segunda rebelião Tuaregue no Mali e no Níger</p> <p><strong>1991</strong> Golpe de Estado militar põe fim ao mandato de Moussa Traoré </p> <p><strong>1992</strong> Fevereiro: Nova Constituição aprovada em referendo Junho: Younoussi Touré é eleito Primeiro-ministro </p> <p><strong>1993</strong> Tentativa de golpe de Estado</p> <p><strong>1996</strong> Fim da segunda rebelião tuaregue no Mali e no Níger</p> <p><strong>1997</strong> Eleições legislativas anuladas pelo Tribunal Constitucional</p> <p><strong>2000</strong> Mandé Sidibé nomeado Primeiro-Ministro </p> <p><strong>2006</strong> Quarta rebelião tuaregue </p> <p><strong>2007</strong> Início da quinta rebelião tuaregue, que durará dois anos</p> <p><strong>2012</strong> Confrontos entre o exército, os rebeldes tuaregues e os jihadistas do Aqmi Golpe de Estado militar põe fim ao mandato de Amadou Toumani Touré Sexta rebelião tuaregue </p> <p><strong>2013</strong> Inicio da operação <em>Sevral</em>, levada a cabo pelo exército francês</p> <p><strong>2013</strong> Início de mais uma operação militar francesa, a operação <em>Barkhane</em></p> <p><strong>2014</strong> Agosto: Fim da operação <em>Barkhane</em></p> <p><strong>2015</strong> Primeiro atentado jihadista em Bamako. Cinco mortos, todos estrangeiros.</p> <p><strong>2015</strong> Junho: Acordos de paz entre o Estado e rebeldes tuaregues. Islamistas são deixados de fora. </p> <p><strong>2015</strong> Novembro: Comando toma dezenas de reféns em hotel de Bamako São encontrados, pelo menos, 27 corpos. <em>Al Murabitun</em> grupo ligado à Al-qaeda, reivindica ataque.</p>