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Os atentados de Paris contados por quem os viveu

Cronologia dos atentados de Paris de 13 de novembro, que fizeram 129 mortos e centenas de feridos na capital francesa, tal como foram vividos por quem se encontrava naquela zona da cidade. Relatos e i

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Os atentados de Paris contados por quem os viveu

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“O concerto tinha começado uma hora antes. De repente, ouvimos uns barulhos nas traseiras do auditório, que fizeram com que as pessoas entrassem em pânico e tentassem fugir. Atirámo-nos para o chão e fomos para trás das cadeiras, correndo depois até às saídas de emergência. Escondemo-nos então numa sala e ficámos lá, barricados”.

O jornalista Daniel Psenny gravou, da janela de sua casa, cenas do ataque à sala de espetáculos Le Bataclan. Não sabia, naquele momento, o que se passava. Viu gente a fugir, em pânico, e viu feridos pelo chão.

O pesadelo começa por volta das 21:40 de 13 de novembro, quando três homens armados tomam de assalto a sala de espetáculos Le Bataclan, em Paris, e fazem reféns todos os que assitiam a um concerto. Um pesadelo de três horas que deixou mais de 120 mortos e centenas de feridos. Os três terroristas morrem durante a operação, dois deles ao acionarem explosivos.

As autoridades deram início ao que disseram ser uma investigação anti-terrorismo, embora não tenhamos mais detalhes até ao momento. A polícia acredita que alguns dos atacantes estejam ainda em fuga.

No dia a seguir aos ataques, Paris é uma cidade vazia. Quem lá mora passou a noite em branco e decidiu ficar em casa. Os monumentos foram abandonados pelos turistas. A França encontra-se, pela primeira vez em muitos anos, em estado de emergência. Vivi a guerra da Argélia e posso dizer-lhe que isto é uma guerrilha e não uma guerra. E é terrível ter de lutar contra o terrorismo.

No décimo bairro de Paris, o ambiente é pesado. Pelo menos 15 pessoas morreram nas esplanadas do restaurante ‘Le Petit Cambodge’ e do bar ‘Le Carillon’. Dez ficaram gravemente feridas com tiros de armas de combate.

Os franceses preferem ficar em casa depois dos atentados. Cada um expressa a sua solidariedade de forma diferente. Uns deixam ramos de flores perto dos locais dos atentados.Outros querem apenas estar com as pessoas na rua. Há também quem dê sangue, como aqui em Saint-Louis. O pessoal médico de Paris participou na onda de solidariedade depois dos atentados. Foi o que aconteceu no hospital Georges Pompidou.

“Cheguei às onze da noite ao serviço de urgência e mandei embora os pacientes menos graves. Depois, como previsto nos planos de emergência, telefonei ao pessoal para que voltasse. Tive então uma excelente surpresa. Voltaram ao trabalho as pessoas a quem telefonei, mas também muitos mais, a quem não tinha telefonado. Nada mau!”

O bairro de Barbès, no norte de Paris, normalmente muito animado, acordou mais calmo do que é costume.Isto, no domingo a seguir aos atentados. Trata-se de um bairro multicultural e onde vivem, por exemplo, muitos muçulmanos. Alguns dizem ter medo de represálias relacionadas com a sua condição cultural e religiosa:

“Gostaria de dar um conselho a todos os magrebinos e a todos os muçulmanos em geral: sejam solidários e manifestem-se contra o que esta gente anda a fazer. Onze meses depois dos atentados contra o jornal satírico ‘Charlie Hebdo’ e contra o supermercado ‘Cacher’, a comunidade muçulmana de França está indignada”. “É uma vergonha o que fazem. Destroem a imagem do Islão. Porque o Islão é o contrário do que dizem e fazem”.

Poucas pessoas vieram à oração do meio-dia este domingo, na Grande Mesquita de Paris. Os muçulmanos que encontrámos pareciam inquietos e indignados.

Pareciam não ter palavras suficientes para criticar e denunciar os autores dos atentados. E não se cansaram de pedir à sua comunidade para se mobilizar de forma clara contra este tipo de terror.

Apesar da proibição de manifestações e marchas em Paris, as pessoas quiseram encontrar-se nas ruas.Talvez para se reconfortarem, mas também para expressarem a sua frustração. Muitos vieram até à Praça da República, local simbólico para os franceses.

Os parisienses tentam voltar à vida normal. No entanto, não sabemos como serão as coisas depois dos três dias de luto nacional. À esquerda e à direita, os políticos tentam demonstrar que são os mais duros na luta contra o terrorismo.

O presidente francês, François Hollande, declara três dias de luto nacional.
É a primeira vez que tal acontece na quinta república. Hollande encontrou-se com o Primeiro-ministro Valls, na segunda-feira, para um minuto de silêncio na Sorbonne.
Havia estudantes e professores entre as vítimas dos atentados.

“Acho que o Presidente enviou uma mensagem importante aos mais jovens. Somos nós quem vai ter de fazer frente a todos estes problemas. Penso que é um gesto importante”.

Alguns meios chamam-lhes a geração Bataclan. Acordaram para a vida adulta de forma violenta. São estudantes do Liceu Voltaire, escola pública situada perto do local dos ataques.

“Deixam-nos um mundo confuso, cheio de guerras. Penso que teremos futuro, mas pergunto-me se os nossos filhos poderão vir a dizer o mesmo. Há imensos problemas relacionados com o Planeta, em geral. Se as pessoas não mudam de atitude, não sei se o futuro será muito bom”. “O que se passou não pode ser motivo para que deixemos de viver. Vou continuar a viver como sempre, mesmo se estamos tristes e chocados. Penso que devemos viver a vida e avançar, apesar de tudo”.

Os lugares onde aconteceram grande parte dos atentados são conhecidos por serem zonas de lazer. Por isso, muitos escolheram voltar à normalidade o mais depressa possível, para vencer o medo.

Apesar da tensão, apesar da chuva, as pessoas vieram jantar, vieram passar um bom momento. Vieram ver o futebol, cantar o hino francês e dizer que esta França, que amam, ama a vida.

Os peritos em segurança e defesa avisam que a Bélgica poderia ser um ponto fraco da luta contra o terrorismo.Por isso, são de esperar operações de intervenção neste país.

Os habitantes de Saint-Denis estão em estado de choque. Acordaram na madrugada com a violência de uma operação policial. Pensavam se tratava de um novo atentado. Só de manhã ficaram a saber que havia terroristas barricados num apartamento.

Nem sabemos quem é esta gente. Quem serão? Vieram da Bélgica! Misturam-se com a população, mas quem são eles? Serão muçulmanos? Claro que não!

O centro da cidade foi apanhado de surpresa:

“Tenho medo! Já ninguém se sente seguro. Eles podem estar em tua casa e tu sem saber de nada!”

Com um grupo terroristas em pleno coração da cidade, os habitantes de Saint-Denis estão em choque. Depois do pesadelo da noite passada, a cidade parou. O medo parece ter vindo para ficar durante muito tempo.