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Espanha: as eleições de resultados mais incertos são este domingo

Com o surgimento de novas forças políticas, os 350 lugares do Congresso de Deputados espanhol são uma incógnita na ocupação até ao apurar dos resultados das legislativas deste domingo

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Espanha: as eleições de resultados mais incertos são este domingo

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Em Espanha, as eleições gerais do próximo dia 20 de dezembro são as mais incertas da história recente do país. Do ponto de vista parlamentar, sem se esperar uma maioria absoluta de qualquer partido na corrida, um dos principais mistérios é quantos grupos se formarão no Congresso de Deputados.

Mariano Rajoy atira para dia 21 a grande questão desta legislatura: formar governo com quem?
A renovação do mandato pelo Partido Popular enquanto primeiro-ministro é o que se espera, mas a fragmentação das opções políticas e a limitação dos números nos resultados obrigam ao pacto político. Qual? Nenhum é uma opção óbvia.

Pedro Sánchez, pelo PSOE, lançou frases fortes ao primeiro-ministro, num debate televisionado, apontando a dedo as folhas de balanço apresentadas e dizendo frontalmente que Rajoy não era decente.

Contudo, o Partido Socialista não foi brilhante em capitalizar com a indignação dos espanhóis ante os cortes de prestações sociais e sobretudo face aos escândalos de corrupção que varreram esta legislatura do PP. Apesar de conhecido como “el guapo”, Pedro Sanchéz encara o descontentamento que se arrasta na alternância bipartidária que levou o PSOE ao poder algumas vezes desde 1982.

Já Albert Rivera, um novo ator político de direita, pelo Ciudadanos, é o que maior afinidade tem para uma coligação com o PP. Mas Rivera declarou que rejeita qualquer aliança, seja com o PSOE seja com o partido de Mariano Rajoy.
A descer nas sondagens, o cenário provável é o de não obtenção de lugares suficientes para uma maioria absoluta, ainda que coligados.

O partido que mais subiu nas sondagens desde o início da campanha, o Podemos por que Pablo Iglesias dá a cara, parece ter agregado o desejo de mudança dos espanhóis nestas eleições, as mais renhidas das últimas décadas. Mais uma vez, o desfazer de todas as dúvidas reside no voto dos muitos ainda indecisos no próximo domingo.

Isidro Murga. euronews
Juntamo-nos ao analista em demoscopia, pesquisa em opinião pública, doutor em ciências políticas pela universidade Carlos III de Madrid. Senhor Orriols, obrigada por estar connosco. Desde há meses que temos vindo a dizer que estas eleições legislativas a ter lugar em Espanha este domingo vão implodir o bipartidarismo PP-PSOE, que teve lugar depois da Transição. Está confirmado pelas sondagens? Quem vai ganhar?

Lluís Orriols. Political scientist. Carlos III university
Sim, confirma-se. As últimas sondagens põem sistematicamente o PP em primeiro lugar, logo sabemos, com alguma certeza, que é o PP que vai ganhar estas eleições. Mas, pela primeira vez na história aquele que ganhe não
tem a garantia de governar, pode haver alternativas de governo.

Isidro Murga. euronews
Entre as possíveis alianças pós eleitorais, qual é a que tem maior possibilidade de acontecer?
Pode acontecer como em Portugal, onde a união de forças tornou a oposição no partido político mais votado?

Lluís Orriols. Political scientist. Carlos III university
Sem dúvida, quer dizer, se o PP vier a juntar-se a Ciudadanos, a nova formação de Albert Rivera, um pacto será possível, um pacto a dois, ao menos um pacto parlamentar. Mas se eles estão longe da maioria parlamentar, a maioria absoluta, não se pode descartar uma maioria alternativa liderada pelo segundo partido no parlamento. É por isso que é tão importante e crucial saber quem ficar em segundo lugar, esta vez, porque não é garantido que o PSOE fique em segundo, mesmo que as sondagens, por agora, o situem aí.

Isidro Murga. euronews
A crise económica, a austeridade, o desemprego, a corrupção, pedidos de independência… são estes alguns dos fatores que explicam o “sismo” eleitoral que as sondagens preveem. Mas por que é que isto tem lugar agora e não antes?

Lluís Orriols. Political scientist. Carlos III university
Na verdade, isso acontece desde que temos eleições. Digamos que a rutura do bipartidarismo começa a manifestar-se desde 2013, mas é apenas em 2014, com as eleições europeias que sentimos a terra a tremer. E o tremor de terra passou de ser demoscópico, visível na opinião pública, para ser do eleitorado ao longo de todo este ano eleitoral de 2015. Tivemos as eleições municipais, as regionais e aí vimos claramente como o bipartidarismo colapsou. Talvez não da forma como as sondagens anunciavam, mas foi um prelúdio daquilo a que estamos a assistir nestas legislativas. É, então, desde há um ano que vemos o afundamento do sistema partidário no nosso país.

Isidro Murga. euronews
Ciudadanos e Podemos vão passar de zero para a posição de estar entre os partidos mais representados no novo parlamento espanhol. Em que se parecem e em que se distanciam os eleitores destas duas formações políticas?

Lluís Orriols. Political scientist. Carlos III university
Ouça, ambos se parecem porque os dois canalizam a indignação da sociedade, o desgosto do cidadão face a um sistema político e de partidos que dececionou grande parte das pessoas.
Logo, os dois têm esse elemento em comum. Em que é que são diferentes?
Bem, um especializou-se na esquerda: o Podemos recupera a cólera cidadã vinda da esquerda e, ao contrário, Ciudadanos fê-lo com a direita e o centro-direita.
Têm portanto um perfil ideológico muito diferente, mesmo que os dois partilhem o facto de capitalizar a revolta dos cidadãos.

Isidro Murga. euronews
Na segunda-feira teve lugar um dos debates mais tensos de que nos lembramos entre os dirigentes dos dois principais partidos políticos e, na quarta, um jovem agrediu o primeiro-ministro no rosto… Como é que isto pode afetar o resultado?

Lluís Orriols. Political scientist. Carlos III university
Os debates vão influenciar numa certa medida, não podemos exagerar o efeito, mas algum efeito terá, certamente. Penso que o debate de segunda ajudou o Partido Socialista a distanciar-se do PP e romper a ideia de que o bipartidarismo é tudo o mesmo, que é o que a campanha de Ciudadanos e Podemos tentam veicular. Por isso, o debate de segunda serviu ao PSOE para marcar a distância.
No que diz respeito à agressão a Rajoy, isso tem um enorme impacto na atualidade, mas não vejo verdadeiramente consequências para além da anedota. Se tiver alguma influência, é certamente muito pouca.