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Medvedev à euronews: "operação terrestre na Síria significaria uma guerra total"

Intervenção militar russa na Síria: para uns uma ameaça à segurança, para outros um elemento chave para a solução do conflito.

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Medvedev à euronews: "operação terrestre na Síria significaria uma guerra total"

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A Rússia é considerada por muitos países ocidentais uma ameaça crescente à segurança mundial. É vista por outros como um dos elementos chave na procura de uma solução para o conflito na Síria. Entretanto, o país vê-se a braços com uma grave crise económica. Para analisar estas questões a euronews entrevistou o primeiro-ministro russo, Dmitri Medvedev, na Conferência de Segurança de Munique.

Point of view

Se o que [Kerry] realmente pretende é uma guerra prolongada, então pode realizar operações no terreno e tudo o que entender.

A prespetiva de operações terrestres na Síria

Isabelle Kumar, euronews:
A questão da Síria domina a agenda internacional. Podemos estar num ponto de viragem, mas não é claro em que sentido caminhamos. Qual é a sua opinião?

  • Dmitri Medvedev nasceu em Leningrado, no dia 14 de setembro de 1965.
  • atual primeiro-ministro da Federação Russa, nos anos 90 foi acessor de Vladimir Putin na câmara municipal de São Petersburgo.
  • venceu as eleições presidenciais em 2008.
  • foi nomeado chefe do governo russo em 2012 quando Vladimir Putin regressou à presidência.

Dmitri Medvedev:
A situação na zona é muito complexa e difícil. Precisamos de chegar a um acordo com os nossos parceiros em questões chave, incluindo a criação de uma possível coligação e de uma cooperação militar. Todos os contactos neste sentido foram até agora apenas episódicos. Dito isto, é de referir que o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, se encontrou aqui em Munique com o secretário de estado norte americano, John Kerry, e outros responsáveis diplomáticos. Chegaram a um acordo sobre o que deveria ser feito a curto prazo e por isso estou moderadamente otimista quanto à possibilidade de cooperação.

Deixe-me ainda sublinhar que esta cooperação é essencial porque a guerra na Síria não vai terminar se não trabalharmos em conjunto. Vão continuar a morrer pessoas, os refugiados vão continuar a chegar de forma massiva à Europa, que terá de fazer frente a grandes desafios. E o mais importante, não vamos ser capazes de erradicar o terrorismo, que ameaça toda a civilização moderna.

Que ações militares, ou de outro tipo, está a Rússia disposta a empreender para ajudar a resolver o conflito na Síria?

Permita-me recordar as razões do envolvimento da Rússia no conflito sírio. O primeiro motivo foi a proteção de interesses nacionais. Há muitos combatentes na Síria que podem chegar à Rússia a qualquer momento e cometer ataques terroristas.

Em segundo lugar, há uma base jurídica fundamentada pelo pedido do presidente sírio Bashar al-Assad. Tomámos em conta estes dois factores nas nossas decisões militares e, obviamente, na própria evolução da situação. O importa neste momento é chegar a um acordo que lance as conversações entre todas as partes do conflito sírio. Outro ponto importante é coordenar uma lista de grupos terroristas, uma vez que este tema tem sido motivo de debates intermináveis sobre quem é bom e quem é mau. Este é o primeiro ponto que queria salientar.

O segundo, é o seguinte: soube que o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, referiu que se a Rússia e o Irão não ajudarem, os Estados Unidos estão dispostos a unirem-se a outros países para levar a cabo uma operação no terreno. São palavras fúteis, que não deveriam ter sido ditas por uma simples razão: se o que realmente pretende é uma guerra prolongada, então pode realizar operações no terreno e tudo o que entender. Mas que não tente assustar ninguém. Os acordos devem ser alcançados na linha das conversações de Kerry com Lavrov, ao invés de dizer que se algo não corre bem, os países árabes e os Estados Unidos podem avançar com uma operação no terreno. Respondi a esta pergunta há pouco tempo. Mas permita-me reiterar que ninguém está interessado numa nova guerra e uma operação terrestre significaria uma guerra total e prolongada. Temos de ter isto em conta.

Futuro de Assad

Claramente, uma das questões-chave é o futuro do presidente sírio, Bashar al-Assad. A Rússia continua a apoiá-lo neste momento crucial?

A Rússia não apoia o presidente al-Assad pessoalmente, mas mantém relações amigáveis com a Síria. Estes laços não foram criados com Bashar al-Assad, mas com o seu pai, Hafez al-Assad, quando se tornou presidente. Este é o primeiro ponto a sublinhar.

Segundo, nunca dissemos que esta é para nós a questão principal neste processo. Acreditamos simplesmente que não existe atualmente nenhuma outra autoridade legítima na Síria além de Bashar al-Assad. É ele o presidente legítimo, quer se goste ou não. Eliminá-lo desta equação levaria ao caos. Vimos o que aconteceu em numerosas ocasiões no Médio Oriente, com países a desmoronar, como aconteceu com a Líbia, por exemplo. Por esse motivo devemos participar em todos os procedimentos e processos, mas o destino da Síria deve estar nas mãos do povo sírio.

Há ideias já para uma transição política na Síria?

É preferível não entrarmos em demasiados detalhes sobre estes temas. Estou a falar da Rússia, da União Europeia e dos Estados Unidos. Deveríamos focar-nos em facilitar o arranque deste processo. Temos de garantir que todos se sentam à mesa das negociações para discutir as questões.

Sejamos honestos e reconheçamos que, dadas as partes envolvidas, isto não vai ser simples. De um lado, o presidente sírio al-Assad, apoiado por uma parte da sociedade e pelos militares. Do outro, a restante sociedade, que representa muitas vezes diferentes confissões religiosas, pessoas que não gostam de Assad, mas que vão ter de se sentar à mesa das negociações. Não obstante, têm de chegar a um acordo que permita manter a Síria unida.

Não devolvemos a Crimeia

Falemos agora do conflito ucraniano. O conflito encontra-se num impasse com, ao que parece, novos combates no leste do país. Que soluções propõe a Rússia para colocar um ponto final neste conflito?

Bom, como é compreensível, a resposta aqui é de certa forma mais fácil que no caso da Síria. Não só porque a intensidade deste conflito não é tão grande, mas porque há um entendimento claro de como agir – através da implementação dos acordos de Minsk. Estes devem ser aplicados, na sua totalidade, por todas as partes. A Rússia pede a todas as partes que o façam, tanto os que se encontram no poder no sudeste como as autoridades de Kiev. Aqui não interessa se a Rússia tem divergências com Kiev ou se existe uma aversão mútua.

De um ponto de vista objetivo, seria justo dizer que a maioria das tarefas que eram da responsabilidade do sudeste ucraniano foi cumprida. O mais importante é que as hostilidades cessaram quase por completo. Infelizmente, acontecem ainda focos de conflito, mas são raros. O que conta agora é procurar soluções políticas e legais que cumpram os acordos de Minsk.

De quem é a responsabilidade? A responsabilidade é claramente da Ucrânia. Se a Ucrânia considera o sudeste como parte integrante do seu território, a jurisdição, competência e a autoridade pertencem ao Presidente, ao Parlamento e ao governo da Ucrânia.

Um dos principais pontos de fricção para a Ucrânia mas também para a comunidade internacional, é a Crimeia. O futuro da Crimeia é negociável?

Não. Para a Rússia, essa opção não existe. O assunto está definitivamente encerrado. A Crimeia pertence à Rússia. Foi realizado um referendo, modificámos a Constituição. A República da Crimeia e a cidade de Sebastopol são parte da Federação da Rússia.

Se encontrar o presidente da Ucrânia na Conferência de Segurança de Munique o que vai dizer-lhe?

Não o vi e, para ser honesto, não senti a falta dele… O Presidente Poroshenko está em contacto com o presidente Putin. O mais importante, não há dúvidas, é que os meus parceiros façam tudo para implementar os acordos de Minsk. É um benefício para eles e para estado ucraniano, que, digam o que disserem, é um Estado vizinho que nos é próximo.

Sanções: o que não mata, engorda

Portanto, o conflito na Síria e a situação na Ucrânia contribuíram para uma degradação das relações entre a Rússia, a União Europeia e os Estados Unidos. É possível recomeçar do zero estas relações?

A questão é como e no interesse de quem. Se algo tiver que ser restabelecido, deveria sê-lo numa base totalmente diferente. Numa base de equitabilidade e honestidade que permita relações sólidas, considerando que a Rússia não é a única nação que precisa disso – a União Europeia e os Estados Unidos também. Queremos relações aprofundadas com ambos.

A União Europeia é o nosso parceiro comercial mais importante, são países que estão no mesmo continente que a Rússia, partilhamos a mesma identidade europeia, a mesma história e os mesmos valores. Estas tensões contínuas não nos fazem bem nenhum. Porém, depois de nos terem dito que não nos queriam por perto é claro que os primeiros passos de reconciliação devem ser feitos por aqueles que iniciaram a alienação. Nós estamos prontos para discutir todos os assuntos.

Uma das repercussões da degradação das relações foram as sanções impostas à Rússia, que são um rude golpe. Em que medida é uma prioridade para o seu governo que as sanções sejam revogadas?

Disseram-nos que somos os maus da fita e que temos de ser punidos, mas depois começaram a fazer contas e a lamentar-se, pois afinal as sanções afetam-lhes os interesses comerciais.

Tínhamos um volume de negócios de 450 mil milhões de euros com a União Europeia. 450 mil milhões de euros! Desceu para 217 mil milhões. Porque não perguntam às pessoas que na União Europeia trabalham para as empresas que produziam para a Rússia, o que pensam disto?

Não fomos nós que iniciámos isto, não está nas nossas mãos revogar as decisões tomadas. Tentaram sempre intimidar-nos com sanções, impuseram-nas muitas vezes no período soviético. A única coisa que conseguiram foi ter prejuízos económicos. O que atualmente acontece não é diferente. Terão de ter a coragem de dizer ‘Pomos fim às sanções e vocês revoguem igualmente as medidas reativas’. Esta seria a atitude correta.

As sanções e a queda dos preços do petróleo contribuíram para a crise económica que a Rússia atravessa. Como é que isto afeta os cidadãos russos?

De facto, não estamos atualmente na melhor situação económica e provavelmente a causa principal é a queda abrupta do preço do petróleo, que contribui para a descida dos salários. É algo que não víamos há 17 anos. Os preços são comparáveis aos de 1998. Infelizmente, o nosso orçamento está demasiado dependente do preço do petróleo. A estrutura de rendimentos alterou-se, quanto ao peso relativo do petróleo e de outras fontes, mas esta dependência mantém-se decisiva. Isso não podia deixar de afetar os rendimentos e o nível de vida do povo russo, no campo do emprego e dos salários.

As sanções têm tido algum efeito também. Isso é óbvio, uma vez que, por exemplo, algumas das nossas empresas perderam o financiamento que tinham de bancos europeus, o que significa que não podem crescer, pelo menos algumas delas. Nesse sentido, a situação económica não é a mais fácil. Mas há também um efeito positivo: a economia está a tornar-se mais saudável, cada vez menos dependente do petróleo, e temos a oportunidade de desenvolver a nossa indústria e a agricultura .

Talvez uma das vantagens destas sanções e das nossas medidas de resposta é que começámos a concentrar-nos mais na agricultura nacional e atualmente conseguimos satisfazer a necessidade interna de alimentos. Passámos a exportar trigo em grande quantidade. Neste sentido, as sanções tiveram um efeito positivo, mas provavelmente não ajudaram os agricultores da União Europeia.

Perguntei a algumas pessoas em que medida a crise afeta os cidadãos russos e responderam-me que a recessão pode trazer a instabilidade social. Partilha esta preocupação?

Claro, o governo tem que primeiro pensar no impacto social das mudanças económicas e da situação económica. Francamente, nós fomos obrigados a cortar despesas orçamentais em muitas áreas, mas nunca tocámos nas prestações sociais, ou nos salários e benefícios do setor público.
No ano passado revalorizámos até as pensões de reforma, e este ano também, embora não completamente. Vamos tentar continuar a fazer isso. Ou seja, os gastos sociais do governo são elevados, mas são invioláveis. Vamos tentar fazer tudo em prol do bem-estar social dos cidadãos russos, mantendo o maior conforto possível nestas condições. É uma prioridade para o governo.

Raramente vejo televisão

*Regressando à perspectiva internacional, a questão dos direitos humanos e da liberdade de expressão continua a ser uma mancha negra na reputação da Rússia. Porquê?

Para ser franco, tivemos sempre pontos de vista divergentes sobre a liberdade de expressão e os média na Rússia. Temos sido frequentemente criticados e continuamos a ser alvo de críticas, mas temos uma posição diferente sobre a questão. Provavelmente os média na Rússia são diferentes dos média europeus. Existem diferenças históricas e há questões de crescimento.

Raramente vejo televisão ou leio os jornais impressos, consulto toda a informação na Internet. E mais de metade da população da Rússia faz o mesmo. Como sabe, na Internet não há nenhuma regulamentação neste sentido, estão ali representados todos os pontos de vista, inclusive, para ser franco, opiniões extremistas. Por isso parece-me pouco sério acreditar que há pessoas que não têm acesso a diferentes tipos de informação, no mundo global de hoje.

Todavia, os dissidentes queixam-se de serem silenciados. Passou um ano depois do homicídio de Boris Nemtsov. Na Grã-Bretanha foram apresentados os resultados do inquérito sobre o assassínio de Alexander Litvinenko, e o inquérito aponta para o presidente Vladimir Putin como provável mandatário do crime. Moscovo vai processar o governo britânico sobre este assunto?

Está a evocar um relatório elaborado por um juiz reformado (eu dei uma vista de olhos) no qual praticamente cada parágrafo começa com a palavra “provavelmente”. Há algum comentário a fazer? Há apenas a lamentar que em toda esta história o primeiro-ministro e o chefe da diplomacia britânica tenham comentado um relatório onde abundam palavras como “provavelmente”.
São as reminiscências de uma caça às bruxas. Quando tudo está dito e feito, que fique à consciência dos comentadores. Tratando-se de uma ação legal, é simplesmente ridículo. Não precisamos disto e a Federação Russa nunca processará nenhum país a propósito de fabricações insensatas e filmes de comédia.

Para terminar: já ocupou os cargos de primeiro-ministro e de presidente, tem, portanto, uma perspetiva de todos os assuntos que aqui abordámos. Qual o momento deste seu percurso no poder que considera mais importante?

Bem, foram muitos. Ambos os cargos são de grande responsabilidade e desafio. Estes oito anos da minha vida – foram quase oito anos – têm obrigado a uma movimentação constante. Quanto a acontecimentos, houve muitos, tanto na Rússia – alguns muito bons para mim, pessoalmente, eventos notáveis, grandes, e, por vezes trágicos, como estes de que falámos, e acontecimentos internacionais.

Afinal de contas, não foram só desentendimentos, também já realizámos umas quantas coisas. Por exemplo, assinámos o Novo Tratado de Redução de Armas Estratégicas, o que não foi coisa pouca. O documento foi assinado e está a ser implementado, podemos portanto trabalhar juntos e concordar em várias coisas.

Mantivemos contactos com os meus parceiros, aqui na Alemanha, como noutros países europeus. Tratámos de numerosos problemas e tudo isto é notável e emocionante. Talvez um dia eu conte isto com mais detalhes. Continuo a trabalhar e é um trabalho interessante.

Dmitri Medvedev

Dmitri Medvedev nasceu em Leningrado, no dia 14 de setembro de 1965. O atual primeiro-ministro da Federação Russa, foi nos anos 90 acessor de Vladimir Putin na câmara municipal de São Petersburgo. Venceu as eleições presidenciais em 2008 e em 2102 foi nomeado chefe do governo russo, quando Vladimir Putin regressou à presidência.