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O feitiço que a Alcina de Handel lançou em Monte Carlo

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O feitiço que a Alcina de Handel lançou em Monte Carlo

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A ópera é Alcina, a feiticeira que encanta o cavaleiro Rogério, na adaptação que Handel fez do poema épico “Orlando Furioso”. O contratenor Philippe

A ópera é Alcina, a feiticeira que encanta o cavaleiro Rogério, na adaptação que Handel fez do poema épico “Orlando Furioso”. O contratenor Philippe Jaroussky leva-nos através desta obra.

É uma das árias mais famosas da música barroca: após a estreia, era o público quem pedia “Verdi Prati” para encerrar as representações de “Alcina”, a ópera de Handel, baseada no poema épico “Orlando Furioso”, de Ariosto. Uma peça musical que o contratenor francês Philippe Jaroussky conhece bem. Desta feita, interpretou-a em Monte Carlo, sob a direção do maestro italiano Ottavio Dantone. Jaroussky assume o papel de Rogério, um cavaleiro perdido numa ilha onde sucumbe aos encantos da feiticeira Alcina, desempenhada pela soprano letã Inga Kalna.

“A minha personagem, Rogério, concentra praticamente todos os defeitos que se costuma associar a um homem: é muito sedutor, um pouco mentiroso, um pouco cobarde face às mulheres, quase antipático. Mas depois vai-se revelando ao longo da ópera. É isso que é admirável nesta personagem: ele tem uma dimensão muito requintada e poética.”

Segundo o cantor, “esta personagem não tem nada a ver com aquelas acrobacias vocais que vemos frequentemente. Aqui há uma certa pureza… Uma das grandes dificuldades no trabalho de um cantor é a tendência a imprimir sentimentos e a exagerar antes mesmo de tentar cantar com humildade a peça que foi escrita. É uma questão à qual me dedico cada vez mais: deixar as notas saírem, deixar as palavras ecoarem, sem as colar a algo de definitivo. Temos de deixar ao público a possibilidade também de procurar um sentido para as coisas.”

O maestro Ottavio Dantone descreve o trabalho com Jaroussky assim: “Ele tem uma musicalidade evidente. Normalmente os solistas tendem a fazer-se seguir pela orquestra. Jaroussky tem uma respiração e uma liberdade que o colocam ‘dentro’ da música, faz parte dela. Ele não vê as coisas apenas do ponto de vista do solista, mas de um cantor que faz parte de um todo.”

A presença de Handel é algo de muito marcante para o contratenor: “Se Handel me aparecesse antes de um concerto, ficaria aterrorizado com a ideia de cantar à sua frente, por exemplo. É sabido que ele tinha ataques de fúria contra os cantores. Seria muito triste se ele me dissesse que a forma como canto a sua música é desastrosa. No entanto, também se sabe que ele era um grande professor. Se calhar, até podíamos ir beber uma cerveja, mas nunca lhe pediria uma aula de canto, com ele ao cravo. Seria interessante…”