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euronews em exclusivo no Irão: As minorias religiosas

Os iranianos são chamados às urnas esta sexta-feira para elegerem um novo Parlamento e uma nova Assembleia de Peritos ou Especialistas. Damos-lhe a conhecer, por dentro, a realidade de um "tesouro" at

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euronews em exclusivo no Irão: As minorias religiosas

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Dos quase 80 milhões de pessoas a viver no Irão, cerca de 80 por cento são muçulmanos xiitas, a religião oficial do país. Cerca de 18 por cento são sunitas e sufis e os restantes 2 por cento compõem-se de minorias religiosas.

De entre as minorias religiosas, apenas estão autorizados ao culto no Irão os zoroastrianos, os judeus e os cristãos, onde se incluem, por sua vez, os assírios, os caldeus e os arménios. Estas são as minorias com assento reservado no Parlamento iraniano.

 

Os Bahá‘í

A fé Bahá‘í surgiu no Irão em meados do século XIX e desde então são perseguidos pelas autoridades religiosas islâmicas locais. Após a Revolução Islâmica no Irão, no final da década de 70, a perseguição e opressão intensificaram-se.

Estima-se que seja a maior minoria religiosa do país, com mais de 300 mil fiéis, mas não é reconhecida oficialmente. Os Bahá‘í são considerados infiéis não abrangidos pela lei e, como tal, podem ser atacados impunemente e não têm acesso, por exemplo, ao ensino superior, aos meios de comunicação social e à literatura, sendo incutido na populaçao um preconceito geral contra esta minoria.

O atrito entre muçulmanos e bahá‘is surgiu porque o Islão diz que Maomé foi o último dos profetas e a fé Bahá‘í defende que há uma sequência contínua de profetas, o mais recente Baha’u‘lláh. A teoria contraria a crença islâmica e isso instigou a perseguição.

Em Portugal existem cerca de 7000 fiéis bahá‘ís. Um dos mais famosos é o atleta olímpico Nelson Évora.

fonte: Baha.pt e Rádio Renascença

Com uma representação a rondar os 12 mil fiéis só em Teerão, é no Irão que vive a maior comunidade de judeus do mundo islâmico, comunidade que promete acorrer em força às urnas.

“Os judeus vão participar em massa nas eleições desta sexta-feira. Para nós, votar é um dever nacional. Como temos representação direta nas minorias do Parlamento, só podemos votar num dos dois candidatos que foram previamente aprovados pelo Conselho de Guardiães”, explicou à euronewsMir Akhor, cidadão iraniano judeu.

Na capital do Irão existe uma dezena de centros do culto hebraico. A sinagoga Abrishami é um deles. Situa-se no centro de Teerão e tem capacidade para meio milhar de pessoas. Por este espaço passam diversas famílias judias durante toda a semana, à noite.

Para lá das sinagogas, a comunidade hebraica iraniana conta ainda com escolas especiais, hospitais, centros de acolhimentos para idosos, bibliotecas e salas de conferência em áreas residenciais maioritariamente judaicas.

“Em primeiro lugar, agradecemos às estimadas autoridades iranianos a permissão para que todas as minorias tenham pelo menos um representante no Parlamento. É algo que tem de ser muito valorizado”, sublinha o senhor Khaldar, outro cidadão judeu.

Os cristãos compõem a maior fatia das minorias religiosas no Irão, com mais de 200 mil fiéis. Destes, 80 por cento são arménios. Os cristãos arménios são conhecidos, aliás, como a maior minoria no país, mas não são considerados ao mesmo nível dos muçulmanos.

Ja este ano, com o levantamento das sanções internacinais e a aproximação do Irão ao ocidente, o Presidente Hassan Rohani deslocou-se a Itália e reuniu-se com o líder da igreja católica. Oportunidade, também, para aproximar as duas doutrinas religiosas.

 

“Dinheiro de sangue

Em casos de homicídio, a lei islâmica permite a “diyya” ou o chamado “dinheiro de sangue”. Esta é uma indemnização que o considerado responsável pela morte pode pagar à família da vítima em troca da pena recebida. A família, porém, tem de aceitar esse pagamento.

O valor dado aos membros das diversas religiões é diferente. Uma morte entre as minorias religiosas não vale o mesmo que a morte de um islâmico. As mulheres também são pouco valorizadas.

Por exemplo, se um muçulmano mata uma muçulmana, a família da vítima pode aceitar a “diyya” ou preferir uma “qisa”, isto é, uma punição física na linha do “olho por olho, dente por dente”. Mas, tendo sido uma mulher a morrer, antes desse castigo, a família da vítima é penalizada e tem de indemnizar o assassino com metade do “dinheiro de sangue” calculado para uma vítima masculina (fonte: IranWire).

Em 2014, o procurador-geral iraniano revelou, pela agência Fars, que o recurso ao “dinheiro de sangue” tinha permitido poupar a vida a 358 iranianos condenados à morte. A pena capital é outra das controvérsias que a comunidade internacional espera que venha a ser abolida pelo Irão.

“Por todo o mundo, em todas as sociedades, nada é perfeito e o Irão não é exceção. Por vezes têm havido alguns problemas. Como, por exemplo, com o chamado ‘dinheiro de sangue’. Em termos judiciais, os processos são analisados caso a caso, mas não podemos dizer que os direitos dos arménios são respeitados a 100 por cento. É, porém, o mesmo com os iranianos”, considera Amirkhanian, um cristão arménio, acrescentando que “regra geral, em termos sociais”, organismos cristãos como “associações, escolas e igrejas estão ativas”. “Não temos qualquer problema em praticar a nossa religião”, garantiu.

As decisões mais importantes no seio da respetiva comunidade são assumidas pelo Conselho do Califado Arménio, a mais alta autoridade para as questões religiosas, acumulando responsabilidades sobre as manifestações culturais, solidárias, desportivas, artísticas ou políticas.

O correspondente da euronews no Irão falou ainda com Karen Khanlari, o representante arménio no Parlamento e, de novo, candidato ao lugar. Javad Montazeri perguntou pela possibilidade de um dia poder chegar a um Ministério um cidadão iraniano cristão.

“Quando o Presidente Rohani tinha acabado de ser eleito, propus-lhe 4 nomes para ministros-adjuntos ou conselheiros em áreas como a educação, ensino superior ou energia. Houve algumas conversas sobre quem eram estas pessoas que indiquei e se elas teriam as competências necessárias para as funções. Há esperança de que um dia isso possa acontecer. Temos de continuar a tentar”, expressou Karen Khanlari, o deputado cristão no Parlamento iraniano.

O nosso correspondente conclui esta reportagem lembrando que, “embora as minorias religiosas tenham sido obrigadas, após a Revolução Islâmica no Irão, a respeitar as leis islâmicas e proibidas de promover a sua fé fora da respetiva comunidade, foi-lhes também autorizado a manterem a religião, o idioma e a praticar os respetivos cultos”. Tudo, agora também, com representação legislativa.

(Lei penal iraniana permite que raparigas de 9 anos e rapazes de 15 sejam condenados à morte.)