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Vem aí Mani Haghighi com um Dragão pela mão

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Vem aí Mani Haghighi com um Dragão pela mão

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“Vem aí o Dragão !”, o filme do iraniano Mani Haghighi exibido no 66º Festival de Berlim, é uma incursão algo surrealista na história do Irão. Uma

“Vem aí o Dragão !”, o filme do iraniano Mani Haghighi exibido no 66º Festival de Berlim, é uma incursão algo surrealista na história do Irão.

Uma espécie de parábola política, que tem como ponto de partida o assassinato do primeiro-ministro Hassan Ali Mansur, em janeiro de 1965, durante o reinado do xá Reza Pahlavi. Ali Mansur foi morto por membros do grupo Fada’iyan-e Islam (Devotos do Islão), que em 1979 apoiaria a revolução islâmica do ayatollah Khomeini.

O detetive Babak Hafizi (Amir Jadidi) foi encarregado de investigar o alegado suicídio de um prisioneiro político exilado na ilha de Qeshm. Para descobrir o que se passou, o detetive pede ajuda ao geólogo Behnam Shokouhi (Homayoun Ghanizadeh) e ao engenheiro de som Kevyan Haddad (Ehsan Goudarzi). No horizonte está a Savak (Agência de Inteligência e Segurança Interna), a polícia política do regime, que vai interrogar os três homens. À fento do interrogatório está um tal Javad Charaki (Ali Bagheri).

O filme mistura do princípio ao fim traços de documentário e um clima de ficção, realidade e mistério.

Haghighi já foi várias vezes convidado para a Berlinale. Em 2006 com o filme “Men at Work” e em 2012 com “Modest Reception”. Desta vez, recorreu a linguagens cinematográficas diferentes:

“Há uma certa flexibilidade no perfil neste filme. Tem algo de Philippe Marlow, há também Júlio Verne e Tintin, há elementos de ‘filmes de cowboys’ e do ‘Film Noire’. Aparece tudo misturado e a ideia é ver o que acontece quando misturas referências e tipos de cinema diferentes.”

“Vem aí o Dragão !” recorre a um certo surrealismo e ironia que fazem pensar também a alguns dos dramaturgos mais influentes do século passado. Haghighi confessa que colheu inspiração de Beckett, Ionesco, Pinter, para “sugerir a procura de algo que não está lá, mas que pode a qualquer momento mostrar a cabeça”.

A forma como o filme passa de um estilo a outro, misturando constantemente realidade e ficção, revela uma atitude muito particular de Mani Haghighi quando aborda a história recente do Irão. O realizador reconhece o peso das memórias dos tempos anteriores à revolução e constata que a vida nos faz perceber que “nem tudo aquilo que considerávamos importante até determinado momento, é assim tão verdade quanto quisemos acreditar”.

“Vem aí o Dragão !” integrou a mostra de Berlim como filme de encerramento da competição internacional. O Festival de Berlim dá um grande apoio ao cinema iraniano muito. Este ano houve quatro filmes iranianos em várias secções do programa. No ano passado o filme iraniano “Taxi”, de Jafar Panahi ganhou o primeiro prémio, mas o cineasta não foi autorizado a sair do país para participar do festival.

Em 2010 o Irão impôs a Panahi a interdição de fazer filmes por 20 anos e o realizador foi condenado a seis anos de prisão por “propaganda contra o sistema”. A pena foi depois comutada para prisão domiciliar, mas continua proíbido de deixar o país, de filmar ou escrever guiões. Sobre a censura, Haghighi admite que “É muito complicado, é uma situação muito complexa”, e acrescenta que se trata de “um labirinto no qual cada um tem de encontrar o caminho”, o que pode ser possível, com “alguma esperteza e um bocado de sorte”.

A história de “Vem aí o Dragão !” é o resultado da perceção e interpretação de diferentes realidades que se sobrepõem. O dragão que dá o título ao filme, tem o poder de fazer as pessoas falar em línguas estrangeiras. Ao recorrer a uma mistura de referências e tramas secundários, Mani Haghighi optou por um caleidoscópio de linguagens cinematográficas. Tudo isto para nos deixar diante de uma avalanche de imagens, como numa viagem na montanha-russa.