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"Os líderes europeus abandonaram a ideia da Turquia entrar na União Europeia"

O falhanço de Bruxelas sancionar a violação da liberdade de imprensa na Turquia “demonstra que os líderes europeus abandonaram a ideia de Ancara se

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"Os líderes europeus abandonaram a ideia da Turquia entrar na União Europeia"

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O falhanço de Bruxelas sancionar a violação da liberdade de imprensa na Turquia “demonstra que os líderes europeus abandonaram a ideia de Ancara se tornar membro da União Europeia”. A afirmação pertence a Cengiz Aktar, investigador do Centro de Política de Istambul, que diz que a liberdade dos media no país é a pior no espaço de uma geração.

O maior jornal da Turquia, o Zaman, “foi tomado de assalto” pelas autoridades na semana passada, deixando apenas alguns jornais fora da tutela do governo. Cengiz Aktar falou connosco sobre o assunto.

Qual o grau da falta de liberdade de imprensa na Turquia?

Cengiz Aktar afirmou à Euronews: “Os últimos dois anos foram desastrosos, no que diz respeito à liberdade de imprensa e liberdade da internet.”

“Nove canais de televisão foram encerrados ou obrigados a serem fechados e inúmeros jornais foram controlados pelo governo”

Os Repórteres Sem Fronteiras (RSF) anunciaram que a Turquia tem um registo catastrófico sobre a liberdade de imprensa e que os últimos dados colocam o país entre as piores ditaduras e cenários onde jornalistas são assassinados todos os dias.

Johann Bihr, diretor da secção do leste europeu e da Ásia central da RSF, afirma: “hoje o maior problema da liberdade de imprensa na Turquia é a deriva autoritária do país, em particular do presidente Erdoğan”.

“Ele tem sido cada vez mais intolerante em relação a qualquer tipo de criticismo. Nos últimos anos todo o espetro político dos media da oposição tem estado na mira das autoridades”.

Johann Bihr afirma que a repressão tem tido como objetivo a imprensa crítica do governo, fazendo com que importantes eventos não tenham sido cobertos, como os protestos no parque Gezi em 2013.”

“A guerra está a ser devastadora mas acontece bastante longe do escrutínio da imprensa”, afirmou Bihr, fazendo referência ao conflito entre as autoridades turcas e o PKK no sudeste do país. “Os jornalistas são proibidos de cobrir os confrontos. Jornalistas são detidos todas as semanas quando tentam reportar o que está a acontecer no terreno.”

Líderes europeus deixaram cair a ideia da adesão da Turquia à UE

A Turquia, que esteve em Bruxelas na segunda-feira (7 de março), a discutir a crise migratória, iniciou negociações para aderir à União Europeia em 2005.

E a presença do primeiro-ministro Ahmet Davutoglu no coração da Europa acontece logo depois do governo ter tomado controlo do jornal Zaman.

O professor Cengiz Aktar critica os líderes europeus por não terem responsabilizado a Turquia.

Ele afirma que “de facto eles estão mais interessados em fechar os olhos sobre o que se está a passar na Turquia e demonstra, para mim e outros liberais turcos, que a Europa deixou cair por completo a ideia de uma futura adesão do país à UE.”

“Caso contrário, deveria ter atuado de uma forma diferente e teria sido mais dura com Ancara. Dizer que a ação não corresponde aos valores europeus não é suficiente para convencer Ancara.

“A minha conclusão é que eles já deixaram cair esse projeto há muito tempo e devem estar muito satisfeitos, pois o regime de Erdoğan foi o único que fechou completamente as portas a uma ideia da Turquia na UE. Se ela entrasse, teria provocado problemas a muitos europeus, especialmente os Cristãos Democratas e outros, como Sarkozy em França, que, desde o início, se mostravam bastante descontentes com a possível adesão da Turquia.

“Simplesmente terrível”

Johann Bihr disse que a crise de refugiados e influência regional turca, no que diz respeito à guerra na Síria, é uma razão relevante para Erdoğan não ser responsabilizado”.

E acrescenta: “Por estes dias, o que estamos a ver é basicamente a União Europeia a ceder à chantagem de Erdoğan sobre os refugiados, o que é algo simplesmente terrível.

“Parece que a balança do poder está a pender para o lado da Turquia ou, no mínimo, não existe vontade de Bruxelas para fazer da liberdade de imprensa um pilar importante no relacionamento com Ancara”.

“Claramente, a pressão internacional não é suficiente. Nós percebemos perfeitamente o contexto regional e o quanto a comunidade internacional precisa da Turquia, em relação à Síria e à crise migratória, mas isso não nos deveria tornar cegos”.