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Os refugiados "são pessoas reais e estão a morrer ao fazer esta viagem"

Todos os dias, desde 1 de janeiro de 2016, chegam duas mil pessoas à costa grega. A este ritmo, espera-se que o número de pessoas que chega a este

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Os refugiados "são pessoas reais e estão a morrer ao fazer esta viagem"

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Todos os dias, desde 1 de janeiro de 2016, chegam duas mil pessoas à costa grega. A este ritmo, espera-se que o número de pessoas que chega a este país vindas por mar, desde janeiro de 2015 a meados de março de 2016, atinja o milhão.

Depois de terem esperado dias a fio, na costa da Turquia, ali mesmo ao lado, os refugiados partem em barcos pneumáticos. O número de mulheres e crianças, muitas vezes bebés, é cada vez maior. O número de passageiro é grande, e as embarcações pequenas, o que aumenta o risco destas se virarem e, consecutivamente, de afogamentos.

Segundo a Organização Internacional para as Migrações, cerca de 130.000 pessoas chegaram por mar à Grécia e a Itália, só este ano. Quatrocentas e dezoito pessoas morreram ou estão desaparecidas.

A Grécia ultrapassa, largamente, Itália, a travessia do Mediterrâneo, com partida da Líbia, pode ser mais perigosa do que a do Egeu…

Ainda assim, o número de mortos neste início de 2016 é, ligeiramente, mais baixo que em igual período de 2015. Não obstante, nas primeiras 9 semanas deste ano 77 crianças morreram no mar Egeu, o que significa mais de uma morte por dia.

O drama continua três meses depois da Turquia se ter comprometido a ajudar a União Europeia a enfrentar a pior crise migratória no seu território desde 1945. Mas talvez Ancara precise também de ajuda para lidar com os mais de um milhão e setecentos mil sírios que estão refugiados no país.

O principal destino dos refugiados é a Alemanha que está a rebentar pelas costuras, devido ao número de refugiados que já recebeu, sem contar com os que ainda vão chegar, e que pretende, por isso, conter o fluxo de migração na Turquia. A Chanceler Merkel reuniu-se com o Primeiro-ministro turco Ahmet Davutoglu em Ancara, a 08 de fevereiro. Três dias depois a NATO dava luz verde a uma operação de vigilância no Egeu:

“Não queremos parar ou empurrar os barcos dos refugiados. A NATO vai contribuir com informação sensível e ajudar a combater o tráfico humano e as redes criminosas”, afirmou o Secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg.

A missão da NATO será realizada em cooperação com a guarda costeira. Mas, para já, os três navios que enviou ainda não estão em águas territoriais turcas. Aguarda-se autorização de Ancara ainda que a Turquia vá dizendo que não está a atrasar a missão. A questão da área de operações é muito sensível para Turquia e Grécia cujas costas distam, por vezes, apenas dez quilómetros.

A euronews falou com Bruce Reid, Presidente da Federação Internacional de Resgate Marítimo, sobre a questão dos perigosos e desafiantes salvamentos que estão a ser realizados no Mediterrâneo e no mar Egeu.

Paul McDowell, euronews:

Pode dar-nos uma noção dos desafios específicos que enfrentam as equipas de busca e salvamento no sul e leste do Mediterrâneo?

Bruce Reid:

Penso que aquilo a que estamos a assistir no Mediterrâneo, é algo sem precedentes, operações de busca e salvamento marítimo, de um grande número de pessoas, que tenta atravessar o mar em embarcações instáveis, normalmente sobrecarregadas e que estão, realmente, a levar os serviços de resgate ao limite.

Euronews:

Quer ajudar os governos e as instituições a trabalharem em conjunto na questão do resgate. Isso terá de ser feito num contexto jurídico. Quão difícil será consegui-lo?

Bruce Reid:

As pessoas precisam estar cientes, particularmente, as organizações não-governamentais que se dirigem para estas águas, de que um país é responsável por essas águas. Ele tem a responsabilidade legal de busca e salvamento e do espaço marítimo, por isso, qualquer atividade realizada deve ser coordenada no âmbito dessas estruturas e é nessa área que estamos a trabalhar com as ONGs para se certificarem de que estão, intimamente, ligadas à guarda costeira helénica, que entende o que eles estão a fazer.

Eles tentam trabalhar de forma profissional, essa é a chave. Precisamos garantir que as equipas de resgate são mantidas em segurança, mas também quem está a ser resgatado.

Euronews:

Há um argumento forte de que os recursos devem ser canalizados para cortar o problema pela raiz e não ser aplicados em operações de resgate…

Bruce Reid:

O nosso objetivo é certificarmo-nos de que, se essas pessoas continuarem a atravessar o mar – e esperamos, provavelmente, até um milhão este ano, que vai chegar através do Mar Egeu – queremos ter a certeza de que há uma capacidade de resposta quando as pessoas estão em perigo.

Por isso, estamos a realizar uma missão com as nossas ONGs para ajudar a desenvolver a capacidade de resposta das equipas de resgate helénicas. Estamos à procura de uma doação de 10 a 12 barcos, para os próximos 12 meses, com equipamento de treino, para que essas comunidades possam responder.

Euronews:

Com as imagens quase diárias do que está a acontecer na fronteira grega e em Calais terá a difícil situação dos que tentam atravessar por mar deixado de ser prioridade?

Bruce Reid:

Esse é o grande risco porque, no momento, não estamos a ouvir falar no número de pessoas que são resgatadas no Mediterrâneo. Precisamos manter-nos focados, é por isso que estamos a trabalhar em conjunto com as ONGs para ir lá ao fundo, ajudar a melhorar a capacidade dos serviços de busca e salvamento e de voluntários no terreno.

Se não fizermos isso, se não conseguirmos acompanhar o que está a acontecer no terreno, os media vão interessar-se por outros assuntos e esta tragédia que está a acontecer vai continuar. Por isso, precisamos ter certeza de que há um foco contínuo sobre o trabalho que está a ser feito, na necessidade de esforços contínuos para melhorar o desempenho dos serviços de salvamento no mar Egeu e nas águas ao largo da Líbia porque, caso contrário, essas pessoas serão esquecidas. São pessoas reais e muitas delas estão a morrer ao fazer esta viagem.

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