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Conquista de Marte pode ser adiada

A segunda fase da missão conjunta da Europa e Rússia Exomars, que deveria ser lançada em 2018, pode ter de ser adiada em dois anos por problemas financeiros.

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Conquista de Marte pode ser adiada

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Exomars é uma missão conjunta da Europa e da Rússia, em duas fases, que deve permitir um conhecimento de Marte muito maior. Os cientistas vão tentar responder à questão que se coloca há muitos séculos: Se existe, ou pelo menos se já existiu, vida em Marte.

A primeira fase arranca já esta segunda-feira, com o lançamento da sonda TGO, iniciais de Trace Gas Orbiter. Não tem este nome por acaso, já que o principal objetivo da missão é procurar a existência de gases, nomeadamente metano, no planeta vermelho.

O metano é um sinal de existência de atividade biológica. Se há resíduos de metano na atmosfera marciana, é bem possível que, num determinado momento da história, tenha havido vida no planeta.

A viagem vai durar sete meses, até que a sonda possa deixar na superfície marciana o módulo Schiaparelli, que vai fazer vários testes de aterragem, enquanto a sonda faz vários estudos da atmosfera, com a ajuda de uma câmara e um espetrómetro.

É uma missão ambiciosa. Como tal, custa caro. O orçamento total ainda não está definido, mas Jan Wörner, presidente da Agência Espacial Europeia (ESA), já disse que a missão precisa de mais dinheiro.

Vai ser pedido um maior esforço financeiro aos países europeus que participam na missão – Itália, Reino Unido, França e Alemanha. A questão do financiamento vai ser primordial na próxima conferência de ministros da ESA, em dezembro.

Wörner tem já um plano B em mente, que é atrasar em dois anos a segunda fase, que deveria ser lançada já em 2018.

E no que consiste essa segunda fase? A ideia é lançar um robô para explorar a superfície de Marte. Este veículo, do tamanho de um pequeno automóvel, tem como principal função procurar o rasto de uma vida que possa ter existido no planeta.

A grande vantagem deste robô em relação àqueles que estão neste momento no planeta, o Opportunity e o Curiosity, é que tem uma perfuradora capaz de penetrar até dois metros no solo, o que pode ser crucial na recolha de dados sobre a composição do solo marciano.

Até agora, os robôs que têm explorado Marte só conseguem penetrar dez ou, no máximo, 15 centímetros.

Entrevista

Jeremy Wilks, euronews:

Será que a missão ExoMars vai conseguir provar, de uma vez por todas, que já houve vida em Marte? Para responder a esta pergunta e explicar-nos porque é que este lançamento é tão importante para a ciência convidámos umas das maiores especialistas do Planeta Vermelho, a professora Cathy Quantin-Nafat, da Universidade de Lyon. Cathy, a ExoMars vai provar que há vida em Marte?

Cathy Quantin-Nataf:

Espero bem sim. Em qualquer caso há meios técnicos e instrumentais para responder a esta questão, se há ou se já houve vida em Marte.

euronews:

Que tipo de pistas temos agora, que indicações temos acerca da vida?

Cathy Quantin-Nataf:

Atualmente, na superfície de Marte é muito difícil de viver da forma como conhecemos a vida hoje. Pensamos que no passado as condições eram bastante favoráveis. É por isso que estamos obcecados pela habitabilidade, pelas condições favoráveis à emergência de vida. Estamos um pouco na fase, de saber se podemos ter vida hoje e se houve no passado.

euronews:

O que é que a missão Exomars 2016 tem de diferente?

Cathy Quantin-Nataf:

Esta missão está verdadeiramente focada nos traços de vida. Até ao momento, as missões eram verdadeiramente focadas na habitabilidade e na emergência de vida. Nesta é realmente sobre os traços de vida. Esta missão está focada na atmosfera, nos índices na atmosfera de uma vida microbiana, agora ou no passado.

euronews:

O que é que pensa sobre isso? Pensa que agora há vida em Marte?

Cathy Quantin-Nataf:

Atualmente os cientistas não podem dizer nem sim, nem não.

euronews:

Há uma possibilidade?

Cathy Quantin-Nataf:

Há uma possibilidade de existir vida em Marte. E há uma possibilidade, que pensamos ser forte, de ter existido vida no passado.

euronews:

Os cientistas procuram vestígios de metano, porque é que é tão importante?

Cathy Quantin-Nataf:

Porque há atividades microbianas que produzem metano. É por isso que pode ser um vestígio de uma atividade microbiana. Contudo, não é apenas a atividade microbiana que produz metano. Há também processos geológicos totalmente abióticos, sem vestígios de vida. O Trace Gas Orbiter (TGO) vai permitir analisar se o metano tem origem biológica ou se é de origem geológica.

euronews:

Há atualmente metano na atmosfera de Marte?

Cathy Quantin-Nataf:

Bem, houve algumas deteções. Em raros momentos foi detetado metano na atmosfera há já alguns anos. Tentamos compreender porquê. Se era ligado a uma atividade biológica ou não. Ainda não temos exatamente a resposta. Mas de vez em quando há metano na atmosfera de Marte e não sabemos de onde vem.

euronews:

Qual é verdadeiramente o significado da missão ExoMars para a vossa equipa?

Cathy Quantin-Nataf:

O de tentar responder à questão se o nosso planeta foi o único em que a vida apareceu. É a grande questão da Exomars que espero que ela consiga responder: surgiu vida noutro planeta além da Terra?