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Minas terrestres regressaram à Ucrânia

O regresso das minas terrestes, aos milhares, é um retrocesso após décadas de esforços internacionais para erradicar esta arma que mata indiscriminadamente.

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Minas terrestres regressaram à Ucrânia

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No dia 10 de fevereiro de 2016, Andriy Kostenko, 45 anos, dá de caras com um engarrafamento provocado por um controlo militar na estrada que liga Luhansk a Marinka.

Point of view

O custo médio de produção de uma mina ronda os 2 dólares. Para remover e desarmar a mesma mina, o custo roça os 1000 dólares.

Apressado, tenta contornar o problema e acelera pela berma. Momentos depois, a carrinha atinge uma mina, que rebenta. Kostenko e dois passageiros morrem no local.

Os óbitos elevam o número de vítimas mortais de minas terrestres na Ucrânia para mais de 260, em menos de dois anos de conflito, que opõe fiéis do governo de Kiev a milícias pró-Moscovo.

No mesmo período, 479 civis ficaram gravemente feridos ou sofreram amputações em resultados de acidentes em terrenos minados.

Ninguém sabe qual das partes em conflito terá dissimulado mais minas no território ucraniano.

A maior parte dos locais em que foram enterradas não foi registado e para as restantes à apenas toscos mapas indicativos feitos por quem as colocou.

O regresso das minas terrestes, aos milhares, é um retrocesso após décadas de esforços internacionais para erradicar esta dissimulada forma de matar indiscriminadamente.

A Ucrânia entrou assim na lista de 11 países onde continuam a ser enterradas minas, juntando-se a Afeganistão, Colômbia, Coreia do Norte, Iémen, Iraque, Líbia, Myanmar (antiga Birmânia), Paquistão, Síria e Tunísia.

Já passaram mais de 10 anos desde a assinatura de um tratado internacional para erradicar o uso de minas antipessoais e eliminar os arsenais existentes. A Ucrânia foi um dos países signatários

Em setembro de 2014, as partes em conflito na Ucrânia assinaram um acordo para alargar as restrições a todo o tipo de minas. Mas, os termos do texto são ambíguos e dados a diferentes interpretações. Resultado: dispositivos explosivos continuam a ser dissimulados nas terras, em especial no leste da Ucrânia e a desminagem continua a ser uma miragem.

À euronews, o exército ucraniano admitiu, pela primeira vez, estar a espalhar tanto minas antipessoais como antitanque no leste do país. Tudo indica que os rebeldes há muito que fazem o mesmo. Independentemente do desfecho do conflito, o legado deste confronto vai ceifar vidas ao longo das próximas décadas.

Cronologia

* Dezembro de 2005: o Tratado de Otava proibe o uso de minas antipessoais. 162 países, incluindo a Ucrânia, assinam a convenção e prometem ainda remover e destruir as existentes. Rússia, Estados Unidos e China foram algumas das nações que não subscreveram o tratado. * Abril de 2014: arranque do conflito na Ucrânia * Setembro de 2014: São assinados os primeiros acordos de Minsk, que preveem a suspensão da instalação de minas e a remoção e destruição das que já foram colocadas. * Março de 2016: O arsenal estimado de minas antipessoais na Ucrânia anda ainda à volta de 5 milhões e Kiev admite estar a usá-las nos territórios que controla no leste.

Os acordos internacionais e internos continuam as ser letra morta. As partes acusam-se mutuamente de a palavra dada não estar a ser cumprida num conflito que continua sem fim à vista.

Sinais, panfletos e wc’s portáteis

Remover as minas terrestres é um pau de dois bicos, até porque as forças rebeldes são fiéis a Moscovo, que não assinou o Tratado de Otava.

Os únicos esforços reais para remover e destruir estas armas só acontecem em áreas onde é necessário reparar infraestruturas, como canalizações, redes elétricas ou ferroviárias

*“O custo médio de produção de uma mina ronda os 2 dólares. Para remover e desarmar a mesma mina, o custo roça os 1000 dólares”, refere Matthias Weinreich, do Comité Internacional da Cruz Vermelha (ICRC, na sigla em inglês).

No curto prazo, a alternativa mais realista poderá ser investir na prevenção dos perigos junto da população local.

A União Europeia, a Cruz Vermelha e a OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa) estão a trabalhar em conjunto em campanhas de informação. Kiev está a recorrer a uma sinalética específica e a marco para assinalar campos de minas.

A Cruz Vermelha instalou mesmo casas de banho portáteis junto a postos de controlo, que se sabe estarem rodeados por minas. O objetivo é que as pessoas não arrisquem deambular por campos minados quando necessitam aliviar-se.

Mesmo quando a guerra acabar, será muito difícil ter a garantia que um dado terreno está livre de minas.

Em última análise, o maior problema não será o dinheiro necessário para a desminagem, mas a logística que o processo implica.

Como o político e blogger de assuntos militares Dmytro Tymchuk afirma: “As minas são essencialmente o sinal da falta de confiança entre nós e os outros”.