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O sírio que explora o sírio na Turquia

O Insiders foi até à Turquia revelar o esquema montado por traficantes – muitos dos quais, sírios – para fazer dinheiro com percursos de vida

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O sírio que explora o sírio na Turquia

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O Insiders foi até à Turquia revelar o esquema montado por traficantes – muitos dos quais, sírios – para fazer dinheiro com percursos de vida trágicos.

Muitos dos que chegam à Turquia para tentar entrar clandestinamente na Europa dirigem-se ao bairro de Aksaray, em Istambul. Abu Khaled é um contrabandista sírio. Pediu-nos para não ser filmado. Ele controla uma rede de 15 passadores que transportam migrantes da Grécia para a Bulgária.

Abu Khaled vai ao encontro de um colaborador que lhe traz alguém que pretende alcançar solo grego. “Sou eu, a minha mulher, os meus quatro filhos, o meu irmão, a mulher dele e os seus dois filhos”, diz o “cliente”. Informam-no que os podem levar de Istambul até à fronteira para depois andarem duas horas a pé. O custo? 2300 euros. “As crianças não deviam contar”, responde. Sem efeito.

Quando perguntamos mais detalhes sobre a operação, a resposta foi esta: “Ninguém vos vai explicar como é que funcionamos. Não vos posso dar pormenores sobre o meu trabalho. Ainda acabo preso…”

Na cidade costeira de Esmirna, é na zona de Basmane que os migrantes e refugiados esperam que o tempo melhore para fazer a travessia marítima rumo à Grécia. A mesquita local é um dos pontos de encontro com os contrabandistas. Abu Mohammed e a família fugiram de Raqqa, o bastião sírio do autoproclamado Estado Islâmico.

Os intermediários não se escondem quando angariam passageiros para a próxima embarcação a partir. Alguns deles, como Abdu, são também sírios. Quando anuncia a Abu Mohammed que cada pessoa transportada representa um custo de 550 dólares, este franze a testa. Abdu contrapõe: “Os outros levam 700 dólares. O dinheiro não é para mim, é para o patrão, percebes? Nós pagamos o hotel, os barcos… Está tudo organizado. Se o tempo estiver bom, faz-se a viagem. Se não, não vamos arriscar pôr 35 pessoas num barco insuflável.”

Abdu conta-nos que recebe “25 dólares por cada pessoa. O resto vai tudo para os grandes traficantes. Na maioria, são turcos e sírios. Eles não saem da sombra, podem ir parar à prisão. Há muitos controlos, cada vez mais enfrentamos mais dificuldades a levar as pessoas.”

No dia em que filmámos, não vimos qualquer controlo policial. Acompanhámos Abu Mohammed e o intermediário a uma loja onde os refugiados e migrantes podem depositar o dinheiro da viagem, que assim fica guardado até chegarem ao destino. O proprietário do estabelecimento pede um código ou uma palavra-passe para que, mais tarde, o traficante possa levantar o dinheiro. “E se ele não chegar à Grécia?”, perguntamos. “O dinheiro fica aqui para o caso de ele regressar. Pode vir buscá-lo 30, 40, 50 dias depois”, respondem-nos.

Segundo Abdu, “se o cliente não quiser depositar o dinheiro nestas lojas, pode deixá-lo com familiares. É uma questão de ligar-lhes quando chegar à Grécia e dizer-lhes para entregar o dinheiro ao passador. Se ele não chegar à Grécia, faz-nos saber e não recebemos nada.” O que não nos explicam é o destino do dinheiro se houver um acidente mortal no mar, por exemplo.

“Há traficantes que pedem 600, 700 dólares; outros, 550. Prometem que nos levam hoje ou amanhã. Mas depois o tempo está sempre mau. Andam todos a enganar-nos. Há gente a quem roubaram 15 mil dólares, a outros levaram 20 mil”, afirma Abu Mohammed. Quando viemos embora de Esmirna, ele continuava à espera de encontrar alguém em quem pudesse confiar o dinheiro que conseguiu trazer para salvar a família.