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Presidente búlgaro: "Não podemos aceitar que o Kremlin viole as leis internacionais"

A Bulgária é um dos países na linha da frente da problemática dos migrantes e refugiados. Este país, vizinho da Turquia e da Grécia, aderiu à NATO em

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Presidente búlgaro: "Não podemos aceitar que o Kremlin viole as leis internacionais"

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A Bulgária é um dos países na linha da frente da problemática dos migrantes e refugiados. Este país, vizinho da Turquia e da Grécia, aderiu à NATO em 2004 e passou a integrar a União Europeia em 2007. Apesar dos fortes laços históricos com a Rússia, Sófia tem criticado abertamente as ações na Ucrânia. O presidente búlgaro, Rosen Plevneliev, que foi recentemente galardoado em Kiev com o prémio nacional “Personalidade do Ano”, foi o nosso convidado neste Global Conversation.

Andrei Beketov, euronews: Este prémio foi-lhe atribuído, passo a citar, pelo seu “contributo na defesa da soberania da Ucrânia”. Mas a Rússia continua na Crimeia e dificulta a aproximação da Ucrânia à União Europeia…

Rosen Plevneliev: É evidente que considero o comportamento da Rússia preocupante. Não apenas no que diz respeito à Ucrânia, mas em geral. A Rússia tem afirmado claramente as suas ambições enquanto potência mundial e deixado bem explícito que os seus interesses têm de ser respeitados. No meu entender, é uma política profundamente errada que pertence ao século 19. Não são os exércitos e as armas nucleares que tornam as nações fortes. No século 21, é o sucesso do povo que faz a força de uma nação.

euronews: Outras personalidades distinguidas na Ucrânia foram o Papa João Paulo II, os presidentes da Polónia, da Geórgia e da Lituânia, e ainda o senador americano John McCain. Como é que se posiciona no interior deste grupo?

Rosen Plevneliev: Eu quero promover relações amigáveis com toda a gente, incluindo a Rússia. Gosto da música de Tchaikovsky, gosto dos livros de Dostoievsky, gosto da cultura russa, do povo russo… Mas, enquanto democratas, não podemos aceitar que o Kremlin viole a ordem e as leis internacionais. Não podemos pactuar com guerras frias.

euronews: A Rússia é tradicionalmente um mercado muito importante para a Bulgária. Qual é a dimensão das perdas após a aplicação do embargo por parte da União Europeia?

Rosen Plevneliev: As perdas são significativas. Basta olhar para a agricultura búlgara ou para o turismo. Mas a Bulgária defende a aplicação dessas sanções. O dinheiro não pode ser um fator quando se toma uma decisão política corajosa para evitar mais instabilidade no futuro.

euronews: E no que diz respeito ao abastecimento energético?

Rosen Plevneliev: Nós somos muito dependentes do gás russo. Mas estamos a trabalhar em soluções alternativas. O gasoduto entre a Bulgária e a Roménia está prestes a ser terminado. Temos também um acordo com os nossos amigos gregos para fazer outra ligação. Um dos motores da integração europeia é a união energética.


Biografia de Rosen Plevneliev

  • Rosen Plevneliev nasceu a 14 de maio de 1964 na cidade de Gotse Delchev
  • É licenciado em Engenharia Informática pela Universidade Técnica de Sófia
  • Entre 1990 e 1998, criou a Iris International Ltd. e geriu mais de 80 projetos de construção na Alemanha
  • Tornou-se ministro do Desenvolvimento Regional e Obras Públicas após as eleições legislativas de julho de 2009
  • Foi eleito Presidente da República em outubro de 2011, é o quarto chefe de Estado búlgaro escolhido democraticamente

euronews: O prémio ucraniano foi também justificado pelo seu “respeito pelos valores europeus”. Após todos os apelos à solidariedade que foram feitos, está a Bulgária disposta a aceitar as quotas de migrantes que a União Europeia pode impor?

Rosen Plevneliev: Sim, concordamos com a fórmula de redistribuição de migrantes e vamos acolhê-los. Pretendemos contribuir para uma solução conjunta.

euronews: A Human Rights Watch tem denunciado abusos e violência contra refugiados nas fronteiras búlgaras…

Rosen Plevneliev: Se a Human Rights Watch ou as Nações Unidas nos assinalarem esses casos, as instituições búlgaras vão tomar medidas muito sérias.

euronews: Concorda com o acordo entre a União Europeia e a Turquia para acelerar as negociações para a adesão e a liberalização de vistos para cidadãos turcos?

Rosen Plevneliev: Não é construindo um castelo com grandes muralhas, sem querer saber do que se passa à volta, que se garante a segurança. É uma estratégia profundamente errada.

euronews: E, no entanto, está a construir uma vedação de arame farpado na fronteira com a Turquia…

Rosen Plevneliev: A Bulgária está a construir parte de uma vedação temporária que serve fins temporários.

euronews: A adesão ao espaço Schengen faz sentido enquanto durarem essas medidas temporárias?

Rosen Plevneliev: Eu sou completamente contra a construção de muros entre os Estados-membros europeus. Schengen representa o sonho de 500 milhões de europeus de poderem viajar sem fronteiras.

euronews: Os problemas internos da Bulgária podem também dissuadir os migrantes. Trata-se do país mais pobre da União Europeia. A Comissão Europeia está constantemente a alertar para os problemas no combate contra a corrupção, na lentidão dos progressos feitos na luta contra o crime organizado…

Rosen Plevneliev: A Bulgária tem tido uma evolução notável. Há 15 anos, o PIB per capita era 27% da média europeia. Mas hoje em dia já estamos a 47%…

euronews: Mas as pessoas continuam a emigrar…

Rosen Plevneliev: Não posso impedi-las, são livres. E depois também dão um contributo à sua pátria. Nós mantemos laços muito fortes com os nossos emigrantes. O país está a desenvolver-se, a modernizar-se. Eles vão acabar por regressar.

euronews: Os búlgaros e outros europeus de Leste têm muitas vezes um acolhimento difícil em países como a Alemanha ou o Reino Unido…

Rosen Plevneliev: Há divisões que assumem diferentes formas. A crise dos migrantes, por exemplo, está a dividir a União Europeia entre o Este e o Oeste da Europa. Os países da Europa Ocidental afirmam-se como “democracias históricas que não aceitam o facto de haver países do Leste da União Europeia que recusam receber refugiados”. Por outro lado, se olharmos para a crise económica, a divisão acontece entre o Norte e o Sul. Mas, apesar de todas estas divisões, a maior crise que enfrentamos, e que nos vai destruir a todos, é a crise dos valores morais, a falta de solidariedade no seio da União Europeia, o facto de termos esquecido quem somos, as lições que não aprendemos com a História.

euronews: Perante esse cenário, aconselharia a Ucrânia a juntar-se?

Rosen Plevneliev: Tenho a certeza que é o que vai acontecer, mais cedo ou mais tarde. A integração europeia é um processo que serve para modernizar, para restabelecer o Estado de direito, para combater a corrupção e criar instituições que sirvam o povo, não os oligarcas. Era isso que gostava de ver na Ucrânia.

euronews: Se a União Europeia enfraquecer, a Bulgária pode virar-se de novo para a Rússia?

Rosen Plevneliev: Eu vivi 25 anos de Comunismo. E sei o que é estar do lado de fora da União Europeia, sei o que é estar sozinho. Ou ser apenas um subordinado de uma potência mundial como a União Soviética. Eu não quero que isso volte a acontecer. Quero ver a Bulgária como um Estado-membro da União Europeia orgulhoso de o ser. É a única forma de garantirmos a nossa prosperidade e a segurança.