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Filipe Nyusi: "Procuramos uma colaboração do FMI para encontrarmos soluções"

De visita ao continente europeu, o presidente moçambicano reconheceu a importância de “criar condições” para superar episódios de desconforto com o

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Filipe Nyusi: "Procuramos uma colaboração do FMI para encontrarmos soluções"

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De visita ao continente europeu, o presidente moçambicano reconheceu a importância de “criar condições” para superar episódios de desconforto com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Filipe Nyusi mostrou-se otimista em relação a um entendimento entre o país e o FMI, que cancelou o pagamento de uma segunda tranche (155 milhões de dólares) do empréstimo a Moçambique.

A tensão intensificou-se, ao que tudo indica, no quadro de escândalos financeiros, em que o Governo moçambicano terá dado “luz verde”, de acordo com o jornal “Financial Times”, a um terceiro empréstimo a uma empresa pública, além dos créditos concedidos à Empresa Moçambicana de Atum (EMATUM) e à Proindicus. O FMI fala em empréstimos alegadamente escondidos e cancelou uma visita prevista para o país.

No arranque de uma semana intensa, Filipe Nyusi esteve em Berlim, a convite da chanceler alemã, Angela Merkel, e o périplo prosseguiu na Bélgica, onde se encontrou com representantes das instituições europeias e da comunidade empresarial local.

Em entrevista à Euronews, o chefe de estado falou da situação financeira, da tensão político-militar, mas também das ambições para o desenvolvimento da economia moçambicana.

Pedro Sacadura, euronews – Iniciou um périplo pelo velho continente, em que passou por Berlim. Esta visita à Alemanha deixa entender que existem boas relações entre Berlim e Maputo. Em que é que isto se pode traduzir em termos de incentivos para desanuviar a economia moçambicana?

Filipe Nyusi, Presidente de Moçambique – No ciclo que estamos a governar a nossa filosofia foi sempre aproximar mais o nosso país ao mundo, neste caso a Europa. Estamos numa empreitada de diplomacia económica. Fomos à Alemanha com um grupo de mais de 40 empresários moçambicanos, precisamente para construírem parcerias. Temos uma cooperação muito grande. É um dos países que aparecem na atividade económica de Moçambique.

euronews – Este clima de relações que se verificam, por exemplo, entre Maputo e Berlim, é extensível a outros países? Encontra-se de visita a Bruxelas. O que é que espera obter?

Filipe Nyusi – É extremamente extensível. No ano passado fiz algumas visitas a países da Europa e agora encontramo-nos na Bélgica. Este país faz muito. Por exemplo, a indústria marítima. Basta imaginar o movimento que o porto de Antuérpia tem, a tecnologia do país. Temos uma cooperação também na área da saúde e do desenvolvimento humano.

euronews – Este périplo pelo continente europeu ocorre num momento particularmente tenso para Moçambique. Referiu, em Berlim, que o país aprendeu, de certa forma, uma lição com a queda do preço das matérias-primas, nomeadamente do petróleo, e que é preciso apostar na diversificação da economia. De que forma é que se poderia fazer essa diversificação e em que tipo de setores?

Filipe Nyusi – Moçambique sempre foi – não diria feliz porque ainda não atingimos os objetivos – mas sempre teve uma visão de diversificação. Há muitos que estão entusiasmados com o gás, que referem que podemos vir a ser um dos maiores produtores de gás do mundo, mas ninguém come gás. Do gás não se faz nada. Qualquer dia pode terminar. Existe a economia tradicional de Moçambique.

euronews – Em matéria de economia, as notícias recentes dão conta de que o Fundo Monetário Internacional cancelou uma tranche [no valor de 155 milhões de dólares] de apoio a Moçambique. Alegadamente tudo terá surgido e ter-se-á desenvolvido no quadro de escândalos financeiros. Qual o impacto para Moçambique a curto prazo?

Filipe Nyusi – Estamos a trabalhar no sentido de esclarecer. Estamos a encarar com frontalidade o problema, a reconhecer que existia esse problema em Moçambique. Estamos a abrir portas para que as coisas sejam compreendidas e estamos a procurar uma colaboração da parte do FMI para ver se encontramos soluções rapidamente de forma a voltarmos à vida normal. Mais do que nunca, neste momento, temos de dar o sinal de que nós próprios estamos interessados para que aqueles que estão a ajudar Moçambique possam ter o espaço para o fazer.

euronews- Acredita que o impasse vai ser superado?

Filipe Nyusi – Há interesse, com todos os parceiros com que estamos a comunicar. Não só a própria banca, mas os outros parceiros. Não há interesse de incriminar no sentido de dizer que existindo um problema o país desaparece.

euronews – De que forma é que se procura e se podem resolver problemas para a economia moçambicana como o caso da empresa EMATUM (Empresa Moçambicana de Atum)?

Filipe Nyusi – A dívida está reestruturada. Esperamos que as outras dívidas que possam surgir também sejam reestruturadas. Neste caso concreto foi a soberana. Vamos ver se se resolve. Aquilo que depender do setor privado terá que ser endossado ao setor privado para ter a responsabilidade própria. O importante é a atitude que o país toma. Quando encontro os países que apoiam Moçambique e que participam na economia estamos de forma direta e frontal a abordar estas questões.

euronews – No quadro da crise político-militar vivida em Moçambique, com acusações entre o Governo e a RENAMO (Resistência Nacional de Moçambique), que não reconhece o resultado das eleições em algumas províncias, como é que se pode superar o problema e avançar para um cenário de paz?

Filipe Nyusi – Por enquanto seria melhor falar em distúrbios militares ou em tensão militar.

euronews – Convidou o líder da RENAMO, Afonso Dhlakama, para um diálogo, e este condicionou as conversações à mediação do Governo sul-africano, da Igreja Católica e da União Europeia. Que papel é que a União Europeia pode ter neste processo?

Filipe Nyusi – Moçambique tem referências de comunicação. Já me reuni com o líder da RENAMO duas vezes, o que significa que pode haver a terceira vez ou quarta. Indiquei um grupo que deve preparar o encontro. Se se deve discutir como as coisas têm de acontecer por que não aceitar esse grupo que deve preparar os encontros.

euronews – Pode dizer-se que estão criadas as condições para um clima de paz?

Filipe Nyusi – Indiquei três pessoas credíveis para juntamente com a RENAMO discutirem o que deve acontecer. Depois disso é preciso colocar a matéria em cima da mesa.