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Aborto em Malta: Proibição aumenta ocorrência de problemas

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Aborto em Malta: Proibição aumenta ocorrência de problemas

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A jornalista da euronews Valérie Gauriat deslocou-se a Malta para realizar uma reportagem sobre o contexto que ali envolve a interrupção voluntária da gravidez. Este é o único país da União Europeia onde o recurso ao aborto é totalmente proibido. Este é também o país onde a taxa de ocorrência de defeito do tubo neural (DTN) nos recém-nascidos é a mais alta da UE e da Síndrome de Down é a segunda mais alta.

Reveja a reportagem em baixo e leia (ou assista no vídeo em cima) a entrevista com a jornalista sobre a realidade com que se deparou em Malta e as pessoas com quem falou sob anonimato acerca desta temática ainda tão controversa em pleno século XXI.


Sophie claudet, Insiders: Valérie, acabaste de voltar de Malta. Na tua reportagem, percebemos a dificuldade de se falar de aborto naquele país. Como convenceste as mulheres a falar dos abortos que fizeram e porque aceitaram?

Valérie Gauriat: Não foi nada fácil. Foi necessário tranquilizá-las muito, longas conversas por telefone, por “mail”, pelo Skype, pelo Facebook… Elas tinham de facto muito medo de falar. É claro que é difícil para qualquer mulher falar de aborto, seja legal ou não. A primeira coisa que tivemos de fazer foi comprometermo-nos, por escrito, a não revelarmos as suas identidades. Isso tranquilizou-as. Por outro lado, elas queriam falar. Queriam partilhar a experiência. O facto de eu ser uma jornalista estrangeira de uma cadeia internacional tornou-o mais fácil. Elas puderam falar para o mundo de uma experiência da qual nem podiam conversar com as próprias mães nem com as irmãs.
Quer dizer, então, que para algumas foi a primeira vez que falaram do aborto?

De facto, foi. A senhora que falou connosco — a que tinha feito um aborto pelos seus 40 anos — nunca o tinha contado a ninguém. Outra mulher com quem estivemos em contacto — que vive fora de Malta e não entra na reportagem —, ela aceitou falar connosco também sob anonimato mas porque nem o companheiro sabia do sucedido.


E em relação à médica que entrevistaste, ela nem sequer é ginecologista e, mesmo assim, não quis aparecer. Porquê?

De facto, não é ginecologista, mas ela explicou-me que só falar de aborto de uma forma que implique estar de acordo ou, mesmo, a favor de um singelo abrandamento da proibição seria arriscado. Poderia perder a licença ou, no mínimo, manchar a reputação e perder os pacientes.
Realizar ou apoiar a realização de um aborto acarreta penalizações.

Arrisca-se até quatro anos de prisão se se realizar um aborto. Mesmo só o facto de se aconselhar mulheres ou de alguma forma as ajudar a fazer um, para os profissionais médicos, isso acarreta penalizações.
Considerando que têm de levar a gestação até ao fim, porque existe uma proibição total de aborto, mesmo assim, as mulheres são examinadas durante a gravidez?

Claro que são. Malta é um país muito evoluído e disponibiliza todo o tipo de testes existentes em todos os outros países: ultrassons, ‘scans’, tudo… Podem fazer-se omniocenteses se se quiser. No entanto, foi-me dito que em alguns casos, não existe essa preocupação devido à proibição de aborto ou porque está para além do que acreditam ou conhecem.


Sendo o aborto proibido, existem em Malta mais casos de bebés com problemas do que noutros países europeus?

Isso, de facto, é o que mostram os números oficiais. A ocorrência do chamado Defeito do Tubo Neural tem a taxa mais alta da UE. Nos casos de Síndrome de Down, Malta surge em segundo, logo após a Irlanda e antes da Polónia, países onde as leis do aborto são das mais restritivas. As pesquisas deixam claro uma ligação entre a proibição do recurso ao aborto e a alta ocorrência destes defeitos de nascença.

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