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China: 50 anos da Revolução Cultural sem comemorações oficiais

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China: 50 anos da Revolução Cultural sem comemorações oficiais

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A Revolução Cultural de 1966 foi um dos episódios mais importantes na história da China, mas não se pense que este cinquentenário vai ser lembrado em Pequim: No governo chinês, reina o silêncio e não há quaisquer comemorações oficiais para celebrar o episódio protagonizado por Mao Tsé-Tung.

Este continua a ser um capítulo doloroso na história do país, com milhares de mortos. 1966 foi o início de dez anos de caos e carnificina. Mao quis então purificar o Partido Comunista e livrar o país dos intelectuais contrarrevolucionários.

Oficialmente, o Partido cortou com a Revolução Cultural pouco depois da morte de Mao, em 1976, com o julgamento do bando dos quatro, incluindo a viúva do líder. Isto sem afetar a imagem do Grande Timoneiro.

Com o livro vermelho de Mao em punho, dezenas de milhões de jovens lançaram-se numa caça às bruxas sem precedentes e sem piedade, contra todos aqueles que discordavam da linha do líder ou que poderiam levantar suspeitas. Muitas vezes, nem os pais e professores foram poupados. Duas gerações de intelectuais foram sacrificadas. 36 milhões de pessoas foram perseguidas. O número de mortes pode ter atingido 4 milhões.

Estes jovens, de entre 14 e 30 anos, tornaram-se a Guarda Vermelha, os guerreiros de Mao. Zhao Shunli era então um deles. Hoje, lembra esses tempos com nostalgia: “As reformas que se fizeram dos anos 80 para cá estão erradas, não trouxeram nada de bom ao país nem às nossas vidas. Não trouxeram qualquer desenvolvimento à economia nem à indústria”, diz.

Para historiadores como Zhang Lifan, são sobretudo os mais velhos e os ingénuos quem ainda acredita nos ideais de Mao: “Aqueles que sentem nostalgia da Revolução Cultural são, sobretudo, os mais velhos, trabalhadores reformados, funcionários do Estado no tempo de Mao. Na verdade, são ingénuos. Há um ditado que diz que ainda confiamos em quem nos enganou. O que é muito verdade, porque a sociedade atual é muito instável. A desigualdade na distribuição de riqueza deixa as pessoas descontentes e isso faz muita gente ter saudades de Mao Tsé-Tung”, explica o historiador.

No sul da China, encontramos um museu – o único em todo o país dedicado aos dez anos mais sangrentos que o país alguma vez viveu. São muitos os jovens que aqui vêm. Muitos, com poucos conhecimentos sobre este período. Quase todos têm dificuldade em imaginar que isto possa voltar a acontecer: “Penso que um passo em falso como este não vai voltar a acontecer. O nosso país, o nosso partido e a nossa liderança não vão voltar a ser guiados por ideias incorretas”, diz um estudante.

Para a atual nomenclatura, mexer no passado é o pior que se pode fazer: Esquecer a revolução cultural, sim, mas sem tocar no mito de Mao, que continua a fazer figura de pai da nação. O culto da personalidade parece, aliás, ter sido herdado pelo atual presidente Xi Jinping, ele próprio vítima, na juventude, dos excessos da revolução.

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