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Escócia: "Se sairmos da UE, saímos do Reino Unido"

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Escócia: "Se sairmos da UE, saímos do Reino Unido"

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Ficar ou sair? Ainda há pouco tempo, os escoceses viram-se perante um dilema idêntico. Só que nessa altura, no final de 2014, a decisão tinha a ver com a independência no seio do Reino Unido. Agora têm de escolher entre permanecer ou afastar-se do bloco europeu.

Gordon Castle situa-se no norte da Escócia. Os chamados Highland Games são um grande acontecimento desportivo que atrai gente de toda a região. As provas são, como não podia deixar de ser aqui, bastante robustas.

Perante o braço de ferro entre britânicos – cerca de metade quer continuar na Europa, a outra metade não -, o papel dos escoceses pode ser determinante. Dependendo das estimativas, 60% a 75% dos eleitores na Escócia deverão dar um voto favorável à permanência na União Europeia. É o caso dos Footerin’ Aboot, um grupo de jovens músicos.

“A Escócia não pretende sair. Mas a maioria dos ingleses vota nos partidos conservadores e quer retirar-se. Portanto, se o Reino Unido decidir afastar-se, vai haver um problema. A Escócia pode sair do Reino Unido , por sua vez. Se sairmos da União Europeia, saímos do Reino Unido…”, diz a violinista, Amber Thornley.

“Os escoceses têm todo o direito de ficarem zangados se o Reino Unido sair”

Macduff é uma pequena cidade portuária. Muitos dos pescadores locais, uma atividade em pleno declínio, dizem-se contra Bruxelas. Inúmeros jovens deixam a localidade para procurar um futuro melhor. Há quem atribua a culpa do empobrecimento de Macduff ao governo britânico, realçando que as coisas seriam muito piores se não fossem as ajudas da Europa. É o que nos diz Ross Cassie, do Partido Nacional Escocês, a principal força política aqui.

“É muito fácil ver o impacto que as ajudas da União Europeia tiveram em Macduff: basta olhar para o estaleiro naval que se encontra por detrás de mim. Foi possível, em parte, graças aos apoios europeus. Se o Reino Unido sair da União Europeia, este tipo de subsídios vai deixar de existir. As pequenas localidades como Macduff vão continuar no caminho do declínio, em vez de se desenvolverem”, declara.

Macduff tem lutado pelo desassoreamento do porto, de forma a ajudar ao desenvolvimento da indústria naval da localidade. É para Bruxelas que olham quando se fala nos milhões de euros necessários para as mudanças estruturais.

“Eu diria que os escoceses têm todo o direito de ficarem zangados se o Reino Unido os levar a sair da União Europeia contra a sua vontade. É óbvio que isso provocaria uma nova reflexão sobre o lugar da Escócia no interior do Reino Unido”, afirma Ross Cassie.

Quando se fala na Escócia, as Highlands ocupam um lugar particular no imaginário. A história da destilaria familiar de John Harvey McDonough remonta a 1770. Grande parte da produção deste whisky dirige-se à China, onde John viveu durante duas décadas. Para ele, o afastamento do bloco europeu não faz sentido nenhum: “O nosso negócio desenvolveu-se muito. A China e Taiwan representam cerca de 80% do nosso mercado. O nosso mercado está a crescer também na Europa e na América do Norte. O nosso mercado, no fundo, é o mundo. E, como tal, a União Europeia é uma parte muito importante.”

A Associação de Whisky Escocês tem salientado que são os acordos de livre comércio estabelecidos com Bruxelas que garantem um escoamento sólido dos produtos escoceses, gerando mais emprego. Segundo o diretor executivo, David Frost, “cerca de 40% das exportações vão para a Europa. Se deixarmos a União Europeia, vão surgir barreiras administrativas. Se o Brexit for para a frente, vamos perder o acesso aos acordos de livre comércio. Isso é óbvio. Vai levar muito tempo até o Reino Unido conseguir renegociar novos acordos. É do nosso interesse fazer parte do maior mercado possível com o menor número de obstáculos. E é isso que o mercado único nos dá. É o que nos dão os acordos de livre comércio. Porque razão haveríamos de abdicar disso?”

Europeus de Glasgow

Há muito que Gorbals é conhecido por ser um bairro pobre e problemático de Glasgow. Durante os anos 60 e 70, surgiram alguns projetos urbanísticos para tentar dinamizar a zona. Mas o efeito foi o inverso. Onde antes havia uma torre de 24 andares, há agora um monte de entulho. Isto porque se está a apostar num conceito de alojamento social neste bairro assente na construção de qualidade e em espaços vigiados.

Cathrin e Michael têm quatro filhos e vivem nos novos edifícios de Gorbals. “Não é possível que 200 famílias vivam num só prédio. Se os nossos filhos crescerem num ambiente dominado pelas drogas, pelo álcool, pelos gangues, vão acabar envolvidos nisso tudo…”, aponta Cathrin. Já Michael realça que “o dinheiro da União Europeia traz muito mais benefícios do que se pensa. Ajudou a renovar esta área. Só por isso, já é positivo.”

Esta família tem origens belgas, francesas, alemãs e irlandesas. Um concentrado de Europa que se reflete nas palavras de Cathrin: “Não nos consideramos escoceses, só porque nascemos na Escócia. Somos europeus. Tenho muito orgulho em ser europeia.”

Não é difícil encontrar aqui quem continue a olhar para a Europa como um paradigma de solidariedade. O Banco Europeu de Investimento anunciou recentemente novos financiamentos na ordem de mais de mil milhões de euros no setor do alojamento social britânico.

Fraser Stewart, da New Gorbals Housing Association, afirma que “o dinheiro do Banco Europeu de Investimento tem sido uma grande ajuda. É um financiamento estável, por metade dos juros, o que nos poupa muito dinheiro. Há uma ligação evidente entre o empenho que a Europa tem em ajudar as comunidades mais pobres e a capacidade de obtermos dinheiro junto de instituições como o Banco Europeu de Investimento. E esperamos que continue, porque sem isso, não sei onde é que poderemos encontrar financiamento no futuro…”.

Scots against Brexit
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