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O muro de aço que ameaça separar o País de Gales da Europa

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O muro de aço que ameaça separar o País de Gales da Europa

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“Salvem o nosso aço” – foi o que centenas de trabalhadores vieram dizer ao governo britânico, numa manifestação em Londres. Na origem de tudo isto está o anúncio do grupo indiano Tata Steel, que pretende vender ou fechar mesmo as suas unidades siderúrgicas situadas na Grã-Bretanha. Estão em causa cerca de 15 mil postos de trabalho e uma contestação que pode ter influência no referendo de 23 de junho.

Até que ponto ficar ou sair da União Europeia é uma questão determinante para o futuro da siderurgia britânica? Foi a pergunta que viemos fazer a Port Talbot, o grande centro de produção no País de Gales, que dá emprego a milhares de pessoas.

A história de Port Talbot

É aqui que encontramos Steve Davies, para quem a fábrica de Port Talbot é uma história de família: tanto os seus pais, como o seu filho sempre partilharam a mesma atividade.

“Há muitas famílias que trabalham nesta fábrica há 4, 5, 6 gerações. Sem o aço, não há Port Talbot. As consequências de um encerramento seriam catastróficas. Haveria empresas a ir à falência em toda a região. Porque isto não tem só a ver com o aço. Tem a ver com os transportes, com o comércio, com as mercearias, com os quiosques, com os cabeleireiros. Temos de olhar para o panorama no seu todo. Temos de continuar na União Europeia. Neste momento, estamos à procura de compradores potenciais. E é muito importante que eles saibam que nós continuamos a fazer parte da Europa”, diz-nos.

A importância dos fundos estruturais europeus para o País de Gales tem sido fulcral, sendo uma região economicamente fragilizada que já viveu momentos idênticos: nos anos 80, foi a indústria mineira a colapsar. Muitos galeses acusam o governo britânico de nada fazer para alavancar a indústria siderúrgica e dar um horizonte à população. E, como o executivo é pró-europeu, o olhar sobre Bruxelas é de ceticismo. Na verdade, os apoiantes do Brexit garantem que 70% dos galeses vão votar pela saída da União Europeia.

Paul David Smith, garagista, é um deles. “O governo não faz nada por nós. Aliás, está constantemente contra nós. Portanto, agora chegou a altura de dizermos: ‘basta’. Vamos votar para sair da Europa e nos impormos por nós mesmos. É preciso ver de onde vem o dinheiro que entra no Reino Unido. Se pouparmos dinheiro, em vez de andar a dar fundos à União Europeia, vamos conseguir reerguer este país de novo”, afirma.

O Reino Unido é o segundo maior produtor de aço na Europa. 40% da produção destina-se à Tata Steel. Segundo o economista David Blackaby, se o Brexit acontecer, este setor vai sair claramente prejudicado.

“A indústria siderúrgica britânica vai continuar a existir, quer estejamos dentro ou fora da União Europeia. A questão é que, em termos de progresso económico, esta indústria será mais bem-sucedida se ficarmos no bloco europeu. Muitas empresas, muitas multinacionais, procuram investir nesta parte do mundo por causa da União Europeia. Se nos afastarmos, o mais provável é assistirmos a uma queda do investimento no País de Gales, não apenas no setor do aço, mas também no setor automóvel, e por aí fora…”, aponta Blackaby.

O Brexit protege a indústria galesa?

Os apoiantes do Brexit distribuem panfletos porta a porta no centro de Port Talbot. Consideram que, pelo contrário, é a integração comunitária que enfraquece a siderurgia, por causa de todas as regulações sobre a concorrência, as ajudas de Estado e a ineficácia das políticas antidumping.

Um deles, Llyr Powell, membro do UKIP, declara: “Não muito longe daqui, estão a construir um parque eólico com aço chinês, por causa das regras sobre os mercados públicos. Nem num projeto local conseguimos fazer com que seja utilizado aço de Port Talbot. Não conseguimos baixar os impostos sobre as empresas por causa das leis europeias relativas às ajudas de Estado. Não podemos favorecer a nossa própria indústria. Se deixássemos a União Europeia, poderíamos reduzir os impostos, utilizar o nosso aço nos nossos projetos… Há muitas opções para salvar a nossa siderurgia, se sairmos da União Europeia.”

Morgan Brobyn, da campanha Vote Leave, considera que “o grande problema prende-se com as normas europeias sobre as empresas, sobretudo em matéria de energia. Isso tem tido um efeito tremendamente nocivo sobre todas as empresas que consomem muita energia. Não temos o direito de aplicar medidas antidumping sem a autorização da Comissão Europeia, porque é da sua competência exclusiva. Se estivéssemos fora da União, as nossas diretivas seriam as normas da Organização Mundial do Comércio, o que nos permitiria aplicar tarifas aduaneiras muito mais altas. Tal como os Estados Unidos fizeram para proteger a sua própria indústria.”

A título de exemplo, os Estados Unidos impuseram taxas sobre a importação de aço chinês na ordem dos 236%; na União Europeia, são de 20%. Bruxelas tem tentado modificar esta situação e aumentar a fasquia, mas é precisamente o governo britânico que se tem oposto. É o que salienta o deputado trabalhista Stephen Kinnock, eleito por esta circunscrição.

“Se sairmos da União Europeia, teremos de começar a negociar um novo modelo comercial. Continuaremos no mercado único ou não? Se for ‘não’, que tarifas aduaneiras é que teremos de começar a pagar? Quais serão os impostos sobre as exportações de aço? Quais serão os impostos por cada automóvel que exportarmos, o que representa uma fatia enorme da produção de Port Talbot? A maior parte dos clientes pertence à indústria automóvel. Vamos acabar por nos encontrar numa situação que pode ser fatal para o setor”, diz Kinnock.

Scott Bamsey é o mais jovem dos delegados sindicais da fábrica de Port Talbot. Também a sua família trabalha na siderurgia há várias gerações. Décadas de experiência acumulada no setor fazem com que encarem a hipótese de um Brexit como demasiado arriscada. “Se sairmos, não teremos uma palavra a dizer sobre o que se passa na Europa. Temos de ficar e lutar contra o dumping chinês. O afastamento da Europa levanta tantas incógnitas… Estamos mais seguros assim. Caso contrário, teremos de negociar novos acordos comerciais e isso só vai piorar uma situação que já é complicada. Eu acho que a melhor opção para nós e para a indústria siderúrgica é ficar”, considera Scott.

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