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Muitos dos cremes que usamos podem ser tóxicos

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Muitos dos cremes que usamos podem ser tóxicos

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Podemos comprá-los na farmácia ou no supermercado. Muitos trazem no rótulo a indicação “hipoalergénico”, “sem parabenos” ou “testado dermatologicamente”. Mas a verdade é que inúmeros produtos cosméticos contêm substâncias químicas que podem alterar o sistema hormonal, com consequências particularmente nefastas sobre as mulheres grávidas e as crianças. Alguns médicos dizem mesmo que podem provocar cancro. Estará o setor da cosmética disposto a mudar alguma coisa?

Antes de dar à luz, a mãe de Auguste, que tem agora quatro meses, tomou uma decisão inabalável: não sujeitar o filho a produtos que contenham substâncias químicas. Um exemplo: em vez do habitual creme de corpo, Bożena utiliza um bálsamo à base de azeite, com ingredientes 100% naturais.

“Hoje em dia, os cremes têm produtos que são inúteis – como os conservantes -, e que causam alterações endócrinas. Não são necessários e são maus para a saúde, tanto para os adultos, como sobretudo para os bebés”, diz-nos.

O problema dos disruptores endócrinos

Bożena tem o hábito de ler integralmente a lista de ingredientes dos cosméticos que compra. É o que costumam fazer também várias associações de defesa dos consumidores, como a francesa UFC-Que Choisir, que divulgou recentemente uma lista de 250 produtos com ingredientes sinalizados como preocupantes.

Entre eles encontra-se o controverso conservante Metilisotiazolinona (Metili soti azolinona), apontado frequentemente como alergénico. Incluem-se também os parabenos e o fenoxietanol. Muitos destes produtos sintéticos são denunciados como disruptores endócrinos, ou seja, modificam o funcionamento das hormonas.

Gaelle Landry, da UFC-Que Choisir, salienta que “se um produto for alergénico, no dia seguinte aparecem-lhe borbulhas e deixa de o usar. Mas as consequências dos disruptores endócrinos só são visíveis 30 anos mais tarde.”

Os alertas da nocividade destes produtos, sobretudo nas crianças e nas mulheres grávidas, multiplicam-se. Ainda mais porque se verifica o fenómeno “cocktail”, isto é, para além dos cosméticos, os disruptores endócrinos também podem estar presentes na alimentação, no ar e na água.

“Uma mulher grávida, por exemplo, pode transmitir esses tóxicos ao bebé, alterando o funcionamento das células. Essa criança, mais tarde, arrisca-se a sofrer de várias doenças, entre as quais o cancro. Os cancros mais comuns estão ligados às hormonas, como o cancro da próstata ou da mama”, afirma Pierre Souvet, presidente da Associação Saúde e Ambiente francesa.

Há também dados que apontam para uma correlação com o surgimento de diabetes, infertilidade e certos tipos de autismo. Como é que a indústria dos cosméticos reage às conclusões do estudo da associação francesa? A Dra. Anne Dux, representante do setor, garante que as normas de segurança são respeitadas.

“Os testes de segurança efetuados abrangem todos os ingredientes colocados nos produtos e esses ingredientes são seguros. Não há produtos cosméticos perigosos nos circuitos normais de distribuição na Europa. As conclusões desse estudo são, no mínimo, exageradas”, considera.

“A pele dos bebés é exatamente igual à dos adultos”

A maior parte dos cosméticos terá disruptores endócrinos. E a questão centra-se nas dosagens. Os fabricantes asseguram que são ínfimas; mas há quem saliente que o perigo está lá. Segundo Pierre Souvet, “o problema não é a quantidade: por vezes, as doses reduzidas são mais perigosas do que as dosagens mais fortes.”

No entanto, Anne Dux relembra que “as autoridades sanitárias alemãs chamaram recentemente especialistas do mundo inteiro e as conclusões foram que não há provas científicas que apontem para a existência desse fenómeno. Ou seja, estamos a falar de coisas que ninguém tem a certeza que existam realmente.”

Na verdade, e as vozes críticas sublinham a estranheza deste aspeto, não há normas específicas que regulamentem os ingredientes químicos presentes nos cosméticos para crianças. Os fabricantes limitam-se, por exemplo, a reduzir o número de substâncias utilizado.

“A nível da permeabilidade, da forma como as moléculas atravessam a epiderme, a pele dos bebés é exatamente igual à dos adultos. É um processo muito rápido. Ao fim de algumas semanas de vida, não há qualquer diferença entre a pele de um bebé e a de um adulto”, diz-nos Anne Dux.

Mas Gaelle Landry não hesita em declarar que “do ponto de vista científico, isso não é verdade. As crianças têm uma pele mais frágil, mais fina. Ou seja, é uma pele que deixa as móleculas passarem mais facilmente, não está tão protegida como a dos adultos, que segrega gordura e suor, por exemplo. Os bebés transpiram muito pouco, não têm esses elementos. Possuem apenas uma película hidrolipídica que não as protege totalmente.”

Afinal, porque é que os fabricantes de cosméticos não substituem simplesmente os produtos químicos por substâncias naturais? Há quem realce os elevados custos que isso implicaria para modificar a cadeia de produção. Mas o argumento mais forte tem a ver, claro, com a extrema eficácia destes produtos. Céline Couteau trabalhou na indústria química. Depois de se tornar mãe, decidiu lançar uma gama de produtos alternativos para bebés. As fraldas normais, por exemplo, têm 80% de plástico. As que Céline produz são 100% naturais.

“Nós partimos do princípio de que, hoje em dia, os materiais naturais podem ser tão eficazes como os derivados de petróleo, podem apresentar os mesmos resultados, oferecer os mesmos cuidados que as moléculas produzidas pela indústria petroquímica”, realça.

A Comissão Europeia definiu recentemente os disruptores endócrinos como “substâncias com efeitos indesejáveis para a saúde humana, afetando o sistema hormonal, numa correlação comprovada”. Mas as associações pedem medidas concretas e denunciam a imobilidade do lóbi da indústria química.

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