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Quem alimenta o "monstro" do jihadismo: O papel do ocidente e dos média

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Quem alimenta o "monstro" do jihadismo: O papel do ocidente e dos média

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As políticas dos governos ocidentais, racismo, isolamento, misoginia, desespero e negação – o jihadismo é um cocktail envenenado que tem sido preparado durante décadas.

É a conclusão da realizadora norueguesa Deeyah Khan, cujo mais recente documentário, Jihad: A story of the others, põe a nu o papel desempenhado por todos estes ingredientes no alimentar de um “monstro” que fugiu há muito ao controlo daqueles que o criaram. Entrevistada pelo jornalista da euronews Nelson Pereira, Deeyah denuncia a hipocrisia dos governos que apoiaram os grupos jihadistas quando eram úteis como aliados contra o poder soviético e contra dirigentes que queriam derrubar. Recorda que o movimento jihadista tem crescido nos últimos 30-40 anos com o conhecimento e incentivo dos governos ocidentais, tanto sob a forma de negligência como de apoio direto, com políticos como Tatcher a defenderem a utilidade da Jihad.

“O monstro cresceu,” constata, “foi alimentado, foi armado. Durante muitos anos destruiu apenas muçulmanos. Durante muito tempo, estes homens e outros como eles destruíam muçulmanos e sociedades muçulmanas, envenenaram-nas, e ninguém se preocupava.”

Deeyah aponta dois países como particularmente importantes na formação do movimento jihadista – a Grã-Bretanha, que funcionou como centro de disseminação do ensinamento radical na Europa, e a Arábia Saudita, onde nasceram muitas doutrinas extremistas.

“Uma das principais fontes deste cancro é a Arábia Saudita, que espalhou o veneno em todos os outros países e nas nossas comunidades. Apesar disto, os líderes ocidentais estão prontos a dar-lhe uma medalha por combate contra o extremismo,” lamenta.

Frisa que há que denunciar e enfrentar o movimento jihadista e os seus líderes, mas também os dirigentes ocidentais, pois “ambos os lados estão errados, ambos se alimentam mutuamente, indiferentes ao preço que pagam os seres humanos e as sociedades: “Temos de começar a pensar que tipo de sociedade queremos ser”.

Nascida em Oslo de pais de origem Panjabi/Pashtun, Deeyah cresceu entre as exigências e suscetibilidades asfixiantes da comunidade muçulmana a que pertencia e a rejeição irracional e por vezes violenta manifestada por “brancos” no país natal. Uma série de experiências que a empurraram a procurar respostas. Foi assim que decidiu pegar numa câmara. Para perceber o que faz jovens muçulmanos ocidentais sentirem-se marginalizados, sem modelos a seguir, confrontados com o racismo e a exclusão, colocados à margem das oportunidades.

Consciente da pressão a que os jovens muçulmanos ocidentais estão sujeitos no seio das suas famílias e comunidades, Deeyah Khan debruçou-se sobre estas situações no seu primeiro documentário, Banaz: A Love Story, sobre o “assassínio de honra” de Banaz Mahmod, morta em Londres em 2006 por membros da sua família, curdos iraquianos, que a fizeram pagar com a vida o facto de ter deixado um marido violento para viver com o homem que amava.

“Outra questão fundamental subjacente ao problema da radicalização é o acesso ao poder. A maioria dos homens ou mulheres de origem imigrante não tem acesso ao poder, não pode participar no poder”, assinala Khan, acrescentando que os média contribuem de forma negativa concentrando a atenção nos assassinos e ignorando aqueles que se opõem à injustiça.

Convencida de que a única esperança de mudança só pode vir da sociedade civil, a realizadora empenha-se desde há alguns anos em promover iniciativas no campo dos direitos humanos e do diálogo intercultural. Com o objetivo de dar voz às mulheres na discussão sobre o islão e o jihadismo, lançou a revista online Sister-hood.

“São elas com frequência as combatentes de fundo, resistentes e mediadoras, condenadas a sofrer em silêncio, excluídas do debate não só nas sociedades muçulmanas mas também nos meios políticos ocidentais onde são tomadas decisões”, lembra Deeyah Khan.

O documentário Jihad: A story of the others é também um extraordinário exemplo do que pode uma mulher. Deeyah conseguiu um impressionante efeito de catársis nos “homens barbudos” que entrevistou, algo que um homem nunca teria conseguido obter. Quando pergunta a um dos ex-líderes jihadistas, Manwar Ali, conhecido como Shaikh Abu Muntasir, se conseguiu perdoar a si próprio depois de tudo o que fez, sabendo que enviou para a morte centenas de jovens que radicalizou, este responde, depois de um longo silêncio com a voz cortada, “Como é que se responde a isso? Não sei”. Na edição de TEDxExeter 2016, Manwar Ali contou a sua experiência, o antes e o depois de quase duas décadas de forte influência nos destinos de muçulmanos ocidentais.

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